Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 28-11-2011

SECÇÃO: Opinião

A IMPRENSA CABECEIRENSE

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SUBSÍDIOS PARA A SUA HISTÓRIA (1890-1937) - IV

JORNAL DE CABECEIRAS
“Jornal de Cabeceiras” apresenta o seu 1º número em 24 de Agosto de 1895. Sub-intitula-se “Semanário político, noticioso e literário”. Apresenta José Augusto Falcão de Azevedo como editor responsável. Tem 48 centímetros de mancha e vai passar a sair aos sábados. A Biblioteca Nacional de Lisboa guarda o seu 1º número, mas não tem a colecção completa. Parecem faltar os números 13 a 116. A sua colecção termina no nº 729 (ano 15º de publicação), de 3 de Abril de 1910.
Suprimos esta falta com a colecção da Biblioteca Pública Municipal do Porto que nos oferece os nºs a partir de 4 de Maio de 1907 (584) até 30 de Junho de 1912 (nº 842). Nesta data desaparece este semanário. Nascera no tempo da monarquia. Apesar de se declarar independente, defendeu as ideias do Partido Regenerador e foi um duro adversário do Partido Progressista local, defendido pelo “Povo de Cabeceiras”, surgido no ano de 1900.
Curiosamente a ficha da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra afirma a existência no seu arquivo da colecção do ano 12 ao ano 17 (1907-1912), assinalando no entanto desconhecer o limite cronológico da publicação deste semanário cabeceirense. A sua ficha assinala no entanto José Augusto Falcão de Azevedo, como proprietário e director.
Sub-intitulava-se, como vimos, literário. Assim é considerado no “Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do século XX (Daniel Pires) que assinala que se publicou durante 842 números, dirigidos por Falcão de Azevedo, entre 24 de Agosto de 1895 e 30 de Junho de 1912, destacando a publicação, curiosamente no último nº, do célebre poema de Raul Brandão intitulado “Bohemias”, hoje mais conhecido por “Os Boémios”. Mas será este nº o último do “Jornal de Cabeceiras”? Verificamos que é da semana imediatamente anterior à 2ª Incursão Monárquica que, a partir de 6 de Julho pôs Cabeceiras de Basto em estado de revolução. A colecção da Biblioteca Pública e Municipal do Porto termina neste nº e data, mas, curiosamente, um papelucho colado na última folha tem esta nota manuscrita: “nº 38 – falta o nº 843 e seguintes – 24-07-1912”.
Sou de opinião que a partir do nº 842 nada mais foi publicado. Curiosamente também este número nada aponta sobre a incursão monárquica que se preparava. Pelo contrário, criticava a greve dos eléctricos em Lisboa e louvava a acção de Duarte Leite que “cumpriu um dos primeiros deveres de governante num país livre”.
Este “Jornal de Cabeceiras” teve em 17 anos sempre o mesmo director, José Augusto Falcão de Azevedo. Somente em 1908 a propriedade do semanário aparece por uma semana na posse do Dr. Francisco Botelho, da Casa do Mourigo, para logo surgir no nome de Domingos José Teixeira Pereira. Também é por esta altura que aparece como editor José Pereira Leite. Eram estes os homens que estavam à frente do “Jornal de Cabeceiras” no momento do seu desaparecimento.

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Neste primeiro período, Jornal de Cabeceiras bateu-se contra dois adversários: de 1900 ao fim de 1910 contra “O Povo de Cabeceiras”, órgão do partido progressista cabeceirense, dirigido por Luís de Mello Sampaio mas cuja alma-mãe era o advogado Dr. António de Carvalho e Vasconcelos, natural de Felgueiras, ligado à fidalga Casa de Cortinhas de Cavez, o homem mais insultado de sempre na história da imprensa cabeceirense, normalmente nomeado como “o eterno despeitado e intrujão-mor, o amuado careca”. Com a Implantação da República “O Povo de Cabeceiras” dissolveu-se e foi substituído pelo “O Democrata”, que passou a ser o novo bombo de festa.

REAPARECIMENTO OU UM NOVO TÍTULO?

Em 15 de Junho de 1919 aparece o nº 1 de “O Jornal de Cabeceiras”. Em relação ao antigo título só tem a mais o artigo definido “O”. Indica o 1º ano e nem uma só palavra sobre o anterior homónimo. Mas, no canto superior esquerdo da 1ª página, sob a rubrica “Expediente” escreve “ter sido adquirida a propriedade do antigo semanário O Cabeceirense, sendo nosso intento crear um jornal cuja orientação política satisfizesse e traduzisse d’uma forma bem clara os desejos da maioria dos habitantes deste concelho”. O proprietário e o director é João Falcão de Magalhães, sendo administrador José Salreta e editor José Carvalho. A redacção e administração tinham a sua sede na Raposeira, onde ficavam as instalações da Tipografia Cabeceirense, que compunha e imprimia este semanário. O sub-título era “semanário republicano”. O valor da assinatura era o clássico: Continente – 1.500 reis e Brasil- 3.000 reis, em moeda forte. Parecia que não havia inflação, mas esta notava-se no preço da publicidade: 60 reis a linha. O semanário só tinha duas páginas pelo que a publicidade comercial raras vezes aparecia. O que compunha a receita eram os editais dos tribunais.
No editorial deste 1º número que o director intitulava “O nosso caminho” escrevia-se: “É a defesa do nosso querido torrão. Por ele lutaremos, franca e lealmente” (..) “Discutiremos todos os actos quer das respectivas autoridades, quer da administração do município (…) sem paixão ou fanatismo”.
O outro semanário da terra, o “ECco de Cabeceiras” saudou assim o novo semanário: Rei morto, Rei Posto! Morre um, nasce outro. Que morreu? O Cabeceirense! Que nasceu? O Jornal de Cabeceiras!…É um assombro de prestidigitação ou ilusionismo? Que estupendas artes cabalísticas! A cara é outra e vem mais fresca e risonha, como é próprio dos pimpolhos. Mas o corpo, deformadinho e encarquilhado, tem manchas terríveis de taras…duvidosas!...”
O Ecos embirrava com o sub-título “semanário republicano”, que a Gazeta da Rapozeira, como depreciativamente sempre lhe vai chamar, solenemente ostentava. E então vai de dizer: “não sabemos bem o que estas duas palavras significam, subintitulando um papelucho que por aí circula, depois de verificarmos que toda a arenga do pasquim visa a defesa dos submissos lacaios do escorraçado conspirador Padre Domingos”.
(Lembramos que o Padre Domingos estava novamente exilado em Espanha – daí o epíteto de “escorraçado”.)
(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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