Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 06-02-2012

SECÇÃO: Opinião

ERA ASSIM ANTIGAMENTE - I

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Casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão, assim diz o velho ditado que se ajusta perfeitamente à situação que vive o país atualmente.
Mas por muito mal que estejamos convém não varrermos totalmente da nossa memória o que eram os tempos de pobreza se recuarmos sete ou oito décadas atrás. As gentes da minha geração recordam-se certamente desses malfadados tempos em que ao pobre tudo faltava até a possibilidade de ralhar com razão porque o sistema não permitia nada disso e assim desde o nascer até morrer todos se conformavam com a sua triste sorte e bico calado.
É certo que as gerações foram passando e as coisas melhorando até se chegar aos dias de hoje. Como foi referido os mais velhos ainda se recordam do que foi a sua vida antigamente, mas a juventude atual sendo uns azes a lidar com as novas tecnologias nada sabem salvo casos raros da vida dos seus antepassados e até acham que os cotas exageram naquilo que dizem. E dão pouco seguimento a esse tipo de conversas mas se calhar eles têm alguma razão nesse aspecto porque passado é passado e o que nos preocupa agora é sobretudo o futuro e se alguém mais tem que temer esse incerto futuro obviamente que é a juventude e nesse aspecto todos nós temos jovens na família com esse tipo de preocupações.
Contudo esta nossa chamada de atenção centra-se mais nos termos comparativos em ralação ao antigamente por muitos desconhecido e ao atual conhecido por todos neste mundo global e informatizado que diariamente nos põe ao corrente das boas e más notícias. Assim, se antigamente os tempos era extremamente difíceis como adiante se vai saber e gradualmente foram melhorando também agora devemos ter fé e não entrar em alarmismos exagerados que conduzam o nosso estado de espírito para situações de verdadeira angústia.
Posto isto, vejamos então em traços gerais como era a vida dos mais pobres segundo o meu sentido de observação de criança nascida e criada durante alguns anos na freguesia de Cavez.
As crianças dessa época mesmo em gestação no ventre das suas mães já sentiam de certo modo a dureza da vida que se vivia nesse tempo. As grávidas geravam os seus filhos ao deus dará, não tinham qualquer assistência médica ou medicamentosa, a alimentação era à base daquilo que a terra dava e pouco mais, exames nem vê-los e só sabiam se era menino ou menina quando acontecia o parto.
O parto era feito em suas casas na maioria sem condições nenhumas e logo que rebentavam as águas ou surgiam as dores de parto, alguém corria a chamar a parteira lá do sitio que normalmente era uma mulher madura com jeito para sacar rapelhos cá para fora. Quando havia canalha por perto eram levados dali para fora e só lhes era mostrado o menino ou menina quando já estava tudo em ordem.
Enquanto decorriam os trabalhos do parto havia sempre uma fogueira acesa e um pote de água quente para lavar a criança logo que estivesse cá fora e quando isso acontecia dentro da normalidade de imediato havia manifestações de alegria incluindo a mãe da criança que apesar do sofrimento exibia um sorriso aberto cheio de contentamento fazendo jus ao ditado que todas as dores lembram só as do parto esquecem.
O enxoval da criança era normalmente muito pobre resumindo-se a poucas peças consoante o grau de pobreza dos pais, uma beata, uns bibes, uns cueiros às vezes de estopa velha, uns lençolitos de pano cru um xaile que já era da avó ou bisavó, uns vestidinhos e pouco mais e quanto ao berço era na maioria dos casos emprestado e feito de madeira trabalhada toscamente e caso não houvesse berço nos primeiros tempos a criança dormia no meio dos pais. A chucha era feita com massa de pão açucarada posta num trapo branco quando amarrado formava uma moquinha à feição da boquita do bebé com efeitos práticos para adormecer ou suster o choro da criança…
(Continua)

Por: Alexandre Teixeira

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