Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 07-11-2011

SECÇÃO: Opinião

A IMPRENSA CABECEIRENSE - III

foto
SUBSÍDIOS PARA A SUA HISTÓRIA (1890-1937)

AINDA O “3º CABECEIRENSE”
“O Cabeceirense” arvorara-se então como semanário independente. Dizia-o o rótulo que ostentava por baixo do título, dizia-o o director na apresentação do “Nosso Programa” e também o dizia o cronista Piétrus pelas seguintes palavras: “Sou de todos os partidos e não sou de nenhum”.
Mas, logo uns dias depois, a 29 de Outubro, um novo semanário se apresenta em Cabeceiras de Basto: “O Correio de Cabeceiras”, de que é proprietário, director e editor Afonso Henriques Duarte de Vasconcelos. Ainda que debaixo do título se indique a sua qualidade de “semanário republicano”, o certo é que na sua apresentação dizia-se como pretendendo ser “independente”. Isto é independência a mais para o “Eco de Cabeceiras”, novo semanário que vê a luz do dia em 1 de Janeiro de 1914, de que é proprietário, director e editor Eugénio Machado Camelo e administrador Teotónio Falcão Ribeiro. Também o “Eco” se declara “semanário independente” e logo no seu número de apresentação põe em dúvida a independência dos seus rivais. Afirmava que o Cabeceirense publicava acalorada defesa do governo e o “Correio de Cabeceiras” “vem tratando em sucessivos artigos de provar que o mesmo governo é nocivo à pátria” e condena severamente o seu procedimento: “Ficamos sem perceber coisa alguma relativamente a independências…partidárias dos prezados colegas. Edificamo-nos perante tão obnóxias contradições!”. Ainda que se queixando que o ataque era descabido, “quanto é certo que o Pae do novo jornal bem sabia” da razão daquele subtítulo, logo se declara filiado no Partido Republicano Democrático (de Afonso Costa) e nomeia seu director João Falcão de Magalhães, presidente da Câmara desde há uns dias. Sobre o novo parceiro diz: “É um Eco independente, um eco de letras, e não de pauzinhos e maçanetas […]É o Eco de Cabeceiras um novo jornal cá da nossa terra! (…) Isto é apenas meio Eco de Cabeceiras “porque o outro meio é de Braga” “.

***
No 1º número de “O Cabeceirense” destaca-se a amnistia que foi decretada para celebrar o 3º ano de proclamação da República, tendo muitos cabeceirenses sido indultados e regressam agora ao concelho, “que foi um dos que mais sofreu com as severas penas impostas pelos tribunais marciaes”. É aplaudido o gesto do Presidente da República e do governo de Afonso Costa.
Não que o assunto tivesse ficado resolvido, porque no número seguinte o semanário dizia: “ já era tempo de terminarem as perseguições e vexames a homens deste concelho que, pelo seu passado e até pelos esforços presentes em benefício das instituições, deviam estar muito acima de todas as suspeições”.
Lembramos que a administração do concelho estava entregue a Camilo Serra d’Oliveira, um alferes de infantaria, e que ainda se aguardava o julgamento de alguns cabeceirenses, como o padre Domingos de Jesus Alves de Pina e Manuel Leite de Araújo Júnior e ainda Gaspar José Gonçalves de Almeida e Serafim Gomes de Paulo Bastos. Estes foram brindados com uns bons anos de prisão maior celular ou, em contrapartida, um bons anos de degredo na costa de África. Alguns foram absolvidos, entre eles José António Pires.

***
Por meados de 1915 acendeu-se uma polémica entre o Eco e o Cabeceirense. O 1º fez insinuações que a redacção do 2º repudiou e deu 30 dias de prazo para que o Eco provasse o que afirmava ou se retratasse, sob pena de “O Cabeceirense” pôr a boca no trombone, ainda que, segundo nota de redacção, o director João Falcão de Magalhães tivesse aconselhado calma, que a redacção não podia atender dado “o cobarde escriba que, em vez de provar as acusações que fez, vem novamente tentar morder as nossas canelas”. O certo é que o Eco não se retratou, o Cabeceirense não pôs a boca no trombone, mas o director João Falcão demitiu-se, alegando “seus afazeres não lhe permitirem prestar a atenção necessária para a boa orientação do jornal”. Certo é que nestes dias foi nomeado administrador do concelho, vago pela saída de Artur Afonso Bastos, de Gondiães, queda provocada pelo colapso da ditadura de Pimenta de Castro.
Com a saída de João Falcão da direcção do “Cabeceirense”, Manuel Baptista Gonçalves passou novamente a director e editor. Começam a aparecer textos de A. Lameiras, que já colaborara no Jornal de Cabeceiras e José Salreta passa a escrever a crónica “Mais Uma Vez”, onde responde às diatribes do Eco.
O semanário começa a aparecer só com duas páginas, sem qualquer explicação, sacrificando assim a publicidade comercial. Parece que esta medida se relacionava com o exorbitante preço do papel de impressão. Em 14 de Novembro de 1917 o subtítulo passa a ser: “verdade, justiça e liberdade”. Dá grande relevo à vitória da lista 1 nas eleições administrativas, que derrota a lista “democrática-florencista” do antigo administrador e presidente da Câmara Florêncio Lobo. No número de 9 de Dezembro de 1917 desapareceu do subtítulo a justiça, mais a verdade e ainda a liberdade, a redacção e administração passam para a Ponte de Pé e a composição e impressão para a tipografia “O Povo de Fafe”. O jornal ostenta um novo proprietário e administrador: José Salreta. O número seguinte tira José Salreta e as suas funções passam para a Livraria Escolar (na Praça e mais tarde na Rapozeira) e a composição e impressão volta à tipografia Cabeceirense, agora também na Rapozeira.
Parece que o fim do “Cabeceirense” está perto. No seu número de 9 de Outubro de 1918 toma uma decisão que o honrará para sempre: atendendo ao surto de gripe pneumónica que assolava a região e o concelho, resolvera “suspender temporariamente todas as polémicas e discussões políticas até quando Deus Misericordioso haver afastado para longe tão perigosa doença”.
A 22 de Janeiro dá-se a Restauração Monárquica no nosso concelho. È a efémera Monarquia do Norte. O semanário devia sair a 25. Saiu atrasado alguns dias, desculpando-se com a quebra de uma peça na tipografia. Esta desculpa não convenceu muita gente e uma prova disso ressalta do texto da desculpa: “Enquanto aos disparates e aos seus inventores, não ligamos a mínima importância”. O sonho monárquico desfaz-se um mês depois. O “Cabeceirense” desaparece por 4 semanas seguidas. Reaparece apresentando agora José Salreta como redactor e José Carvalho como editor. O último número que conhecemos – que julgamos ser o último que foi publicado – apresenta um bom artigo político intitulado “Falar Claro” sobre a queda do governo do bracarense Domingos Pereira. São 2 páginas. Nem uma palavra sobre o destino de “O Cabeceirense”.

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.