Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-08-2011

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (143)

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LEADERS FRACOS FAZEM FRACA A FORTE GENTE

A frase em título, não sendo exactamente a original, tem já mais de quatro séculos. Ela remonta à segunda metade do século dezasseis, e não vou revelar aqui o nome do seu autor. É suposto que a grande maioria dos leitores o identifiquem de imediato, e, para aqueles que, ou não se lembrem, ou muito simplesmente não o conheçam, sempre será um bom exercício de cultura fazerem uso de alguns minutos de pesquisa.
Confesso que me sinto deveras incomodado com o significativo número de afirmações, que se têm vindo a ouvir de há uns tempos a esta parte. É facto que a democracia serve de desculpa para muita coisa. Democraticamente, toda a gente pode falar. Não se pode proibir quem quer que seja de dizer o que quer que lhe vá na alma. Ouvem-se as mais díspares barbaridades e, a única saída que parece restar-nos, será mesmo fazer ouvidos de mercador, respirar fundo para conter o stress e prosseguir em frente.
Daqueles patrões da indústria que, na esteira de políticos como Manuela Ferreira Leite, apostam no desenvolvimento (eu não digo crescimento) da economia nacional à custa da redução de dez ou quinze Euros no salário mínimo, vêm agora dizer que o núcleo duro das nossas dificuldades económicas e financeiras reside no facto de o Euro ser uma moeda forte, não me admira. Da grande maioria dos patrões da indústria, não me admira mesmo de nada, esses, a grande maioria, repito, pensam muito baixinho, pensam ao nível do salário mínimo nacional.
Agora, o que efectivamente me indispôs, não vai há muitos dias, foi ouvir da boca do Presidente da República (mantenho, por enquanto, letra grande) a mesma história daqueles outros pensadores rasteiros, que, para incrementarmos as nossas exportações, seria de toda a conveniência que o Euro fosse desvalorizado.
Não pensem, ninguém pense, na saída anedótica de dizer desvalorização do Euro face ao Dollar. Não se desvaloriza uma qualquer moeda face a uma qualquer outra em singular, quando uma qualquer moeda sofre uma variação em termos cambiais, essa variação resulta comparativamente a todas as moedas que se encontrem em circulação no mercado. Uma desvalorização do Euro tornaria mais forte não só o Dollar dos Estados Unidos da América, como toda e qualquer outra moeda de fora da zona Euro, desde o Brasil à China, passando pela Rússia, pela Índia, os chamados BRICs, (iniciais de Brasil, Rússia, Índia e China) e todos os outros que tenham as suas moedas cotadas internacionalmente.
Lembro-me do milagre económico alemão do pós guerra, que se baseou numa moeda forte, o marco. Lembro-me também do milagre económico japonês que se baseou, igualmente, numa moeda forte, o yen, a economia norte-americana sempre tem sido uma economia forte, a economia mais forte do mundo, e não me consta que alguma vez tenha sido notícia a fraqueza da moeda norte americana.
Ele há até um economista, da nossa praça, que ainda por cima é professor universitário, e tem os apelidos e um ex ministro das obras públicas, não sei se serão familiares, também não me interessa, nem vem ao caso, mas o que sei é que esse economista advoga a nossa saída, pura e simples, do Euro.
Não sei qual será o seu relacionamento com os alunos. Muito provavelmente até terá um óptimo relacionamento, e até será um bom professor. Porém, uma coisa penso saber, é que, se por lá houver alguns da têmpera de uns tantos outros que havia nos meus tempos de faculdade (como aluno trabalhador, eu sempre fui um trabalhador estudante), admiro-lhe o sangue frio no exercício da profissão.
Mas, voltando ao Senhor Professor Cavaco Silva, trata-se, também, de um professor catedrático de economia, e, por isso mesmo, deve saber muito bem daquilo de que fala. Aliás, ele costuma dizer, com relativa frequência, que sabe daquilo que fala, tenho-lhe ouvido esta frase por muitas e variadas vezes.
O que é facto é que eu também sei, qualquer um sabe, que a desvalorização da moeda conduz ao crescimento imediato dos preços, ao aumento do papel-moeda em circulação, ao aumento dos juros bancários, ao aumento da inflação, à diminuição do poder de compra, ao agravamento do custo de vida. Trata-se de criar as condições óptimas para situações como aquelas em que vivemos na segunda metade da década de setenta e na primeira metade da década de oitenta do século passado, em que os preços aumentavam à média de trinta por cento ao ano.
Com o devido respeito que me merecem todos os merceeiros, penso que o actual Presidente da República, que deveria emitir opiniões de nível superior, não por ser Presidente da República, mas por ser professor catedrático de economia, emite opiniões sobre a matéria (refiro-me a ele ter dito, perante as câmaras da televisão, que era negativo para a economia, o Euro continuar a manter-se uma moeda forte), não direi de merceeiro, mas, posso afirmá-lo, das quais o meu barbeiro discorda, por julgá-las de baixo nível em termos de comentário político.
Pobre país que tais dirigentes tem!
Empresários, políticos, sindicalistas, e até jornalistas, uma tristeza. “Leaders fracos fazem fraca a forte gente”.
De mim, poderão dizer que estou a ultrapassar alguns limites. Todavia, deixem-me que vos responda: apetece-me é voltar para a ilha…

PS: Sou daqueles que pensam que o actual governo é bom pano. Porém, o caso da Administração da Caixa Geral de Depósitos é, sem qualquer dúvida, a sua primeira grande nódoa. Espero, muito sinceramente, que as nódoas não continuem a cair-lhe em cima, e tornem aquele pano igual a toda a farrapada, que tanto tem desacreditado a classe, ao longo das últimas três décadas.

Por: José Costa Oliveira

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