Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 19-12-2011

SECÇÃO: Informação

A IMPRENSA CABECEIRENSE

foto
SUBSÍDIOS PARA A SUA HISTÓRIA (1890-1937) - V

AINDA “O JORNAL DE CABECEIRAS”
Afirmava o director no seu primeiro número que seriam discutidos todos os actos “quer das respectivas autoridades, quer da administração do município, (…) sem paixão ou facciosismos”. Pois nesse nº casca-se logo a sério em alguns membros da Comissão Administrativa que regia a Câmara Municipal, a propósito da última sessão municipal em que os vereadores Arnaldo Barros, Eugénio Machado e Paulino Ferreira de Melo “fizeram vehementes protestos a fim de não serem levadas a efeito algumas ilegalidades, entre as quais se conta a substituição do inteligente e hábil professor primário do Instituto de Gondarém, Sr. Torres Lima, por um cidadão que não conhecemos, mas, ao que nos consta, nem diplomado é”.
A comissão é ainda acusada de tentar sonegar a leitura do recurso que Guilherme Pereira Leite, recentemente demitido do cargo de secretário da Câmara, tinha apresentado, e que os vereadores acima indicados obrigaram a ser lido em voz alta, o que levou a serem dirigidas “acres censuras dos vereadores requerentes e do público aos que pretendiam sonegar o documento”.
O folhetim, conhecido pelo “processo do afasta”, continuou nas semanas seguintes com a publicação no semanário do recurso da demissão “por factos (…) praticados ofensivos do Regime Republicano”, e cujos pauzinhos teriam sido manobrados por Teotónio Falcão, opositor àquele cargo.

*
Publicava-se nesta altura igualmente, como já vimos, o Ecco de Cabeceiras que tinha insinuado vagamente o aparecimento dumas “aves de rapina”. Teve a resposta imediata: “As verdadeiras aves de rapina, de bico córneo e amarelo, recolheram todos à capoeira do extinto convento beneditino de Refojos, e ahi se acham enterradas na devora da sua presa”.

*
Foram várias as alterações que se deram entre os responsáveis do semanário. Não as conhecemos todas, dado a colecção que folheamos ter graves faltas. Além de números avulsos que faltam, não existem os nºs 53 a 382, que vão de 1920 a 1925 e os nº 617 a 778, ou seja, de 1929 ao final de 1932. De qualquer modo sabemos que em Maio de 1925 o subtítulo do jornal já era o de “publicação semanal” (tinha-se ido às malvas o republicanismo) e era seu proprietário e director Luís M. Nogueira Pinto. Mas a inflação já tinha invadido o país e a assinatura custava para o continente 10,000 reis e 20,000 reis para o Brasil (moeda forte). A linha de publicidade custava já 600 reis.
No fim do ano de 1932 José Salreta acumulava a propriedade do semanário, com a sua administração e direcção. A administração e a redacção do jornal estavam sedeadas na Quinta da Mata, na residência de Salreta e a composição e impressão eram agora na Tipografia Jornal de Cabeceiras. O custo da assinatura para o continente era de 12,000 reis e mantinha-se nos 20,000 reis para o Brasil. A publicidade custava 1,000 reis por linha.
Em 1936 o valor da assinatura vem expresso em escudos e já não em reis, ou seja, passou a ser de doze escudos. No último nº de 1941 tudo se mantém igual, com excepção de que aparece a figura do editor que é José Carvalho e um quadradinho que diz: “Visado pela Comissão de Censura”. Este quadradinho tinha feito perder àquelas páginas todo o sabor dos outros tempos.

*
Permitam-me que transcreva aqui este pequenino recorte de um texto de Jaime de Sousa e Silva, publicado num nº de Janeiro de 2010 do Ecos de Basto:

“Oh, como me lembro dos tempos do Jornal de Cabeceiras, do qual fui seu ardina, cujo Director era o lisboeta José Salreta, homem culto, que um dia trocou a capital por essa melancólica terra.
Fundou o Jornal de Cabeceiras, cuja redacção e feitura era na Quinta da Mata, feito num prédio rudimentar. A entrega era de porta em porta.
O primeiro assinante era o seu vizinho Paulino de Sousa e Silva. E, eu com um molho de jornais debaixo do braço calcurriava descalço toda a vila indo acabar na Raposeira na casa do Joãozinho do correio.
O meu pré eram dez tostões, uma fatia de pão de milho amarelo e um copinho de vinho americano”.

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.