Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 28-11-2011

SECÇÃO: Recordar é viver

AS GENTES DE CAVEZ E AS SUAS TRADIÇÕES

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Feira tradicional no décimo ano consecutivo

Caros leitores, há já uns três anos que não visitava a Feira Tradicional e Etnográfica de Cavez. Já escrevi bastante sobre essa tradição ressurgida naquela freguesia, vai para dez anos.
Ao dar uma olhadela pelo facebook, chamou-me a atenção na página das notícias da Câmara de Cabeceiras que, no dia 13 de corrente, se iria realizar a já conhecida feira antiga, da parte da manhã, entre as dez e as doze horas. Fiquei curiosa e, pensei que talvez fosse engraçado lá voltar. A feira geralmente só entra em “ebulição” quando os fiéis saem da missa dominical. Este ano devido às más condições do tempo a feira foi transferida para o auditório do Centro Comunitário. Foi um pouco mais apertado mas, nem por isso, perdeu o seu efeito. Sem dúvida alguma que, se fosse realizada no Largo do Souto, no Centro de Cavez, como é costume aí, seria a cereja em cima do bolo! Mesmo assim, no Centro Comunitário também correu bem!
Como atrás referi, este ano marquei na minha agenda o dia 13 de Novembro que, por sinal, foi também o dia que dedicamos às cantigas do S. Martinho, no Arco de Baúlhe (da parte da tarde) e, não faltei. Munida da minha máquina digital, para registar o evento, mais o meu bloco de apontamentos que, trago sempre comigo, lá me encaminhei para o salão do Centro Comunitário. Já não faltava movimento especialmente, dos intervenientes que, acabavam de enfeitar os expositores e, vestidos a preceito de acordo com a tradição, apresentando o que de melhor tinham para mostrar e, despertar a curiosidade (porque os olhos também comem) dos possíveis compradores.
Entrei! Fui olhando e cumprimentando todas as pessoas que chegavam e, com mais ênfase e reciprocidade, aquelas com tenho mais confiança. No geral, até conheço toda a gente e, cumprimentam-me mesmo que, nunca tenham falado comigo. Também, tenho por costume, meter conversa com as pessoas e conviver com elas se a ocasião se proporcionar.
Retomando ao assunto da feira tradicional, destaco algumas profissões ali ‘retratadas’ como: o fotógrafo, a padeira (com o pão cozido no forno de lenha), o alfarrabista que, além de outros livros, tinha no expositor os conhecidíssimos “Borda D’Água” e o “Seringador”, livros esses que o agricultor tinha em casa e pelos quais se “regulava” para saber quais os dias mais propícios para fazer as sementeiras, de acordo com as alterações das luas. Como todos sabem, ou a maior parte, a Lua exerce influência no Planeta Terra e, por conseguinte, na vida das pessoas. Até para a procriação ou nascimento das crias, o lavrador via nesse almanaque os dias dos movimentos da lua. Se eram cheias, quarto crescente ou minguante ou lua nova. Mas não é só nos animais que as fases da lua têm influência, mas também nos nascimentos dos seres humanos.
Ana Ramos Oliveira
Ana Ramos Oliveira
Este grande “saber” foi apreendido e observado ao longo dos séculos e, segundo parece, comprovado cientificamente. Nos tempos modernos de hoje e, devido às novas tecnologias, estes livros de “sabedoria popular” estarão talvez já em desuso, penso eu. Poucas pessoas os utilizarão. Os mais antigos, apesar de o homem ter ido à Lua há quarenta e dois anos (tantos como tenho de casada, já que pousou na lua no mesmo dia que casei no Santuário do Sameiro, em Braga) ainda confiam na sabedoria do “Borda D’Água” e do “Seringador”. Lembro-me de ver o “Seringador” na casa do meu avô, José de Campos, mais conhecido por Zé Colatré.
Enfim, enquanto se ia compondo a feira e, o pessoal da missa ia chegando, fui tirando uma fotografia aqui e ali, olhando com atenção todos os pormenores, como os trajes, a composição dos expositores, os produtos caseiros para venda como por exemplo, as hortaliças, os legumes, o feijão amarelo ou canarinho, o branco, as abóboras, as tronchas, os grelos, as batatas, os ovos, os frangos caseiros com a crista bem vermelhinha, etc.
Noutras mesas, vi mel puro, geleia, marmelada, nozes, castanhas, pão simples ou com chouriço, da tia Joaquina, do Restaurante “Botas”, presunto, salpicão, cavacas tradicionais e café da chocolateira da Nazaré, do Rancho de Arosa, que cheirava bem e sabia ainda melhor, aguardente e jeropiga, etc.
A Nazaré do Rancho de Arosa - Cavez
A Nazaré do Rancho de Arosa - Cavez
Vi também, flores naturais, bordados e pinturas feitos à mão, lindíssimos!
A organização desta feira tradicional recreada mais uma vez, foi da responsabilidade da Escola da Ferreirinha, que pertence ao Agrupamento de Escolas de Cabeceiras de Basto e, faz parte do plano de actividades daquela escola, conjuntamente com algumas associações locais, como por exemplo, a Associação Cultural e Recreativa de Moimenta, os Ranchos de S. João Baptista, os membros do Rancho de Arosa e, o apoio como não podia deixar de ser, da Junta de freguesia de Cavez, que cedeu aquele espaço polivalente do Centro Comunitário e que, abrigou muita gente.
Desta vez, aproveitei para entrevistar algumas pessoas que estavam envolvidas na realização desta actividade. Comecei pelo professor José Manuel Borges Machado que, o “apanhei” a jeito. É docente da Escola da Ferreirinha e tem estado sempre à frente desta iniciativa, conjuntamente com outros professores. Respondeu com a mesma simpatia de sempre a algumas questões:
- Professor José Manuel, ainda me lembro, quando era bastante mais nova de haver aqui, em Cavez, feira mensal. Até tinham uns dias certos. Como era isso?
“Realmente, assim era. Faziam-se nos dias nove e vinte e três de cada mês.”
O Presidente da Câmara de Cabeceiras, Joaquim Barreto, visitando os expositores
O Presidente da Câmara de Cabeceiras, Joaquim Barreto, visitando os expositores
- E, acabou assim sem mais?
- Foi mais ou menos nos inícios dos anos oitenta, devido à doença do gado e, as feiras foram proibidas durante algum tempo. Por esse motivo Cavez, mais propriamente a Escola, tenta recriar uma tradição já perdida há muito tempo e, para que as nossas crianças e os jovens conheçam as suas origens e as suas vivências que, embora não seja um passado considerado longínquo para nós, é-o de certa maneira, para as pessoas dos vinte ou trinta anos.
Como se sabe, os estudos obrigatórios prolongaram-se vário anos e eles passam a maior parte da sua juventude a estudar, de maneira que estas coisas da vida campestre ou profissões tradicionais, hoje em dia praticamente estão extintas, para a maioria, vai passando ao lado.
Prof. José Manuel Machado - um dos organizadores  desta feira
Prof. José Manuel Machado - um dos organizadores desta feira
- Professor, a receita destes produtos que estou aqui a ver e, diga-se de passagem com muito bom aspecto que, as crianças vendem tão entusiasmadas, para onde vai?
- Os produtos das crianças, que são feitos na escola como a marmelada e geleia reverte a favor da própria, para aplicar em iniciativas com os passeios de estudo ou outras coisas que se organizam durante o ano lectivo.
Deixei livre o professor porque ele precisava de verificar se tudo estava a ser feito, para se dar início à abertura e, poder também, receber a Edilidade e os responsáveis do Agrupamento das Escolas e os outros visitantes “compradores”.
Passei à Ana Ramos de Oliveira, uma amiga minha que, já conheço há vários anos, desde que tiramos a carta de condução. É uma presença assídua desde o início desta recriação tradicional. Costuma vir com os produtos que produz em casa como , o mel, a marmelada, o feijão amarelo e as cebolas.
Pormenor de um expositor de venda
Pormenor de um expositor de venda
- Então Ana, cá está mais uma vez?
- Assim é! Venho sempre! Nunca faltei, desde a primeira vez que, me convidaram. Gosto de colaborar com a escola. Este ano venho só com mel.
- Vê-se que gosta disto!
- Acho útil este ensinamento que, as escolas e os autarcas locais demonstram às nossas crianças, como eram as feiras do antigamente e, o quanto eram importantes para o fundo de maneio de uma família, poder “governar” a sua casa.
Depois de mais algumas palavras pessoais trocadas entre as duas pois já há algum tempo que não a via, fui andando de mesa em mesa até, chegar a uma que, também me cativou pela "doce" exposição, simpatia e porque não dizê-lo, pelo café da chocolateira que estava muito bom.
Falo da Nazaré Teixeira Oliveira que, pertence à Associação do Rancho de Arosa. Sorriu para mim, porque já nos conhecíamos e recebeu-me com toda a simpatia. Perguntei se podia fazer-lhe algumas perguntas, para a minha crónica e, respondeu que sim.
- Nazaré, tem aqui uma mesa muito apetitosa!
- Pois, parece que sim!
- A Nazaré está aqui por conta da Associação do Rancho da Arosa?
- Represento a Associação mas as coisas que vendo são minhas e o produto das vendas é para mim.
- Vejo que tem aqui bons e saborosos produtos – boroa fresquinha, cavacas, rosquilhos, jeropiga e aguardente, tudo muito tradicional!
- Este ano só não trouxe os rebuçados que são feitos com açúcar em ponto.
- É a Nazaré que faz os doces e os restantes produtos?
- Sou, sim senhora! Já participo desde a primeira hora nesta feira . Foi o Rancho de Arosa que a organizou pela primeira vez, depois a Escola da Ferreirinha pegou na ideia e, diga-se que com muito êxito!
- Quer dizer que então a Nazaré pensa continuar a sua participação nas iniciativas deste género?
- Claro, nem podia ser de outra maneira! Além desta faço a Feira Tradicional do 10 de Junho e em Felgueiras no segundo domingo de Setembro. Também pelas Câmaras Municipais quando me convidam.
- Então Nazaré, vou aceitar um cafezinho da sua chocolateira porque já estou com fraqueza e tenho a garganta seca.
Entretanto chegaram o senhor Presidente da Autarquia, Joaquim Barreto, a Responsável do Agrupamento de Escolas de Cabeceiras, Dra Maria do Céu Caridade, o vereador Francisco Pereira (Chiquinho) e representantes da Junta de Cavez que, visitaram e falaram com todas as pessoas dos expositores, dando-lhes os parabéns pela organização que, pelo que observavam, ia ter o sucesso do costume.
Como antigamente havia sempre nos dias de feira alguém que tocava concertina (lembro-me dos “Borras” que às segundas feiras não falhavam) em Cavez, também, não faltou a música e dança do Rancho de S. João Baptista acompanhados pela concertina e a bela voz do senhor Pinto.
Devo dizer, com toda a sinceridade, que foi uma manhã bem passada! Também contribui ao comprar bons produtos para trazer para casa.

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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