Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-04-2012

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (154)

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OS MOURAS DA PONTE DE PÉ

No passado dia nove de Março (eu escrevo Março com letra maiúscula) cruzei-me, ali no Campo do Sêco, mesmo em frente do edifício das antigas escolas primárias, com um dos filhos do fundador daquele que fora, nos anos cinquenta e sessenta do século passado, o maior estabelecimento comercial da sede do nosso concelho.
Dirigi-me a ele e tratei-o por Senhor Mariozinho, ao que ele retorquiu: Mário, trate-me por Mário, se faz favor. Está bem, Senhor Mário de Moura, continuei. Coloquei-lhe algumas questões que já trazia em mente há bastante tempo, sempre com a intenção de vir a reduzir a escrito algo sobre a casa que fora, para mim, um ponto de referência.
Referência, porque era ali que eu me dirigia sempre que, à tardinha, a minha mãe me mandava, lá desde o Banido de Cima, fazer as compras daquilo a que se chamava as precisões mínimas para o governo da casa. Coisas como meio quartilho de petróleo, cinco tostões de sal, uma caixa de “palhites”, cinco tostões de sabão, por vezes, muito raramente, dez tostões de bacalhau.
Dez tostões de bacalhau era uma posta, uma posta como aquelas que hoje nos são servidas com grão-de-bico, ou batatas, numa qualquer casa de refeições económicas, que o meu pai, à noite, dividia por sete. Dava um pedaço do tamanho da falangeta do dedo pequeno da mão de uma criança, do meu próprio dedo.
Lembro-me dos nomes de dois dos empregados da secção de mercearia, eram o Manuel Campos e Manuel da Virgínia, qualquer deles sempre me mimoseava com um rebuçado ou com dois figos secos, no tempo dos figos secos, por vezes o Senhor Arturinho também, quero dizer, também me dava figos secos e rebuçados. Boa gente!
O estabelecimento comercial tinha a denominação de Álvaro de Moura Teixeira & Filhos, Lda. Fiquei agora a saber, pela voz do Senhor Mário de Moura, que fora fundado de raiz nos primeiros anos de vida profissional de seu pai, ali por volta de 1900. O Senhor Álvaro de Moura Teixeira nasceu no ano de 1879 e deve ter iniciado o negócio com vinte e poucos.
De início, formou a sociedade com outro cidadão que deveria ter sensivelmente a sua idade, o Senhor Eugénio Camelo, que eu conheci também como sendo o Senhor Eugeninho da Ponte. A sua casa de residência era aquela que ainda lá se encontra, em bastante bom estado de conservação, mesmo à entrada da ponte, do lado esquerdo de quem desce no sentido do centro para a periferia.
Passados alguns anos, parece que poucos, e ao ver o número de filhos do sócio Álvaro a crescer, o Senhor Eugénio Camelo julgou que o melhor seria deixar a sociedade, o que terá feito, segundo o filho daquele, o Senhor Mário de Moura, do melhor modo, tudo com lisura e sinceridade de procedimentos.
Tinha razão o Senhor Eugénio Camelo, pois que a prole do Senhor Álvaro de Moura Teixeira viria a atingir o número de oito, cinco meninos e três meninas: os meninos, que não sei a ordem das suas idades, eram o Mário, o Artur, o Rogério, o Orlando e o António; as meninas eram a Lúcia, a Teresa e a Emília. Dos homens, apenas é vivo o Mário, agora com noventa e cinco anos, nasceu em 1917. Das mulheres, parece que ainda todas as três são vivas.
O Senhor Álvaro de Moura Teixeira faleceu no dia vinte de Junho de 1951, tinha a idade de setenta e dois anos. Sucederam-lhe, no negócio da Ponte de Pé, os filhos Mário e Artur.
Com estas linhas, pretendo essencialmente dar relevo à admiração que despertava em mim o movimento daquela casa comercial, nos tempos em que eu era uma criança, com cinco ou seis anos, e fui crescendo até aos catorze ou quinze.
O edifício ainda lá se encontra, com a mesma volumetria daquela época, anos cinquenta e sessenta do século passado. Estende-se ao longo de umas três dezenas de metros.
O estabelecimento ocupava todo o rés-do-chão da casa que lhe dava o nome, e ainda o do edifício que lhe ficava contíguo, o edifício do asilo de mendicidade. Voltadas para a rua principal, a Estrada Nacional 311, tinha dez portas, todas de madeira e muito altas, uma montra, uma janela e um postigo. Para o outro lado, para o caminho que segue para a Reboreda, ou para Fontão, tinha um postigo, uma janela e duas portas.
Começando de cima para baixo, ou seja, no sentido da ponte, havia a loja de fazendas, tecidos e miudezas, esta tinha no início uma montra e depois três portas. Seguia-se a loja de mercearia, todo o tipo de mercearias, grossas e finas, azeite, petróleo, sortidos de bolachas e biscoitos.
Das fazendas para a mercearia descia-se, ou subia-se, dois degraus, e tinha ali, na extremidade do balcão, que vinha daquele lado, e ficava a um nível ligeiramente superior, a máquina registadora, que soltava um “tlim tlim” sempre que era aberta por qualquer dos empregados ou dos patrões.
A loja das mercearias tinha, tal como a das fazendas, três portas altas voltadas para a rua. Nesta, o balcão era em curva e contra curva, uma espécie de “S” muito alongado e com uma das pontas mais curta que a outra, e orientava-se no sentido de uma porta que dava acesso, pelo interior, a outra secção, à drogaria.
A drogaria tinha duas portas, com o formato de todas as restantes desta fachada, que se encontravam quase sempre encerradas, só eram abertas para a saída de mercadorias mais pesadas, e que eram movimentadas directamente para cima dos meios de transporte, carros de bois, ou a furgoneta do armazém conduzida pelo Senhor Cardoso da Casa do Cruzeiro.
Depois, ocupando o espaço que ficava no rés-do-chão do edifício onde funcionava o asilo de mendicidade, encontrava-se o armazém. Os Mouras vendiam também mercadorias por grosso para as mais diversas lojas de mercearia de grande parte do concelho. Era dali que partia o maior movimento que utilizava a furgoneta, uma ford de cor azul, conduzida pelo Senhor Cardoso. Este tinha como ajudante o Senhor Joaquim, conhecido por Joaquim do Armazém.
Cada uma das secções tinha o seu responsável: nas fazendas, era o Senhor Mariozinho, sempre impecavelmente vestido e bem-falante; nas mercearias, era o Senhor Arturinho, que usava uma bata azul, mas igualmente delicado com os clientes e comigo próprio, pois que também me dava figos e rebuçados; e no armazém, parece que era o Senhor Cardoso, o responsável.
Havia dois frequentadores assíduos da loja das fazendas que passavam grande parte das tardes, em amena cavaqueira, sentados num banco de encosto que estava colocado no interior e de costas voltadas para a montra, eram o Senhor Eugeninho da Ponte e o Senhor Chiquinho da Portela.
Causava-me grande admiração o alvoroço que se verificava, às segundas-feiras à tarde, quando as camionetas da Viação Automotora paravam ali em frente, a carreira e um ou dois desdobramentos, e as pessoas que se dirigiam para os mais variados lugares das freguesias de Riodouro e de Salto carregavam os tejadilhos com cestos, sacos e gigas de toda a sorte de compras que levavam da feira e dali das lojas dos Mouras.
A Estrada Nacional 311 tinha acabado de ser rompida até aos limites de Lodeiro d’Arque, encontrava-se pavimentada a macadame, o suficiente para que as camionetas da carreira já pudessem subir até aos limites do concelho e servir as gentes da freguesia de Salto do vizinho concelho de Montalegre.
Anos cinquenta e poucos do século passado!
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

Por: José Costa Oliveira

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