Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-04-2012

SECÇÃO: Recordar é viver

1º ENCONTRO DE CONFRATERNIZAÇÃO DE ANTIGOS MÚSICOS DA BANDA CABECEIRENSE

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Caros leitores, a minha crónica de hoje, continua a dar realce aos costumes e tradições. Por conseguinte, continuo a tentar fazer o melhor possível e à minha maneira, descrevendo a cultura de um povo brioso que, prima por seguir e preservar os valores ancestrais para que, não se percam no tempo. Este povo, não permite que o nome dos homens que, ajudaram a “construir” o Património Imaterial nesta terra histórica e que, infelizmente, muitos já não são deste mundo “desapareça” como pó no ar. Estou a referir-me em concreto nos ex - músicos da antiquíssima Banda Cabeceirense, dirigida pelo também sobejamente conhecido, António Mendes.
Costuma-se ou costumava dizer-se antigamente, que no S. Miguel é que se ajustam as contas. Esta norma, era mais utilizada entre patrões e caseiros nos rendimentos que as terras produziam e que, se tinha de entregar as medidas aos patrões. Também, nessa altura do S. Miguel (mês de Setembro) era a altura de uns caseiros entregarem as terras e outros entrarem. Servia também para os mesmos caseiros pagarem as dívidas da mercearia atrasadas que, eram pagas depois das colheitas, se, elas corressem bem mas, a expressão dos acertos das contas também, servia para pagar contas mas, à paulada. Isto para dizer que em Setembro, não se fazem só acertos de contas, também, é uma ocasião propícia onde os amigos e familiares vêm visitar os seus e ao mesmo tempo aproveitar as festividades.
Ora bem, foi precisamente durante a feira do S. Miguel, mais propriamente no dia da atuação das Bandas - a nossa e a do visitante que tem sido um sucesso no dia 29 de Setembro, dia do Padroeiro onde estavam a assistir ex- músicos – que se começou a “germinar” a ideia de organizar um encontro com os antigos músicos e, ao mesmo tempo relembrar também, aqueles que já não estão neste mundo e que, tão importantes foram na formação de uma banda, de que todos se honravam, mesmo com as condições precárias existentes naquele tempo.
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Escusado será dizer que a ideia deu frutos! O grupo foi formado pelo Baltazar Alves Mendes, que como se devem lembrar é filho do falecido Maestro António Mendes, José António Gonçalves, do Alto do Monte, Arlindo de Jesus, da Ribeira, Gerónimo Leite, das Acácias, Álvaro Gomes, da Freita, todos da freguesia de Refojos.
Este grupo que, como se sabe são ex-músicos, depois de organizados, procederam à divulgação da iniciativa através dos meios de comunicação, Ecos de Basto e Rádio Voz de Basto. Foram também passando a palavra uns aos outros que, por sua vez, lhes facultavam o contacto de outros.
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Devo referir que, este primeiro encontro se destinou somente aos ex- músicos que, iniciaram a atividade musical na Banda de Cabeceiras e respetivas famílias.
Chegou o dia 31 de Março e com ele, o encontro tão esperado. Para dizer com sinceridade estavam com alguma expectativa pois muitos deles já há muitos anos que, a maior parte, não se encontrava. O encontro deu-se na Praça da República, no jardim, onde se gerou uma certa confusão com alguns a tentar recordarem-se dos rostos do colegas. Naturalmente, foram muitos os anos passados. O tempo passa e não poupa ninguém embora, uns estejam mais conservados que outros.
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Como estava “a dizer”, todas as “passagens” deste evento importante do dia 31 de Março, me foram ditas diretamente aqui, na redação, pelo Baltazar Mendes, Gerónimo Leite e Álvaro Gomes.
Disse o Baltazar Mendes que, noventa por cento das pessoas que pertenceram à Banda, responderam à chamada. Trocaram impressões e ao mesmo tempo foram ao baú das memórias para falar dos quase cinquenta anos que vários passaram sem se ver. Foram conversando no maravilhoso jardim que, embeleza a nossa Praça, enquanto esperavam pela hora da missa, em memória dos músicos já falecidos. A missa foi celebrada pelo Arcipreste Marcelino, cantada por músicos, acompanhada ao órgão pelo senhor Domingos Leite, polícia aposentado, de Outeiro que também é um ex-músico.
Nesse dia, foi lembrado Francisco Neiva, antigo músico e, para quem não sabe era cunhado do senhor Freitas (Casa Freitas) que vinha para o evento e, por uma grande infelicidade para a família, faleceu no dia anterior ao encontro, em casa de familiares.
Devo dizer que fiquei triste quando o Baltazar Mendes o referiu porque, além de conhecer a sua família, por quem tenho muito respeito e consideração também, o senhor Neiva lia sempre as notícias através do Ecos de Basto.
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Finda a cerimónia, e porque estava já programada, fez-se uma visita à Casa da Música, na antiga Cadeia das Pereiras. A Câmara Municipal de Cabeceiras, restaurou-a dando dignidade àquele espaço público que, como todos sabem estava completamente degradado. Uma vez recuperado o edifício da antiga Cadeia das Pereiras, transformou-o em um espaço cultural, direccionado para as artes musicais, onde está reservado um um espaço totalmente adaptado para a Banda Cabeceirense. A Câmara Municipal quis honrar António Mendes, um grande Homem da arte musical, que nos deixou um património imaterial dando o seu nome à Casa da Música – António Mendes.
Só por curiosidade, no tempo em que a Cadeia das Pereiras funcionava, o carcereiro era o senhor António Mendes e, vivia na casa ao lado com a família. Foi lá que nasceu o Baltazar Mendes e uma sua irmã que entretanto já faleceu.
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Também num aparte, me lembro de haver presos naquela cadeia. Tanto acontecia serem homens como mulheres, recordo-me de uma que esteve lá quando eu era menina.
Ficaram todos maravilhados com as boas condições que os músicos têm para os ensaios. Diziam durante a visita que, antigamente, os ensaios eram feitos em locais térreos onde, por vezes, entravam enxurradas de água que vinham dos campos mais elevados e que entravam pelos fundos onde ensaiavam e que, se não queriam ter os pés molhados, tinham de colocar umas tábuas para por os pés. Ensaiaram muitas vezes nas instalações do antiquíssimo quartel dos Bombeiros (um barracão) da época onde se tinha de tirar o único carro de incêndios para fora para ensaiar.
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A sobrevivência da Banda dependia de alguns donativos, peditórios feitos durante as atuações na Páscoa, Segunda-feira de Páscoa e na Pascoela, onde ia sempre alguém com uma saca à frente ou ao lado da Banda à espera que lá se metessem donativos. O dinheiro que recebiam quando atuavam em festas e romarias era destinado às despesas com os instrumentos, transportes e fardamentos.
Finda a visita à Casa da Música António Mendes, de onde saíram deveras encantados com o que viram, foram encaminhados pelos membros da organização para a Quinta da Devesa, em Olela, Basto, onde foi servido um bom repasto, sempre acompanhado de alegre cavaqueira na troca de memórias e saudades. Foram ditas algumas palavras alusivas ao ato e aos tempos passados vividos na música, muitas das vezes em situações difíceis e precárias.
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Leram-se mensagens de quem não pode estar presente, por compromissos pessoais inadiáveis e/ou por motivo de saúde, como por exemplo o cabeceirense Jaime de Sousa e Silva, mais conhecido na gíria musical “Chico Grilo”.
É um homem que, hoje tem orgulhosamente noventa e um anos e que, continua com a terra de Cabeceiras de Basto no coração. Somos testemunhas desse seu amor pela terra, através de textos e poemas enviados à imprensa local, nomeadamente, ao Ecos de Basto.
O Baltazar Mendes, tinha uma carta que lhe foi dirigida pelo senhor Jaime para ser lida perante todos os presentes.
O Celestino Vaz, nas palavras que dirigiu, lembrou os músicos falecidos. Entre eles os Mendes, os António e o José “Marras”, Eurico Batista, o Franco e Manuel Magalhães (Geba), auxiliares dos músicos, o Lourenço Castro, o Álvaro Mendes (Larocha), o Ângelo Leite (pedreiro), o Eduardo Rolo, Francisco Neiva, Eugénio, entre outros.
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Antes dos discursos, guardou-se um minuto de silêncio em pé em memória de todos os desaparecidos e numa triste coincidência o falecimento de Francisco Neiva, no dia anterior ao encontro.
Depois das palavras dos oradores, houve uma surpresa inesperada que constou da atuação de alguns elementos, mais ou menos dezoito músicos que na sua maior parte já não tocavam há mais de dez anos e, só se reuniram naquele dia. Deram um pequeno concerto que foi do agrado de todos, tanto, que todos quiseram fazer parte e, aqueles que tinham algum instrumento com eles participaram da melhor maneira possível.
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Todos os presentes agradeceram este maravilhoso convívio e incentivaram a que estes encontros se repitam amiudadamente.
Das cento e seis presenças confirmadas, quarenta e oito eram ex-músicos.
A organização agradeceu muito sensibilizada a presença de todos os músicos que responderam à chamada, incluindo os seus familiares.
Agradece também, ao Jornal Ecos de Basto, Rádio Voz de Basto pela divulgação deste evento que se rodeou de tanta emoção.
À Direção da Banda Cabeceirense, pela colaboração prestada não só durante a visita à Casa da Música, como também, da disponibilização de instrumentos musicais e algumas músicas, ao Arcipreste Padre Marcelino pela disponibilidade para celebrar esta missa de sufrágio pelos que partiram.
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Encerro este texto, agradecendo ao Baltazar Alves Mendes, Gerónimo Leite e Álvaro Gomes, alguns dos membros da organização do evento pelo relato do acontecimento. Foi para mim uma honra que a organização, entre eles os três elementos citados, me facultasse, com pormenores, o primeiro encontro dos ex-músicos e, eu assim, poder transmitir através da minha página, àqueles que por vários motivos foram impedidos de estar presentes e, de certa maneira também se animarem a vir num outro possível encontro.
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fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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