Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 13-06-2011

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…

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CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

ASSALTO AO “ DEMOCRATA”
Na noite de 7 para 8 de Junho deu-se um assalto à tipografia onde se compunha e imprimia “ O Democrata”, órgão oficial do partido republicano no nosso concelho, sita na Ponte de Pé. Os assaltantes, desconhecidos, arrombaram as portas, quebraram o prelo e empastelaram o “typo”.
A notícia é-nos dada em primeira mão pelo “Jornal de Cabeceiras”, publicado no dia 11, o qual, declarando-se não sendo “apologista destes abusos”, chamava a atenção para a “linguagem provocante e insultuosa que usava aquelle jornal (…) defendendo miseravelmente uma seita política local que (…) foi sempre geralmente mal vista e desprezada neste concelho”. E lembrava: “Ainda há pouco tempo, relatando uma violência commettida contra um diário portuense, a gazeta local estranhava que a justiça popular não tivesse assaltado o nosso jornal”. E diz ainda o órgão regenerador do seu adversário: “Pessimamente escripto e redigido numa linguagem baixa e demolidora, tendo à frente como responsáveis creaturas absolutamente desprovidas de senso moral”.

O INQUÉRITO AO ASSALTO

O inquérito começou imediatamente. Na manhã do dia seguinte foram levados à administração do concelho, por polícias civis vindos de Braga, sob prisão, os conhecidos Padre Domingos, seu irmão José Maria Pereira, funcionário judicial, Alberto César Leite, escrivão ajudante do 1º ofício e Jerónimo Ribeiro da Silva, antigo oficial de diligências da Câmara. Durante o dia foi um corropio na Administração com a audição de familiares dos detidos.
Por seu lado, “alguns rafeiros, da comitiva predilecta da autoridade, farejavam de ventas pelo chão várias pegadas que foram encontradas nos arredores da tipografia assaltada, e com ares triunfantes de Sherlock Holmes de papelão, faziam espalhar que os criminosos estavam descobertos”.
Entretanto uma multidão juntou-se nas imediações dos Paços, comentando as ocorrências, com muitos protestando “ contra a violenta perseguição”, protestos que se fizeram ouvir quando os presos, ao fim da tarde, foram levados para Braga debaixo de pesada escolta.
O Jornal de Cabeceiras lamentava-se: “Aqui não há legalidade, nem moralidade, nem justiça? (…) Respirava-se o ar pesado da Inquisição”. Acusava o administrador de mandatário das prisões efectuadas, como “miseravelmente vingativo e infamemente cobarde e ignóbil”.

FUSÃO

Em assembleia-geral foi proposta a fusão do Grémio Cabeceirense com o novel Grémio Republicano Cabeceirense. A proposta era da autoria do Dr. Diocleciano e sugeria que todos os associados do Grémio Cabeceirense fizessem parte da nova associação política. Seriam criadas secções educativas e políticas, com o lançamento imediato de um curso de adultos e posteriormente de uma ou mais escolas primárias. Politicamente propunham-se à propaganda das ideias republicanas por meio de conferências, palestras, merendas democráticas e fiscalização directa e constante sobre os diversos organismos sociais.

A NOVA DEMOCRACIA

Edital

“MANUEL GONÇALVES, presidente da Comissão Parochial deste lugar e freguesia de Abbadim. Faz saber que a Comissão Parochial está resolvida a deliberar que o descanço semanal seja ao domingo em todo o concelho. Portanto todas as pessoas que concordarem com esta opinião nada mais precisam dizer porque a Comissão Parochial assim o vai deliberar.
Mas se houver algumas pessoas que pretendam que o descanço semanal seja de o domingo ao meio dia até à segunda ao meio dia, essas pessoas se apresentarão ao Presidente da Comissão Parochial ou ao Regedor da Paróquia para dar as suas assignaturas para o fim que desejarem. Tudo isto deve ser feito até ao dia 22 do mês de Junho de mil novecentos e onze”.

Junho 13 de 1911
O Presidente
Manuel Gonçalves

Nota: Publicado no Jornal de Cabeceiras, nº 833, de 28 de Abril de 1912.

INSTITUTO DE GONDARÉM

Legado Gomes da Cunha

A Comissão Municipal – em sessão secreta – renunciou à administração do legado de Gomes da Cunha, pelo que o juiz de direito nomeou uma Comissão Administrativa constituída pelo Dr. José Leite Saldanha de Castro, Bernardino José Fernandes Basto e Florêncio Leite Pereira de Sousa Lobo. Isto é, a Câmara renunciava mas incluía no novo elenco a sua figura mais representativa – o administrador.
O Jornal de Cabeceiras deixava para mais tarde a crítica à constituição da comissão, mas já asseverava que tudo “é a primeira etapa de um plano audilosamente concebido”.

Castigos

Foram demitidos do Instituto o médico Dr. Arnaldo Pereira Leite e os professores José Pereira Leite e Maria Josefina da Costa Brito Rocha. À notícia acrescentava-se o seguinte comentário: “Até que finalmente os pretendidos amigos da instrução e beneficência, conseguiram que Gondarém ficasse deserto”.

DECISÕES DO GOVERNO

A partir de 1 de Janeiro de 1912 o dia deixava de se dividir em manhã e tarde, “passando a 1 hora da tarde a contar-se 13, as 2 horas 14 e assim sucessivamente até à meia-noite, que será a hora zero. No mesmo dia os relógios serão adiantados 36 minutos e 44 segundos e 68 centésimos”. Pretendia-se uniformidade com a hora dos países que se regiam pelo Meridiano de Greenwich.
Pela 1ª vez em Portugal passava-se a tributar a herança de pais para filhos.
A sede do distrito militar passou para Guimarães, que abarca o nosso concelho. Saímos assim do distrito militar de Amarante. Mantinha-se o Reg. Infantaria 20, mas desaparecia a banda militar.

RECORTES DE IMPRENSA

O Jornal de Cabeceiras lamentava não se terem realizado as eleições legislativas no nosso círculo – por falta de lista opositora – pois provar-se-ia a “nulla influência dos atuaes mandões locaes” que “ainda na sexta e sábado, vésperas da eleição, se esfalfavam numa correria doida (…), mendigando votos”.
O semanário monárquico decidira que “nem vamos discutir com o garoto, nem perseguir o miserável, que foge com as orelhas das nossas mãos”, ou seja com “as torpes arremetidas da gazeta local, alfobre alentado e bem estrumado de todos os canalhas indígenas”.

Acerca da cassação das licenças de exploração de água de António José da Cunha Chaves e de José Joaquim Antunes, ambos da Arosa (Cavez) escrevia-se: “o pedido partira do explorador – mor das minas do concelho, Sr. Manuel Alves Pereira, que afinal sempre consegue, por algum tempo, prejudicar e incomodar os visinhos das suas terras. Egualdade e moralidade de funil”.

Uma estocada no Dr. Vasconcelos que presidia como juiz a uma confraria de Cavez que não estava legalmente constituída, nem possuía estatutos: “afinal não eram só os antigos regeneradores que faziam monopólio das Confrarias e Irmandades”.

FEIRA DOS 30

A feira das Pereiras – a antiga feira dos 30 – voltou a realizar-se, não tendo sido assim acatada a determinação municipal que a mandara encerrar, substituída pela do Arco que, pela 2ª vez, se realizou mas notando-se um certo definhamento, transmitido igualmente à celebérrima “feira dos 15”.

ESCOLA

A Escola do sexo masculino de Abadim foi transferida para a Faia.
PESSOAS

Realizou-se o funeral de D. Maria Rosa de Mello da Gama, esposa do Sr. Martinho Mello da Gama, escrivão da Fazenda, recentemente colocado em Vila Pouca de Aguiar.
Também foi a sepultar D. Maria Teresa Leite Machado, esposa de Bento José Maria Bastos, de Chacim.
O Sr. Alberto Faro Montenegro tomou posse do cargo de escrivão-notário do 2º ofício do nosso tribunal.
O professor Samuel Augusto Viana foi provido temporariamente na escola de Painzela.
José A. Andrade Basto, conceituado capitalista brasileiro, ofertou ao Asilo de Mendicidade de Ponte de Pé a quantia de 10,000 reis.
Em várias freguesias do concelho realizaram-se missas de sufrágio pelo Dr. Francisco Botelho, falecido em 12 de Maio.



Por: Francisco Vitor Magalhães

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