Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 03-10-2011

SECÇÃO: Opinião

MILAGRE

A neve suave e leve caía
Lá fora o bramido da ventania
Nas asas do vento o som do sino
Bateram à minha porta levemente
Será o vento, talvez gente
Era o eco dum gemido feminino

Olhei através da cortina
A repetida voz feminina
De novo por mim chamava
Na lareira a cinza cinzenta e morta
Apressei-me abrir a porta
Ela sem força, (soluçava)

Nesse soberano, e soberbo momento
Subtil, mandei-a entrar p’adentro
Seus pés nus no chão gelado
Pele mimosa e macia
Um manto branco vestia
No seu corpo gélido e cansado

Sem agasalho, quase nua
Nos olhos o brilho da lua
No rosto trazia a esperança
Seu manto de ceda fina
Olhar cândido de menina
Nos lábios um sorriso de criança

Humilde e serena, à minha beira
Sentou-se comigo à lareira
Dividi com ela a minha ceia
Falou do ódio, do amor, sentidamente
Arrepiou-me a alma e a mente
E alumiou mais forte a candeia

Arrefecida da neve e da lama
Exausta, deitou-se na minha cama
Parecia não mais acordar
Corpo angélico, coberto com fino véu
Parecia um anjo vindo do céu
E p’ro céu parecia voltar

Eu comovido a venerar
Maravilhado, mudo a imaginar
Parecia um sonho, um milagre sagrado
Solene momento, de paz e beleza
Em mim permanece a certeza
Que sonhar e amar não é pecado

Passei a noite a cismar
Acordei, ouvindo sua voz me chamar
Despediu-se e foi-se embora
Chorou na hora triste da partida
Lágrimas cor de prata derretida
Era a virgem nossa senhora

Na vida sonhei a cada momento
O sonho alimenta o pensamento
Minh’alma ainda ferve de ardor
Meu peito permanece em brasa
Senhora, porque vieste a minha casa
Se, nela mora um leigo e pobre pecador

Fernando Carvalho

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