Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-01-2012

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (150)

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OS MERCADOS

A culpa é dos mercados. Ouve-se por toda a parte, por gente de todas as classes sociais, a respeito de quase tudo e mais alguma coisa.
Em boa verdade, os últimos tempos têm sido de autêntica desgraça para grande parte dos países do velho continente, em particular os da zona Euro, e, de entre estes, os mais periféricos, onde não podia deixar de se incluir o nosso, Portugal. Tudo, dizem quase todos os políticos e muitos dos analistas, por culpa dos mercados.
Eu tenho sérias dúvidas de que quase todos os políticos, e mesmo muitos dos analistas, tenham verdadeira noção do que estão a dizer quando proferem a palavra mercados. E, por isso mesmo, não comungo dessa opinião. Eu pertenço àquele grupo, não sei se é grande se é pequeno, que julga que o mercado não é culpado de coisa alguma.
Os mercados, no plural, não sei o que é, ou que são…
Já o tenho referido, por diversas vezes, que gosto muito de ouvir, e sirvo-me até, sem qualquer tipo de pejo, das suas próprias opiniões, taxistas, barbeiros, engraxadores e outros. Para mim, eles é que sabem. Ainda há bem poucos dias, seguia eu de táxi, em direcção ao aeroporto de Pedra Rubras, e ensaiei conversa com o motorista. Foi ele que me atiçou a memória ao fazer uma qualquer referência a Adam Smith.
- Adam Smith? O Senhor sabe quem foi Adam Smith? - questionei mostrando alguma admiração.
- Adam Smith é considerado o pai da economia moderna, e anda para aí toda a gente a falar de mercados, eles deviam era ler “A Riqueza das Nações” de Adam Smith… - foi a resposta do homem que me conduzia na direcção do aeroporto.
- Já agora, desculpe-me, mas qual é o seu grau de escolaridade…
- Nada de especial, tenho a quarta classe, a antiga quarta classe, como pode reparar nos meus cabelos, tenho sessenta e dois anos, e, no meu tempo, fazer a quarta classe já era muito bom.
- Sim, já era muito bom. E esse interesse pelo autor de “A Riqueza das Nações”?
- Foi um cliente inglês, que transportei há um ano e pouco, e meteu conversa comigo, falámos da crise da União Europeia, e ele aconselhou-me a que lesse “A Riqueza das Nações” de Adam Smith.
- E o Senhor domina o inglês? Desculpe-me a pergunta, mas, primeiro para falar desse modo com o cliente, depois para ler o livro, penso que o não terá encontrado em outra versão que não seja a inglesa.
- É, eu estive vinte anos nos Estados Unidos da América, fui taxista em Nova Iorque.
- Hum, hum…, já percebi. E está a gostar, ou gostou, de ler o livro?
- Muito. Especialmente na parte em que fala daquela mão invisível, que regula os interesses dos comerciantes egoístas, e que os leva a fazer algo que não é do seu interesse e resulta em bem-estar para a sociedade.
- Convenhamos que tudo isso é um pouco filosófico, não lhe parece?
- Também acho…
Chegámos à entrada do piso superior do aeroporto sem que eu desse por isso. Enquanto fiz as contas com o homem quanto ao preço da viagem e arrumei a mala para cima de um daqueles carrinhos que por ali há, ainda lhe disse, um pouco à pressa: «sugiro-lhe que leia, também, a “Teoria das Vantagens Comparativas” de David Ricardo, ficará a saber algo sobre os fundamentos da globalização, outro dos flagelos do nosso tempo». O taxista agradeceu dizendo que, muito provavelmente, acataria a minha sugestão.
Quem diria! Um taxista a avivar-me a memória dos tempos em que fora obrigado a decorar a sebenta, ipsis verbis, da cadeira de Economia I, do primeiro ano da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, cuja matéria era um resumo muito alargado das teorias daqueles dois economistas ingleses, Adam Smith e David Ricardo.
O primeiro viveu entre 5 de Junho de 1723 e 17 de Julho de 1790 (67 anos), e o segundo viveu entre 18 de Abril de 1772 e 11 de Setembro de 1823 (51 anos).
São considerados os dois clássicos da economia moderna. Tiveram grandes seguidores, como: John Maynard Keynes, que viveu entre 5 de Junho de 1883 e 21 de Abril de 1946 (62 anos); Milton Friedman, que viveu entre 31 de Julho de 1912 e 16 de Novembro de 2006 (94 anos); e Paul Samuelson, que viveu entre 15 de Maio de 1915 e 13 de Dezembro de 2009 (94 anos).
Este último, Paul Samuelson, foi Prémio Nobel da Economia logo no segundo ano da sua atribuição, em 1970. Milton Friedman foi considerado como ultraliberal, é famosa a sua frase que deu título a uma obra: “Liberdade para Escolher”. John Maynard Keynes é, por assim dizer, o oposto daqueles dois, esteve na génese de uma nova teoria económica, o Keynesianismo. Esta teoria defende a manutenção do pleno emprego, através da intervenção do Estado na economia, nem que para tanto se ponham as pessoas a “abrir buracos na rua apenas com a finalidade única de voltar a tapá-los”.
Espero que o meu amigo taxista ao ler as obras de David Ricardo chegue ao Tratado de Methuen, o nome resulta do apelido do embaixador inglês que o rubricou por parte da Inglaterra, Sir John Methuen. Este tratado, celebrado entre Portugal e a Inglaterra em 27 de Dezembro de 1703, setenta anos antes do nascimento de David Ricardo, viria a ser o precursor da sua obra, pois nele se estabeleceu a liberalização das importações de têxteis da Inglaterra, por parte de Portugal, e as importações de vinhos de Portugal, por parte da Inglaterra. Estava, no texto daquele tratado, com três artigos apenas, toda a génese da teoria das vantagens comparativas.
Quanto à atribuição da actual crise ao funcionamento dos mercados, tenham lá paciência, tudo isso não passa de desculpas de gente de baixa estatura intelectual. A culpa é dos mercadores! E quem são, neste contexto, os mercadores? Muito simples, mercadores são todos aqueles que vão ao mercado, buscar a crédito, bens ou serviços que não sabem se algum dia virão a ter possibilidade de pagar, ignorando que o mercado apenas tem por função oferecer aquilo que espera recuperar, num dado prazo, acrescido de juros que compensem o investimento.
A menos que todos pensemos como aquele deputado ilustre que discursava em Castelo de Paiva. Com gente dessa…

Por: José Costa Oliveira

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