Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-01-2012

SECÇÃO: Recordar é viver

APESAR DA CRISE A TRADIÇÃO MANTEM-SE

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Cantam-se os reis em Cabeceiras de Basto

Quase sem dar por isso, passaram as Festas de Natal, o Ano Novo e chegamos aos Reis. Por isso, mesmo com mais medidas de austeridade, (com pressão nos sofredores de sempre) entre as quais o aumento estrondoso da EDP que, antes mesmo de terminar o ano 2011 aumentou o IVA de seis por cento para vinte e três por cento na facturação da energia eléctrica, ainda entrou em vigor a partir do dia um de Janeiro mais um acréscimo de quatro por cento na factura. Por outro lado, apesar do aumento dos combustíveis e do corte nas pensões (já por si miseráveis), algumas instituições e associações quiseram manter a tradição de cantar dos reis. Desta maneira, o povo vai cantando ao mesmo tempo que esquece temporariamente as agruras inerentes à falta de dinheiro. Hoje, vou falar desta tradição que ainda se vai mantendo no concelho.
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Embora, antigamente, se cantassem os reis de porta a porta com o intuito de receber algum dinheirito o que, fazia muito jeito também, recebiam-se algumas coisas muito boas para comer, como por exemplo; figos secos que as pessoas tinham para dar nesse dia, principalmente às crianças, ou então, para os adultos que iam à noite tocar e cantar à casa das pessoas com as suas concertinas e reque-reques. Comiam-se figos, marmelada, um bocadinho de presunto ou carne entremeada curada acompanhada por uma pinguita de vinho ou água pé conforme fosse o caso. Às vezes, também se comia um bocadinho de aletria que sobrava do ano novo. As crianças eram ainda contempladas com maçãs verdiais, alguma chouriça de sangue ou uma linguiça, mas o que as elas mais queriam era, sem dúvida, as moedinhas que no fim se dividiam entre o grupo sem falhar um tostão. Era uma alegria! Fui muitas vezes cantar com os rapazes e raparigas da Raposeira que eram mais ou menos todos da mesma idade. Isto há cinquenta anos mais ou menos.
Hoje, os reis costumam-se cantar nas portas já com outras finalidades. São causas como, voluntariado, angariação de fundos para ajudar instituições de solidariedade para fazer melhoramentos nas próprias instituições ou associações. Por aquilo que sei os cantares dos reis têm um fim benemérito.
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A maior parte das vezes sei que o dinheiro recolhido se destina a ajudar pessoas necessitadas ou até para enviar para países como Timor e Moçambique, por exemplo. Também se cantam os reis em lares da terceira idade ou em centros de dia dinamizando-se acções que permitem encontros de várias gerações que muito alegram a sua alma.
Foi o que aconteceu com os Cavaquinhos da Raposeira, que este ano tinha no seu plano das actividades visitar duas instituições, cantar, animar e conversar com os utentes, levando um pouco da alegria que normalmente reina neste grupo. Foram escolhidas duas instituições de solidariedade social com muito carinho: a Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto – ADIB, hoje uma IPSS, com um Centro de Dia e Apoio Domiciliário a funcionar e o Lar da Terceira Idade Dr Manuel Fraga, ambos na freguesia de Refojos de Basto. O Grupo dos Cavaquinhos apareceu de surpresa aos utentes do Centro de Dia da ADIB localizado em Pielas, Painzela, mesmo juntinho ao lugar da Raposeira. Devo dizer, com alegria e emoção, que sou funcionária da ADIB vai para vinte anos e, pertenço aos Cavaquinhos da Raposeira por veia familiar e afectividade e por isso, senti-me extremamente feliz por ver os rostos dos nossos utentes expressarem a alegria que sentiram quando o grupo entrou a cantar na sala de estar deles. Nem queriam acreditar que, tanta gente fosse cantar para eles. Os utentes ainda conheciam alguns elementos do grupo ou lembravam-se das famílias. Escusado será dizer que houve muitos beijos, abraços e, algumas recordações. Tanto gostaram que, até se formou um bailarico entre todos. Receberam-nos bem e nós prometemos voltar lá de vez em quando sem ser em dias marcados.
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Como estava já programado, no dia sete do corrente, dirigimo-nos ao Lar Dr Manuel Fraga, onde fomos recebidos gentilmente pela Provedora da Santa Casa da Misericórdia, Dra. Natália Correia, pela professora Aninhas Barroso Queirós, de Chacim, as freirinhas, funcionárias, utentes e alguns familiares que nesse dia estavam de visita.
Foi bonito e emocionante. Os utentes a quem a sua saúde o permitia estavam sentados na sala de convívio à espera de nos ouvir cantar. Penso que os não desiludimos. Enquanto cantávamos algumas letras de reis e também outras de cariz popular acompanharam-nos a bater palmas. Os que tinham mais poder de mobilidade deram o seu pezinho de dança seguindo o exemplo da Doutora Natália, da D. Aninhas Queirós, das Irmazinhas e de algumas funcionárias fazendo rodinha com todos. Gostei de ver o apreço que aqueles utentes têm por estas senhoras.
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Queria também dizer que gostei de ouvir cantar os Reis aos Bombeiros Voluntários de Cabeceiras de Basto, na minha Rua João Paulo II. Tive o grato prazer de os ouvir tocar e muito bem, em exclusivo para mim no fundo das escadas porque, infelizmente, ninguém do meu prédio apareceu à janela para os ouvir. Talvez noutras vezes também eu os não tenha “ouvido” e, por isso, me penitencio. Lá diz o ditado que, “mais vale tarde que nunca”.
Posso dizer-vos que estou a colmatar algumas falhas, com sinceridade como é o caso de fazer voluntariado. Desta forma, nunca o tinha feito e fi-lo neste último ano, o que me deu ânimo para continuar a fazer o possível para contribuir com um pouco do meu trabalho para ajudar a suprir algumas necessidades básicas e prementes como recolher alimentos e roupas para os mais necessitados.
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Hoje precisam uns, amanhã precisarei eu ou alguém da minha família.
Não queria terminar esta crónica sem também dizer que os queridos utentes do Centro de Dia da ADIB, algumas funcionárias - Gininha, Cristina Carneiro, Susana Neiva, Teresa Loureiro e eu - fomos cantar os reis de surpresa à presidente da Direcção, Drª Irene Fontes e a outros directores desta colectividade. De surpresa cantamos também, os Reis ao senhor Presidente da Câmara, Engº. Joaquim Barreto, que nos acompanhou com entusiasmo, na cantiga apresentada ficando sensibilizado pelo carinho que os nossos utentes demonstraram por ele quando o viram. Presenteou o Centro de Dia com baralhos de cartas, dominós e uma estátua do Basto para colocar em local de relevo na Instituição da ADIB.
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Quero agradecer aqui neste jornal, na “minha” página em meu nome e em representação dos Cavaquinhos da Raposeira, aos responsáveis da ADIB e também à Directora Técnica do Centro, Dra Ana sofia, assim como à Dra Natália Correia, do Lar Doutor Manuel Fraga, pela oportunidade que nos deram de contribuir um pouco para minimizar a solidão destas pessoas que, na maior parte das vezes é devida à ausência da família. Muito obrigada a todos.
Bem hajam!

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Por: Fernanda Carneiro

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