Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-04-2012

SECÇÃO: Reportagem

Ervas aromáticas e medicinais à procura de fileira e à conquista do mercado farmacêutico e da cosmética

Terreno adquirido (1hectare) para construção dos equipamentos (armazém, depósito) (3)
Terreno adquirido (1hectare) para construção dos equipamentos (armazém, depósito) (3)
O estragão-francês, o tomilho-vulgar, a segurelha, a manjerona e a hortelã-pimenta são a essência do projeto das plantas aromáticas e medicinais que deverá nascer no Lugar de Carrazedo, freguesia de Bucos, e que terá como principal destinatário o mercado farmacêutico e da cosmética.
Impulsionado pelo casal Mónica Vaz e Hugo Maia, este projeto pioneiro no concelho de Cabeceiras de Basto surge como forma de dar resposta à crise que afeta todos os setores de atividade, nomeadamente a arquitetura, principal atividade dos mentores desta atividade.
“Nós colocámos a hipótese de emigrar para o Brasil que é um país que está a responder bem aos arquitetos portugueses. No entanto, nós apaixonámo-nos por Cabeceiras de Basto. Eu sou de Lisboa, o Hugo é do Porto e viemos para cá trabalhar e fomos ficando. Abrimos um gabinete de arquitetura e cá estamos”, revela Mónica Vaz, garantindo que “em Cabeceiras de Basto temos ótima qualidade e o tempo é ouro”.
Apaixonada pela paisagem Cabeceirense, a arquiteta fez no ano passado uma pós-graduação em Património Geológico, um recurso que na sua perspetiva não é explorado ao nível turístico.
A crescente importância do interior ao nível das oportunidades é para a jovem empreendedora uma realidade porque “antigamente o interior refletia distância mas hoje em dia isso não acontece”.
A utilização das ervas aromáticas e os tratamentos à base de plantas medicinais estão a ganhar novo fulgor e a lisboeta a residir em Cabeceiras de Basto há vários anos não quis perder esta oportunidade.
A ideia de plantação das ervas aromáticas e medicinais cresceu graças ao incentivo de Luís Alves, amigo dos futuros produtores, que tem a sua produção localizada em Vila Nova de Gaia, numa empresa designada ‘Cantinho das Aromáticas’.
“Ele dizia-nos que nós estávamos no sítio indicado ao nível das condições do solo e das condições climáticas para as ervas aromáticas”, confessou a arquiteta à reportagem do jornal Ecos de Basto.
Depois de uma exaustiva procura de terra, os jovens encontraram o local onde o projeto das plantas aromáticas e medicinais deve ganhar raízes. Ao todo são 3,5 hectares (ha), sendo 1 ha para aquisição e os outros 2,5 ha para aluguer no Lugar de Carrazedo, freguesia de Bucos.
Mónica Vaz, no terreno destinado  para plantação de ervas aromáticas e medicinais (2,5 hectares) alugado (15)
Mónica Vaz, no terreno destinado para plantação de ervas aromáticas e medicinais (2,5 hectares) alugado (15)
Segundo Mónica Vaz, a maior dificuldade foi arranjar terra. “É difícil para quem não tem arranjar terra porque as produções para serem sustentáveis exigem uma grande área e o nosso território é caracterizado pelo minifúndio”, justificou, salientando a necessidade de “sensibilizar as pessoas para a criação de uma ligação de confiança com os proprietários”.
Em agosto de 2011, Mónica e Hugo deram início à procura de terra, tendo em novembro do mesmo ano conseguido fechar os contratos.
Depois de terem esclarecido dúvidas com consultores que os elucidaram acerca dos apoios financeiros e das questões relacionadas com a exportação das ervas a serem produzidas, os jovens arquitetos apresentaram uma candidatura ao PRODER – Programa de Desenvolvimento Rural.
“Como não somos da área, o PRODER obriga a ter formação em agricultura geral. No entanto, como a ideia é fazermos exportação para o mercado farmacêutico e cosméticos, temos que fazer produção em regime biológico”, explicou Mónica Vaz que, em paralelo com a formação em agricultura geral, está a ter formação em bio pesticidas de forma a perceber qual a melhor forma para produzir bio pesticidas para o controle de pragas pois “é necessário preparar e nutrir o solo antes de se fazer a plantação”, esclareceu.
“As abelhas são ótimas a polinizar” e por isso o Hugo Maia está também a fazer um curso de apicultura para a instalação de colmeias no terreno onde deverá ser implementado o projeto das ervas aromáticas.
Nos tempos livres, o jovem casal desloca-se ao ‘Cantinho das Aromáticas’, em Vila Nova de Gaia, para colocar em prática os conhecimentos.
A candidatura ao PRODER, que deverá comparticipar o projeto em 60%, foi enviada em dezembro de 2011 e os arquitetos mantêm a esperança de que ela seja analisada e aprovada “em breve” para poderem avançar para o processo de certificação biológica.
“Mal seja aprovada a candidatura, o primeiro passo a dar será a aquisição de 1 ha de terreno porque nós só temos contrato de promessa de compra e venda e nosso contrato de arrendamento do terreno agrícola é de 10 anos, como exige o PRODER”, realçou Mónica Vaz que deseja “colocar as plantas na terra daqui a um ano”.
Até lá, os jovens produtores pretendem pedir a baixada de luz, instalar o armazém, os depósitos e os sistemas de rega.
Terreno para plantação de ervas aromáticas e medicinais (2,5 hectares) alugado por onde passa uma levada
Terreno para plantação de ervas aromáticas e medicinais (2,5 hectares) alugado por onde passa uma levada
“A ideia é implementarmos o projeto dentro de dois anos em dois hectares”, destacou a jovem arquiteta que olha para o futuro com grandes expectativas.
A criação de um produto próprio, o alargamento da produção, a redução de custos e a aposta nas energias renováveis serão as apostas para o futuro. “Somos pequeninos para o mercado que queremos conquistar e pedimos apoio aos pequenos produtores que se quiserem juntar a nós para produzirmos todos da mesma maneira em regime biológico” com o objetivo de conquistar os mercados.
De acordo com Mónica Vaz, “o que existe atualmente é o apoio ao nível técnico que damos uns aos outros e o objetivo é termos uma possibilidade de criar uma fileira ao nível nacional, em que todos produzam da mesma maneira para que o produto possa ser exportado em rede de produtores”. A proximidade entre os produtores é, por isso, muito importante.

À conquista do mercado francês

No passado mês de em fevereiro, os jovens arquitetos que se pretendem dedicar às plantas aromáticas e medicinais participaram na BioFach – Feira Anual em Nuremberga, Alemanha, “onde se encontram todos os produtores e produtos biológicos e onde é possível estabelecer inúmeros contactos”.
Na feira, que “surpreendeu pela sua dimensão e pela diversidade de produtores”, Mónica e Hugo apresentaram-se aos importadores das ervas aromáticas e medicinais, estabeleceram contactos e tentaram perceber quais as ervas que tinham maior procura e maior escassez, com o intuito de criarem um produto próprio.
O projeto assenta em cinco variedades de ervas, três delas [estragão-francês, tomilho-vulgar e a segurelha] comuns aos produtores da região e as outras duas ervas [manjerona e a hortelã-pimenta] que seguem as necessidades do mercado nacional.
No caso do estragão-francês, tomilho-vulgar e segurelha, o objetivo é “criar um volume suficiente para encher por ano um ou dois camiões de ervas para a exportação que em princípio terão como destino a França”, enquanto a manjerona e a hortelã-pimenta se destinarão ao mercado português.
Mónica e Hugo pretendem vencer no mercado farmacêutico e da cosmética que “exigem uma qualidade imperativa”.
Primeiro a qualidade será testada através de uma análise de despiste ao nível de químicos em território português, sendo posteriormente analisada a qualidade da erva ao nível dos óleos essenciais e das suas características.
“Se queremos ser reconhecidos no mercado temos de criar uma marca e a qualidade é fundamental”, assegurou Mónica Vaz.
As ervas aromáticas e medicinais a serem plantadas em Carrazedo, na freguesia de Bucos, são plurianuais. De acordo com a arquiteta, “a plantação terá uma duração entre 5 a 7 anos, sendo que no período de inverno as ervas não estarão ativas”, o que significa que a mão-de-obra será sazonal.
No primeiro ano, “como as ervas não terão uma grande velocidade produtiva”, os produtores não necessitarão de mão-de-obra contratada porque esperam recorrer ao apoio dos familiares, mas quando as ervas estiverem em idade adulta e a produção for em maior escala, Mónica e Hugo recorrerão à mão-de-obra temporária.
A exploração está localizada numa zona em que a exposição solar é elevada, tornando-se para isso vital a aposta em equipamentos que sejam sustentáveis e rentáveis em termos energéticos.
A energia solar será utilizada de uma forma passiva, através da colocação de painéis translúcidos na cobertura do armazém, de forma a que se proceda numa primeira linha de produção à secagem natural das matérias-primas. A energia solar será, assim, utilizada para aquecer e ventilar. A secagem das ervas aromáticas realizar-se-á essencialmente nos períodos de verão.
Com este novo projeto, os futuros produtores de plantas aromáticas e medicinais esperam conquistar não só o mercado nacional, mas sobretudo o mercado internacional levando o nome de Cabeceiras de Basto além-fronteiras.

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