Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 04-07-2011

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (141)

foto
A ENERGIA NUCLEAR

Há quem venha, desde há algum tempo, a alimentar a ideia de que a energia a partir do nuclear será a alternativa possível para a solução dos problemas energéticos que, a muito breve prazo, resultarão da escassez do principal combustível de origem fóssil, ou seja, do petróleo.
Neste momento, existem em todo o mundo, quatrocentas e trinta e oito centrais nucleares, distribuídas por trinta e um países, que produzem energia eléctrica. Os países com maior número de centrais deste tipo são os Estados Unidos com cento e quatro, seguidos pela França com cinquenta e nove, pelo Japão com cinquenta e três, pelo Reino Unido com trinta e cinco, depois a Rússia com vinte e nove e a Alemanha com dezanove. Com mais de dez, temos ainda a Coreia com dezasseis, o Canadá e a Índia ambos com catorze, a Ucrânia com treze e a Suécia com onze. Com uma apenas, há um conjunto de quatro países, a Arménia, a Eslovénia, a Holanda e a Roménia.
A nossa vizinha Espanha, aqui mesmo ao lado, tem nove, onde se conta Almaráz, na margem direita do Tejo, a cerca de cem quilómetros da nossa fronteira comum.
Antes de tudo, convém esclarecer que, quando se fala de energia nuclear, senso comum, estamos a referir-nos àquela parcela de energia eléctrica que é produzida em centrais térmicas e resulta da força do vapor de água.
A energia eléctrica a partir do nuclear é produzida exactamente da mesma forma daquela que é produzida a partir do carvão, do fuel, do gás, ou da biomassa. O nuclear, quando se fala de energia eléctrica, é apenas e tão-só, uma das espécies de matéria-prima na forma de combustível.
Em tudo o que sejam centrais térmicas, o que faz mover as turbinas produtoras de energia eléctrica é a força do vapor de água. O segredo, ou a mais-valia do nuclear, está na enorme quantidade de calor que é libertada por muito pequenas quantidades de combustível. Este combustível é constituído por pastilhas, ou tiras de reduzida dimensão, de urânio ou plutónio, que, sujeitas a um processo de fissão (divisão de um átomo pesado em dois ou vários fragmentos) liberta enormíssimas quantidades de calor.
À fissão atómica para a produção de calor, chama-se reacção nuclear controlada. Quando a fissão é não controlada, estamos em presença da bomba atómica, ou bomba nuclear. Naquelas que foram lançadas sobre Hiroshima e Nagasáqui, tratou-se de fissões não controladas, e aí, o que mais danos causou, no imediato, foi, efectivamente, e desmesurada libertação de calor.
Mas, voltando à produção de energia eléctrica, esta é sempre produzida graças ao movimento rotativo de turbinas. O vapor de água aquecida pela fissão nuclear produz os mesmos efeitos que o vapor de água aquecida pela combustão de carvão, de fuel, ou de biomassa. Efeitos também iguais são produzidos pela descarga de água proveniente das barragens, ou pelo vento que faz girar aquelas grandes ventoinhas que agora se vêm nos cumes de uma qualquer cordilheira.
O problema do nuclear prende-se com a matéria-prima utilizada, o urânio, que tem tanto de eficiente, pequenas quantidades de factor produzem enormes quantidades de produto, como de arriscado, o enormíssimo risco que representam os resíduos que ninguém sabe ainda o que fazer deles no futuro, a que acresce a probabilidade de acidente nuclear radioactivo.
A energia eléctrica a partir da fissão nuclear começou a ser produzida em finais dos anos sessenta do século passado, cerca de duas décadas e meia depois das primeiras e únicas deflagrações de bombas atómicas. Procurei saber qual teria sido a primeira central, deste tipo, a ser construída em todo o mundo, mas não me foi possível. Contudo, apurei que a mais antiga construída na Alemanha, a central de Obrigheim, no estado de Baden-Wurtemberg, iniciou a sua produção em 1968 e já fechou em 2005, funcionou durante trinta e sete anos. A mais antiga dos Estados Unidos da América, a central de Oyster Creek, no Estado de Nova Jersey, iniciou a sua produção em 1969, e, apesar dos protestos da população das proximidades, ainda se encontra activa, já funciona há quarenta e dois anos.
Até ao momento, há registo de três acidentes com centrais nucleares muito graves: o primeiro ocorreu no dia 28 de Março de 1979, na central norte americana de Three Mile Island, no estado da Pensilvânia; o segundo verificou-se a 26 de Abril de 1986, na central Chernobil, na Ucrânia, ao tempo uma das repúblicas da União Soviética; e o terceiro, este muito recente, ocorrido a 12 de Março de 2011, na central de Fukushima I, na ilha de Honshu, no Japão. A ilha de Honshu é a maior das ilhas do arquipélago japonês e onde se encontram cidades como Tóquio, Osaka, Quioto, e outras, todas de grande dimensão.
Quando todo o mundo ouvia, e observava, com grande apreensão, todo o conjunto de problemas decorrentes do aquecimento dos reactores de Fukushima I, eu questionei alguém: «então, por que é que não desligam os reactores?».
À minha questão inocente, alguém respondeu: «os reactores não podem ser desligados, uma central nuclear desde que começa a funcionar nunca mais pode parar até que o seu período de vida, determinado à “nascença”, se esgote».
Fiquei pasmado, pasmadíssimo! «Então, cria-se um sistema que nunca mais pode ser controlado? Não se pode travar e parar?». - Voltei a questionar.
E parece que, efectivamente, assim é. E, assim sendo, julgo que será da mais elementar prudência, que não se aposte no nuclear.
Mas, há mais, disseram-me: «ainda ninguém sabe o que fazer aos resíduos que ficam no final da exploração. Até ao momento, vão sendo armazenados nas “traseiras” das centrais, e parece também que a ideia será deixá-los lá, sepultados, juntamente com a própria central, depois de ter chegado ao fim da sua vida normal de exploração, durante centenas, ou milhares de anos, até que a radioactividade se esgote». Mais pasmado fiquei, ainda!
Por tudo isto, energia eléctrica a partir do nuclear? Não, muitíssimo obrigado.
PS: Segundo declarações, muito recentes, do novo Ministro da Economia, os portugueses deveriam começar a colocar uma bandeirinha nacional nos seus produtos quando expostos para venda. Para mim, é a prova de que o novo Ministro da Economia tem, efectivamente, andado pelo estrangeiro e reparado em certos bons hábitos dos produtores locais. Pela minha parte, que também tenho reparado em tais hábitos, apoiado, Senhor Ministro.

Por: José Costa Oliveira

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.