Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 23-05-2011

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (139)

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O FIM DO PETRÓLEO BARATO

O mundo cresceu muito, mas mesmo muito, eu até penso que terá crescido de mais, nos últimos cinquenta anos. Recuando apenas um poucochinho mais no tempo, não mais que outros cinquenta anos, e muito facilmente se pode verificar que o mundo cresceu mais no último século do que crescera durante os anteriores dezanove séculos, desde o início da nossa era, desde o início da era cristã.
É impressionante o rol de ideias que, todos os dias, nos são transmitidas, nos são impostas, por tudo quanto é meio de comunicação social, de que o país precisa de crescer, que a Europa precisa de crescer, que o mundo precisa de crescer.
Irra! Parem lá com a obsessão do crescimento. A Europa não precisa de crescer, Portugal precisará de crescer bastante pouco, e o mundo, no seu todo, será bastante mais próspero, mais humano, mais adequado para albergar a população global, se crescer de modo muito diferente daquele que actualmente está crescendo.
Há muitas regiões do mundo onde o crescimento já deveria ter sido travado há muito tempo, pelo menos há duas ou três décadas. Nessas regiões, cresceu depressa de mais, e o resultado está aí, à vista de todos nós, que continuamos a aceitar a tese de que o que é preciso é crescer, em qualquer sítio, e a qualquer preço! O resultado, de todo esse crescimento, anárquico e desordenado, só pode ser um: a catástrofe.
O mundo, agora “pomposamente”, eu direi antes, hipócrita e irresponsavelmente, designado de aldeia global, corre, a uma velocidade vertiginosa, para a catástrofe.
Mas, terá havido alguma razão para que o mundo crescesse tanto e tão depressa? Houve sim. Essa razão foi o aparecimento, no início do século XX, de uma fonte de energia excessivamente barata. Foi o aparecimento do petróleo e a sua exploração em grande escala.
É assustador o número de veículos movidos a derivados de petróleo, em particular os conhecidos como gasolina e gasóleo, que se observam a circular por tudo quanto é via de circulação, as estradas, as auto-estradas e as ruas e vielas de aldeias, vilas e cidades.
Há já algum tempo, que me venho interrogando sobre a viabilidade, a médio prazo, de todo o parque automóvel existente, a nível mundial, claro.
Não vai assim há tantos anos, eu lembro-me muito bem disso, que, no nosso pequeno burgo, se viam apenas três ou quatro automóveis, o mais carismático dos quais era o carro de praça (táxi), que estacionava no lado direito da curva da EN 205, ali em frente do pelourinho da Praça da República. Lembro-me do seu visual, isto é, do modelo, deveria ser um Ford B – 1932, que viera substituir o lendário Ford T – 1907.
Nos dias de hoje, repare-se no parque automóvel que por aí anda, seja na nossa, seja em qualquer outra pequena vila do interior do país, que são minúsculas amostras daquilo que se vê em metrópoles como Nova Iorque, São Paulo, Bombaim, ou Shangai. É de meter medo!
Mas, o petróleo, muito em particular, o petróleo barato, vai acabar a muito curto prazo. O seu preço, falando-se nas cotações internacionais que é em dollares por barril, muito dificilmente voltará à base dos cem dollares. Em princípio, até nem seria nada mau que eu me enganasse, mas, pelo que tenho lido, é muito pouco provável que me engane.
O preço da variada gama de combustíveis derivados do petróleo, que fazem mover todo o parque automóvel, os aviões civis e militares, as frotas navais de guerra e mercantes, as centrais termoeléctricas de produção de electricidade, tem sido excessivamente barato, porque o crude, a matéria-prima, também tem sido excessivamente barata.
Acabei, há poucos dias, de ler um livro, de capa amarela, que tem exactamente esse título: “O fim do petróleo”, de James Howard Kunstler. Este autor é norte-americano e reside nas proximidades de Nova Iorque, e o conteúdo do livro vem, exactamente, ao encontro dos meus pensamentos, porque não dizê-lo, das minhas mais profundas preocupações, sobre o tema.
Ao longo das páginas daquele livro, vem demonstrado, com razoável evidência, que a exploração do chamado ouro negro já terá atingido o seu pico, isto é, o seu ponto máximo, em termos economicamente vantajosos. Que as reservas se encontram a menos de metade do total que existia aquando da sua descoberta como matéria economicamente valiosa. Que o que resta não dará para muito mais que umas quatro ou cinco décadas, isto se o ritmo de exploração se mantiver.
Porém, a sua extracção do subsolo ir-se-á tornando cada vez mais cara, dado as jazidas irem ficando vazias, ocas, e ser necessário injectar água do mar para aumentar a pressão no interior dos poços.
Tem-se especulado bastante sobre a hipótese de se poder obter, como combustível alternativo, e de substituição, aos derivados do petróleo, o hidrogénio. Mas, o hidrogénio tem um custo de exploração que o torna, de todo, economicamente inviável. Para se produzir uma unidade de energia proveniente do hidrogénio, é necessário utilizar uma unidade de uma qualquer outra energia, logo, resultado nulo, negócio não viável.
Acabando a energia eléctrica produzida a partir de derivados de petróleo em centrais termoeléctricas, a que restar, ou seja, o somatório das energias: hídrica, eólica, solar e das marés, sempre será escasso, e, por isso mesmo, se tornará cada vez mais e mais caro.
Automóveis e camiões eléctricos, movidos à força de baterias? Sim senhor, mas tudo em muito menor número e muito mais caro.
Muito sinceramente, não estou a ver muito bem como, um qualquer camião, de trinta ou quarenta toneladas, poderá fazer uma viagem, de ida e volta, entre Lisboa, ou Porto, e Berlim, ou Estocolmo, movido à força de baterias de acumuladores!
Para grandes transportes, e a grandes distâncias, terá que recorrer-se novamente ao comboio, comboio eléctrico, entenda-se! Pensem bem, e suspendam a destruição das infra-estruturas ferroviárias que ainda por aí existem. A muito breve prazo, tudo terá que ser recuperado. Quem avisa…
Num dos próximos números, escreverei aqui sobre a energia nuclear que, muito naturalmente, não deverá ser utilizada para fazer mover locomotivas de caminhos-de-ferro!

Por: José Costa Oliveira

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