Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 07-11-2011

SECÇÃO: Recordar é viver

OS PANTERAS NEGRAS

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Os jovens de ontem e os homens de hoje

Andava já há muito tempo para voltar ao baú das recordações e a ocasião chegou, até mim. Não pelas “coisas” que estão comigo mas, pelas lembranças e testemunhos de alguém que, ao longo dos anos guardou com muito carinho as recordações da sua infância/juventude. Foi assim que hoje, ao olhar para esse passado, de certa maneira longínquo, se pode orgulhar de chegar até hoje certo de que, cumpriu os objectivos a que se propôs. Estou a falar do conhecido e muito estimado Baltazar Alves Mendes, mais conhecido localmente por Baltazar da Caixa Geral e muito também, por ser filho de outra figura importante da nossa cultura Cabeceirense, o António Mendes, Maestro da Banda Cabeceirense e, cujo nome foi dado à Casa da Música do Município de Cabeceiras de Basto.
Baltazar Alves Mendes
Baltazar Alves Mendes
Devo dizer que, na minha opinião e, dando mostra disso, o Baltazar Mendes, um “jovem” ligeiramente mais velho do que eu, recorda e fala com uma certa nostalgia, das coisas da sua juventude, principalmente daquelas que lhe deram grande satisfação e um grande bem estar.
Quando entrei para o Colégio de S. Miguel de Refojos, o Baltazar já andava lá, se não me falha a memória, talvez no quarto ou quinto ano do Liceu (hoje, diz-se oitavo ou nono ano de escolaridade) assim como, a sua namorada Emília Teixeira, filha do já falecido senhor Álvaro Teixeira, funcionário das Finanças, conhecido na redondeza por “Álvaro do Quiosque” (era proprietário desse quiosque onde se compravam os livros e os artigos didácticos) e com quem o Baltazar está casado até aos dias de hoje e continuará, se Deus quiser.
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Naquele tempo era bastante novinha mas, deu para ver alguns casais que se formaram a partir do Colégio, julgo eu. Eram uns namoros muitos discretos, porque não se podia relegar os estudos senão já se sabia que tinham o Senhor Director Padre Apolinário à perna, com todo o respeito. Não era muito dado a namoricos entre os alunos porque achava ele que os prejudicava nos estudos.
Acho que, o Engenheiro Arnaldo Coutinho e a sua Leninha Raposo, o José Maria Barroso com a Beatriz Barreto, de Abadim, eram tudo "malta" do Colégio de S. Miguel e penso que foi lá que tudo começou.
O Baltazar, já há bastante tempo que dizia que, tinha em casa umas fotos antigas e que, gostaria de mas mostrar. Fiquei logo entusiasmada porque, para mim, as fotos a preto e branco antigas são puros tesouros.
Digo-vos caros leitores que, assim foi. Quando olhei para aqueles rapazinhos entre os dezasseis e os dezoitos anos de idade, reconheci-os quase todos e, os que não reconheci, o Baltazar lembrou-me os nomes.
Eram rapazes alegres que, para gastarem as suas energias, além dos estudos, iam nadar para o rio no verão, na Ranha ou no Poço do Frade e, namoriscar, jogavam à bola em qualquer lugar, como por exemplo, no Largo da Raposeira, o que dava uma dor de cabeça tremenda às meninas do “Zé Maria”, a Mariazinha e a Tildinha, sobrinhas do Padre Domingos Pereira e, à Senhora Aninhas Fraga, da Casa da Raposeira. Tudo porque as vidraças iam à vida de vez em quando e, as maçãs das ditas “meninas” (solteironas) não escapavam aos paus compridos com um prego na ponta para tirar a fruta pelas janelas. Devo dizer, com alguma vergonha, que também participei numa dessas expedições com as crianças da vizinhança. Isto é um aparte. Essa casa das sobrinhas do Padre Domingos Pereira já não existe. Foi pena que ninguém tivesse tido a ideia de a restaurar tal qual ela era. Foi vendida e passou por mais de um dono. Como estava bastante degrada o último dono deitou-a abaixo.
Essa casa teve o seu esplendor muito antes do José Maria Pereira, (talvez no tempo da família da sua esposa). Há uma citação num dos folhetins de Camilo Castelo Branco, se me não engano no “Filho Natural” inspirado em algumas das freguesias de Cabeceiras, onde a certa altura da narrativa se lê mais ou menos o seguinte: “ouvem-se os pianos a tocar na Raposeira”. Hoje em seu lugar estão quatro apartamentos, muito bonitos que por acaso até são do meu primo e afilhado Manuel José Vilela Campos, filho do meu tio António Sousa Campos, da Raposeira.
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Como atrás referi, os rapazes daquela geração jogavam à bola no Colégio mesmo os que não fossem alunos e, mais assiduamente no famoso Campo das Pereiras. Segundo o Baltazar, estes jovens aproveitavam para jogar em todos os tempos livres que dispunham. Desta motivação, nasceu entre eles a necessidade de formar uma equipa de futebol mais a sério. Assim o fizeram. A partir de 1962, formaram um grupo a que pomposamente deram o nome dos Panteras Negras. Por aquilo que o Baltazar me ia contando ao longo da nossa conversa, esta equipa, além de jogar em Cabeceiras, nomeadamente com os do Arco de Baúlhe e Alvite, também, iam para fora da terra. Fiquei a saber que estes Panteras Negros, foram algumas vezes a Salto, no concelho de Montalegre, no dia 15 de Agosto. Estranhei o dia por ser um dia santo. Chama-se até a esse dia, o dia de todas as santas. Qual teria sido a razão que os levava lá naquele dia? Perguntei ao Baltazar que me disse:
- “O jogo de futebol, já fazia parte do cartaz de tão importante festa que é o dia 15 de Agosto”.
- E, o campo de futebol, onde era?
Aí, o Baltazar começou a rir-se e comentou:
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- “Jogávamos debaixo das carvalhas e contornávamos as árvores que existentes no campo improvisado. Julgo que ainda se encontram lá essas árvores. Ao lado passava um ribeiro pequeno. O jogo só iniciava no final da passagem da Procissão. Antes do jogo tirava-se a tradicional fotografia. Eu, não fiquei nesta foto, porque como tocava na Banda só podia ir no fim, de maneira que não cheguei a tempo mas, o meu irmão Zeca ficou”.
Se, realmente imaginarmos esta cena dos rapazes a contornar as Carvalhas para chutar à bola é de nós nos atirarmos para o chão a rir.
Esta equipa de Panteras Negras já não era de uns amadores quaisquer, era uma equipa orgulhosa ou não fossem eles rapazes de Cabeceiras de Basto, com o “sangue na guelra”.
Todas as equipas têm um treinador e os Panteras também tinham. Era o “Zeca Quentinho” filho do antigo guarda redes “Quentinho” que, por sua vez foi o primeiro orientador desta juvenil equipa. Toda a composição dos Panteras foi anterior ao Atlético Cabeceirense.
Foi desta equipa e de outra do Colégio (que não sei se tinha nome) que saíram algumas das glórias que jogaram na equipa do Atlético e que tantas e tantas alegrias nos deram arrastando consigo verdadeiras multidões! Eram outros tempos, em Cabeceiras de Basto! Naturalmente que me refiro ao Atlético da minha juventude.
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Mais coisas me contou o Baltazar em amena cavaqueira. Gostei que me recordasse os nomes daqueles que não conheci à primeira.
Como já vos disse, tenho algumas fotos que o Baltazar trouxe onde mostram os nossos Panteras Negras no esplendor das suas jovens vidas, praticando um desporto saudável sem qualquer contrapartida. Nesse tempo os pais ainda tinham de dar alguns trocos para eles “mastigarem e forrar” o estômago, para reporem as forças do exercício feito durante os noventa minutos. Hoje, não as vou contar. Vou sim, mostrar as tais fotos e pôr as legendas para que, muitos de vós que ledes o jornal, vos possais sentir emocionados pelo “reencontro” com um passado bonito. Pena é, que alguns dos que estão nas belas fotografias já tenham partido deste mundo. Todos seguiram os seus rumos. Naturalmente diferentes uns dos outros. Uns mais bem sucedidos, outros nem por isso. Penso que o único que seguiu a vida mais ou menos profissional no futebol foi o Emídio Magalhães (do Manuel Geba dos Bombeiros). Sei que ele está ligado ao desporto em Guimarães mas, não sei se foi desde o princípio da sua vida activa.
Quero acrescentar que os saídos dos Panteras Negras e da equipa do Colégio jogaram no Atlético como jogadores fixos mas, a par do futebol alguns foram para as universidades, onde alguns tiveram boas carreiras profissionais, outros foram para os empregos que apareciam. Dou por exemplo um jogador cabeceirense, o Dr. Juíz Amílcar Salreta, que chegou ao cargo máximo de Juíz do Supremo Tribunal! Foi sempre considerado desde o tempo do Colégio, o aluno prodígio. Isto sem desprimor dos outros jovens atletas que seguiram outras profissões.
O futebol não “enchia as barrigas” , só a alma!
Àqueles que a morte levou prematuramente, como por exemplo o Tino Vieira que, muito sofreu na sua doença prolongada, saindo do seio da família e dos amigos desejo que, Deus os tenha em Sua Santa Glória. Então, aqui vos deixo as fotografias para matar saudades.

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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