Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 23-05-2011

SECÇÃO: Opinião

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FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…
A MORTE DO DR. FRANCISCO BOTELHO

CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919
A notícia rebentou como uma bomba. Na sua casa de Mourigo em São Nicolau falecera, no dia 12 de Maio, o Dr. Francisco Botelho, a mais importante figura política da época no nosso concelho e das mais influentes do distrito de Braga. Era um homem ainda novo. Deixava esposa e nove criancinhas “que deram uma grande nota de dor na sua despedida”. Recuperava de uma grave doença que o atingira no princípio do ano, mas tudo parecia agora correr pelo melhor. Iria partir brevemente para Lisboa onde iria desempenhar um alto cargo jurídico num grande Banco.
O funeral teve lugar no dia 13, tendo presidido às cerimónias fúnebres o arcipreste Manuel José Queiroga de Silveira, acolitado por mais de quarenta sacerdotes. A chave da urna foi conduzida pelo juiz da comarca Dr. António de Freitas Ribeiro. O elogio fúnebre foi proferido pelo seu excelente amigo Dr. Ângelo Vilela Passos. O corpo ficou depositado no cemitério de S. Nicolau, no jazigo da família Cunha Bastos. Foram mestres da cerimónia Rui João Teixeira de Carvalho, de Fermil, e António Joaquim Pinto da Cunha, de Guilhufe. Os estabelecimentos da vila estiveram de portas semi-cerradas e as bandeiras estiveram a meia-haste no Grémio Cebeceirense, Centro Democrático e Associação Artística Cabeceirense.
Lamentava-se profundamente a perda deste ilustre cidadão que muito honrara o concelho e o distrito.

ELEIÇÃO PARA A ASSEMBLEIA CONSTITUINTE

Realizaram-se no dia 28 de Maio as eleições para os deputados que vão constituir a Assembleia Nacional Constituinte, encarregada de elaborar a 1ª Constituição Republicana do país.
Os partidos monárquicos não concorreram e assim apresentaram-se a sufrágio o Partido Republicano Português, que obteve 227 deputados, e o Partido Socialista, que obteve 2. No nosso concelho não houve propriamente eleição dado que, não tendo havido oposição, foi automaticamente eleito deputado pelo nosso concelho o Sr. Augusto José Vieira, vereador da Câmara Municipal de Lisboa. Segundo o Jornal de Cabeceiras, não valeu a pena “a todos os ordinários gatunos que colaboraram na descarada roubalheira do recenseamento eleitoral, passar tanto trabalho e aguentar tantos dissabores”. Este recenseamento tinha sido um “escandaloso roubo, premeditado pela Comissão Recenseadora deste concelho”. Afirmava-se terem sido excluídos centenas de indivíduos que reuniam todas as condições legais, “todos elles afectos às instituições republicanas, mas que caíram no desagrado dos liliputianos dirigentes da política local”. Tinham sido apresentadas inúmeras reclamações, ainda não resolvidas, suspeitando-se de que não seriam atendidas já que os membros recenseadores afirmavam que “a autoridade administrativa já lhes prometera de antemão a amnistia”.

GRÉMIO REPUBLICANO CABECEIRENSE

Não há fome que não traga fartura, assim o diz o povo na sua milenar sabedoria. Durante o longo estortor da monarquia, nada houve no nosso concelho que cheirasse a republicano. Nenhum dos quatro jornais que, de 1895 para a frente até à República, aqui existiram (Jornal de Cabeceiras, O Povo de Cabeceiras, o Cabeceirense e o Colosso, estes 2 últimos de pouca duração) deram apoio às novas ideias. Somente a Associação do Registo Civil deu, por pouco tempo, um cheirinho do novo regime.
Após a implantação da República, logo em 26 de Janeiro de 1911, foi fundado o Centro Republicano de Cabeceiras. Deveu-se à iniciativa do administrador Florêncio Lobo que, num artigo que publicou num jornal do Porto, confessou ter tentado implantá-lo ainda no tempo do regime monárquico, tendo-se a sua intenção quebrado “de encontro às fictícias dificuldades creadas ou inventadas por indivíduos republicanos desde os bancos da escola”.
Pois, agora, a 21 de Maio, Cabeceiras recebe em festa a inauguração do “Grémio Republicano Cabeceirense”, que passa a ter a sua sede nas instalações do Grémio Cabeceirense. A recepção é grandiosa: no Bairro do Pinheiro, ao som da filarmónica Cabeceirense que toca o hino da “Maria da Fonte” é recebida a comitiva republicana. Esta é presidida pelo Sr. José Barbosa, do Directório do Partido Republicano e da comitiva faz parte o deputado António José Vieira, eleito por Cabeceiras para as Constituintes.
Não se notou a falta do administrador do concelho nem da vereação municipal, assim como de funcionários autárquicos, o que levou o Jornal de Cabeceiras a escrever: “ sempre correctos…Nem pela sua alta categoria social e política mereceram os ilustres visitantes uma simples visita ou cartão, dos mandões locaes…já é excesso de delicadeza, amabilidade e cortezia”.
O Dr. Diocleciano aproveitou para no seu discurso apresentar um “veemente protesto contra o infamante corte de cidadãos eleitores do recenseamento político local, premeditado e levado a cabo pela autoridade administrativa”.
O Sr. José Barbosa prometeu apresentar a queixa ao Directório do P.R.P.

O PAPAGAIO DO BAPTISTA

Baptista, regressado do Brasil onde arranjara um bom pé-de-meia, “regressara à Pátria na malla Real Inglesa em 1ª classe”. E trouxera um papagaio e passava agora os seus dias com o seu particular amigo O Tripa-Seca. Saboreava diariamente com delícia os doutrinários artigos da “Palavra”. Eram neutros em política local.
De repente surge um amigo, o Machado, “fazendo-se comunicar a 40 km à hora”. E este convenceu os amigos a outras leituras. Receberam ordens terminantes para se atirarem sem demora à leitura dos jornais republicanos. Ambos concordaram, menos o papagaio.
“Uma manhã quando o Baptista e o Tripa-Seca se deleitavam com a leitura do “Mundo”, em voz alta, o papagaio, desesperado por não concordar com aquela rápida mudança de doutrina, ferra uma forte bicada na cabeça do Baptista abrindo-lhe larga brecha; e, numa estridente gargalhada, berrando como um possesso: lê a “Palavra”, Baptista, lê a “Palavra”, Baptista”.

(Jornal de Cabeceiras, nº 783, de 23/04/1911)

PRESUNÇÃO E ÁGUA BENTA

O escrivão judicial do 2º ofício do nosso Tribunal Sr. Soares de Oliveira tinha sido colocado em Felgueiras. Insinuava-se que o administrador tinha o seu dedinho metido nesta transferência. O Jornal de Cabeceiras contesta a influência do administrador, “que se aperta e limita desde Ranhados até ao Bairro de Lameiros, numa circunferência de algumas centenas de metros quadrados, com raríssima e pouco conceituada população”. O administrador parecia associar este facto à ordem que dera para branqueamento das paredes dos corredores do edifício municipal, pelo que se lhe sugeria se encarregasse “de mandar consertar o órgão do côro, porque sabe de música e é orelhista notável…Ficará assim mais esta creatura com dois títulos(…): brochante e organista”.

PRISÃO
O Sr. Manuel Alves Pereira, do Samão, membro da comissão municipal, tendo visto um empregado da tipografia do Jornal de Cabeceiras a segredar, com um menor à porta da administração, entendeu “que aquele procedimento era criminoso” e comunicou o facto à administração que logo prendeu o empregado Bernardino Teixeira Basto. Ia ser acusado e remetido para juízo pelo ignóbil crime de suborno.

FERIADO MUNICIPAL

A Câmara decidiu instituir como feriado municipal o dia 12 de Novembro, comemorando assim a data da instalação da comarca.
Havia uma corrente de opinião que apontava para o dia 29 de Setembro, “de antigas e arreigadas tradições”.

ASSOCIAÇÃO DE SOCORROS MÚTUOS


Foi fundada na vila esta associação que, como 1º acto, organizou uma conferência em que foi orador o Dr. Francisco Canavarro Valladares.

GRANDE INCÊNDIO

Um grande incêndio destruiu a casa dos caseiros da quinta do Banido do Sr. Bernardino Pereira Leite Basto. Os prejuízos orçavam por 150,000 réis, cobertos pela “Fidelidade”.

JORNAL DE CABECEIRAS

“Por motivos estranhos aos nossos desejos” não se publicara este semanário nos dias 14, 21 e 28 de Maio (domingos – dia normal da publicação). No entanto, na segunda-feira, dia 29, foi posto na rua o nº 786, cuja notícia principal era o falecimento do Dr. Francisco Botelho, tendo a página de rosto aparecido tarjada de negro.
O semanário voltou à sua publicação normal no domingo seguinte, arvorando uma fotografia do ilustre desaparecido e anunciando para breve a publicação de um número especial dedicado à sua memória.

PESSOAS

Foi transferido para Felgueiras o Sr. António Joaquim Soares de Oliveira, escrivão do 2º oficio do nosso Tribunal, Foi substituído por Alberto Mendonça Foro Lencastre Montenegro, transferido de Mesão Frio.
Também o escrivão de Fazenda Martinho de Melo Gama foi colocado em Vila Pouca de Aguiar, por permuta com Alberto Carlos da Rocha.
O Sr. José A. Andrade Basto, conceituado capitalista brasileiro, ofertou ao Asilo de Mendicidade a quantia de 10,000 réis.

Por: Francisco Vitor Magalhães

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