Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 26-03-2012

SECÇÃO: Reportagem

Centro de Teatro revitaliza histórias, memórias, cultura

Pessoas, memórias, histórias, usos, costumes, tradições, património, cultura. São estas as razões e os motivos que levaram a Câmara Municipal de Cabeceias de Basto a apostar no Centro de Teatro, um projeto reformulado que surge agora com novos trabalhos e desafios, no qual Cabeceiras de Basto e os Cabeceirenses têm um papel preponderante.
O Centro de Teatro quer afirmar-se no panorama cultural da região como “um centro de memórias, de tradições e de património que pretende manter viva a cultura” local.
Três oficinas temáticas para crianças, jovens e adultos são a base do Centro de Teatro da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto (CTCMCB).
Cativar, envolver e surpreender as diferentes gerações são os objetivos do novo grupo de trabalho, que vê em Cabeceiras de Basto uma terra de cultura, de histórias e de memórias que querem revitalizar, preservar e transformar.

Alexandre Reis, Roberto Moreira, Joana Veloso e Armando Luís integram direção do CTCMCB
Alexandre Reis, Roberto Moreira, Joana Veloso e Armando Luís integram direção do CTCMCB
A equipa é composta por Armando Luís e Roberto Moreira, co-diretores artísticos, Joana Veloso, diretora técnica, e Alexandre Reis na direção de produção do Centro de Teatro da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto.
O Ecos de Basto (EB) falou com os quatro elementos que compõem o Centro de Teatro da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, relatando, de seguida, a entrevista realizada no âmbito deste reinício do projeto em Cabeceiras de Basto.


EB: Tem-se ouvido falar muito nesta questão do ano zero. O que é que isso significa?
CTCMCB: O facto de nós abordarmos esta nova fase do Centro de Teatro como o ano zero está relacionado com a ideia, não só de honrarmos do passado – uma aposta da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto na área da produção teatral, sobretudo de há dois anos a esta parte – como deste novo ciclo que se inicia e representa um novo fôlego.
Houve uma reformulação estratégica no que toca à programação do Centro e à oferta de formação no formato de oficinas. Ao mesmo tempo que se faz essa reformulação estratégica aposta-se numa nova e mais completa equipa de trabalho para que possa ser levado a cabo o plano de atividades que foi definido para este novo Centro.
O ano zero serve para nós transmitirmos a ideia de que estamos a começar de novo, lançando as fundações para construir um projeto sólido, contínuo e que possa sobreviver e tornar-se num legado para a comunidade que nos acolhe.
Há também uma reformulação em termos das oficinas. Estas oficinas apoiam a produção do espetáculo, pois o trabalho realizado em cada uma delas reverte para o resultado final.

EB: Em que é que consiste este novo projeto do Centro de Teatro?
Oficina de Interpretação Teatral para miúdos e graúdos
Oficina de Interpretação Teatral para miúdos e graúdos
CTCMCB: Esta reformulação está relacionada com a aproximação à população. Tal como o teatro de comunidade, o teatro social não faz sentido se não estiver diariamente preocupado com a realidade social e cultural desta região. Qual é a identidade deste povo? Qual é a sua verdadeira essência? Só faz sentido neste tipo de projeto trabalhar com o património material e imaterial desta região.
Há também uma estratégia direcionada para os jovens que passa por motivá-los para aquilo que são as suas tradições e memória identitária.
A propósito disto lembramo-nos sempre das palavras do presidente da Câmara “uma região distante do seu passado, das suas origens e da sua identidade, não pode ter qualquer futuro”. Evidenciamos a cultura para fazer a ligação com as gerações, dando a conhecer técnicas tradicionais de artesanato, contos, histórias e lendas, assumindo-nos como mediadores entre as gerações passadas, que têm este saber, e as presentes.
Muitas vezes, olhamos para a marca deste Centro de Teatro e vemos que é Centro de Teatro da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto mas é também um centro de memórias, de tradições, de património, identidade e estórias - um centro que lida com aquilo que é, no fundo, a identidade desta comunidade.

EB: Quais são os objetivos do Centro de Teatro?
CTCMCB: O projeto tem como base de trabalho o património material e imaterial desta terra. Temos como objetivo fundamental recuperá-lo, valorizá-lo e preservá-lo.
Um segundo objetivo é promover a formação artística em contexto não formal de aprendizagem que fazemos através das oficinas. É através delas que iremos trabalhar e recriar este património.
Fascina-nos muito a tradição oral, este conhecimento que passa de geração em geração e é por isso que, também, assumimos como objetivo deste projeto unir diferentes visões e práticas num ato único e solidário de expressão artística.

EB: A quem se destinam as oficinas e o porquê desta aposta?
CTCMCB: Elegemos a comunidade na qual desenvolvemos a nossa prática artística como destinatário do Centro. Criamos oficinas dirigidas para vários públicos-alvo. O primeiro público que gostaríamos de destacar, e que nos é muito querido, é o público infantil dos 6 aos 10 anos para o qual foi criada a Oficina de Jogos Dramáticos. Parece-nos absolutamente essencial a formação artística desde tenra idade.
Para o público jovem/adulto e para os frequentadores da Universidade Sénior de Cabeceiras de Basto (USCab) temos a Oficina de Interpretação Teatral.
A Oficina de Expressão Plástica destina-se a dois públicos diferentes: a um público mais jovem e aos encarregados de educação das crianças que frequentam estes espaços de trabalho. Esta oficina é muito especial porque ela tem um papel estrutural e transversal dentro da oferta formativa porque é a partir deste espaço de trabalho que serão criados todos os materiais para as produções. Através dela fazemos uma ligação com os artesãos da região, pesquisando e recuperando atividades como a cestaria, tamancaria, tanoaria, linho, lã que estão a cair em desuso. Pretendemos envolver estes artesãos nas nossas atividades, ensinando as suas técnicas e a partir da sua desconstrução usá-las na produção dos espetáculos.
Queremos, também, apostar muito na reciclagem dos materiais. O objetivo prioritário é usar material considerado desperdício enquanto matéria para a criação de formas e objetos artísticos.
Na Oficina de Interpretação Teatral pretendemos que a metodologia de trabalho não se cinja unicamente à técnica de palco. Queremos formar atores/artistas completos, que ajudem na confeção dos figurinos, dos cenários e dos adereços. Dessa forma, acreditamos que o trabalho de ator se torna muito mais completo e muito mais especial.
O método de trabalho das Oficinas de Jogos Dramáticos vai ser o mesmo da Oficina de Interpretação Teatral. A metodologia a ser utilizada na Oficinas de Jogos Dramáticos pretende despertar para a criatividade, imaginação e ideais de cidadania.
A idade dos 6 aos 10 anos é uma idade crítica em que as crianças estão a iniciar o seu desenvolvimento pessoal e é importante incutirmos nestas oficinas o sentido de responsabilidade, o sentido de alerta e de consciencialização perante a sociedade em que estão inseridas.

EB: Quem apoia este projeto?
CTCMCB: Tal como em anos anteriores, o Centro de Teatro resulta de uma aposta muito forte da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto em conjunto com a empresa municipal Emunibasto. Para além disso, estamos a tentar junto do tecido empresarial regional encontrar apoios, patrocínios, parcerias para que possam reforçar e solidificar aquela aposta.

EB: Em que é que consiste a programação para este ano?
CTCMCB: Aquilo que neste ano zero fizemos foi delinear uma estratégia de programação para o Centro e para a comunidade, estratégia esta que passa por abarcar diferentes tipologias de intervenção artística para este ano.
Espetáculos de teatro, instalações públicas dedicadas a diferentes temáticas e em dias especiais, ações no espaço público, em que elegemos os lugares de uso quotidiano como um espaço específico de intervenção são algumas das propostas.
Na área da programação de espetáculos iniciámos com algo muito singular e especial.
Em 2012 assinala-se os 25 anos da morte de Zeca Afonso. Vamos, por isso, iniciar a programação com o ‘Olhar Fraterno’ que se assume como um tributo a Zeca Afonso.
O espetáculo da Oficina de Jogos Dramáticos vai ser muito particular pela metodologia que decidimos implementar com os mais novos – a criação coletiva. Vamos orientá-los através dos vários ateliês no sentido de desenhar, escrever e construir a dramaturgia para o espetáculo.
No âmbito da Feira do Cavalo será organizada a iniciativa ‘Terra Batida’ com a USCab e com a participação de algumas pessoas da Oficina de Interpretação Teatral, bem como das associações de Cabeceiras de Basto.
No âmbito da Feira e Festas de S. Miguel vamos preparar um grande espetáculo que será uma adaptação do romance de Camilo Castelo Branco ‘A Bruxa de Monte Córdova’.
O Dia Mundial da Criança será celebrado com um espetáculo didático sobre a reciclagem.
Dentro daquilo que é a atividade que nós designamos como trabalho artístico, de intervenção social e comunitário, temos uma iniciativa muito direcionada para as freguesias do concelho e que tem a ver com uma intervenção da nossa parte no Cortejo Etnográfico inserido nas Festas Concelhias em honra de S. Miguel. Reunimos com os presidentes das Juntas de Freguesia no sentido de criar comissões para discussão dos temas a usar os carros alegóricos bem como na sua execução. A constituição destas comissões permite promover a participação democrática e inclusiva dos munícipes na iniciativa. É fundamental que participantes e espectadores se identifiquem com os objetos criados. Para a execução destes carros teremos a Oficina de Expressão Plástica a colaborar muito proximamente com estes grupos. Haverá um apoio da nossa parte ao nível da logística, a nível técnico e de materiais.
Estas reuniões são apenas uma das várias que delineamos como prioritárias nesta fase de implementação deste novo Centro.
Reunimos com as equipas da Câmara Municipal e da Emunibasto, que intervêm diretamente na ação do Centro; com as associações locais para conhecermos os seus planos de atividade e perceber de que forma podem colaborar connosco; e com as escolas. Sendo um público-alvo especial, para nós é fundamental darmo-nos a conhecer à direção do Agrupamento de Escolas, aos professores, aos funcionários e aos alunos para que demos a conhecer o programa do Centro e estabeleçamos parcerias e estratégias de participação.

EB: Onde funciona o Centro de Teatro da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto?
CTCMCB: Nós estamos a ocupar parte das instalações do Mercado Municipal, nomeadamente ao nível de escritório de produção, direção artística, espaços para as oficinas e ensaios e o auditório já existente. É um espaço central que queremos dinamizar e para qual desejamos atrair mais pessoas, com enfoque especial nas camadas mais jovens. Acreditamos que ação do Centro permitirá acrescentar valor a este espaço.

EB: Quais são os projetos para o futuro?
CTCMCB: Qualquer projeto de ação artística que se pretenda consequente e sustentável tem que ser pensado a médio-longo prazo. No essencial, a estratégia de programação é dar continuidade ao projeto definido e ao tipo de intervenção artística que desenvolvemos, pois a intervenção cultural numa comunidade é morosa e complexa e cujos resultados só começam a aparecer ao fim de alguns anos.
Este é efetivamente o ano zero, o ano em que vamos experimentar programação, experimentar formação, experimentar aplicar e desenvolver modelos de participação e aproximação à comunidade. No final, será feito um balanço do trabalho realizado e de acordo com as conclusões (re)definir a futura estratégia de ação .

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