Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 02-05-2011

SECÇÃO: Opinião

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FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…
CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

O ÚLTIMO NÚMERO DE “O DEMOCRATA”?
Em 30 de Março saiu para a rua o nº 15 do semanário republicano. É este o último número que conhecemos apesar de termos já iniciado algumas tentativas para sabermos do seu destino. Certo é que este número não nos dá qualquer indicação de uma suspensão ou de uma cessação que aconteceu a muitos jornais republicanos mais tarde, em 1912, quando o Partido Republicano se desmembrou em 3 facções e obrigou a uma reconversão da imprensa de cor partidária.
Este último número que conhecemos tem um editorial com o sugestivo título de “A Canalha” e onde se afirma: “Não, ninguém os acreditava, porque toda a gente sabe já, e bem, qual era a quadrilha que escandalosamente roubava dos seus cofres o dinheiro do escarnecido Gomes da Cunha”. E, noutro passo: “Toda a gente sabe, e bem, quem eram os manhosos roubadores de urnas, e os porcos falsificadores de actos eleitorais”.
Aproveitava do “Radical” de Braga um artigo de ataque à antiga administração monárquica concelhia e ao chefe regenerador Dr. Francisco Botelho, ex-governador civil, para logo passar aos elogios à nova administração: “E assim é que, na verdade, a obra gigantesca de moralização e regeneração empreendida e até agora felizmente, ousadamente seguida pelo administrador, (…) tem, quer os incendiários e ratoneiros da monarchia, quer seus fingidos republicanos com aquelles bandeados e acamaradados, oposto a mais feroz e infame guerra de calumnias, de torpezas e de ciladas”.
Também do “Montanha”, jornal de grande circulação do Porto, aproveitava mais um elogio ao administrador, “um dos que mais tem trabalhado, com muita prudência e rara energia, tem vencido todas as dificuldades, conseguindo levantar o nível moral do seu concelho”.
Nada encontramos no concorrente “Jornal de Cabeceiras” qualquer referência a uma possível extinção do “Democrata”, mas notamos um crescendo de violência, de tal modo que as autoridades locais se queixavam da sua agressividade e que receberam a devida resposta no editorial intitulado “Quem semeia ventos…”, onde se diz: “Há perto de meio ano que os progressistas locais, investidos na posse de cargos administrativos, por um acaso passageiramente às suas vaidades do mundo, e demasiadamente grato ao seu feitio de camaleões, accusam destemperadamente os seus tradicionais inimigos como auctores de crimes graves, fantasticamente inventados”.
Vamos procurar encontrar outros números de “O Democrata”.

RECORTE
O Lente

“Não podia deixar de ser: o demolidor, o iconoclasta, o revolucionário audaz e arrebatador, que tantos serviços prestou à República como orientador, como herói, como vítima da monarquia; e sobretudo como educador da infância […] Oh! portentoso pedagogo, oh! donairoso árbitro da moda! oh! elegante, oh! sapiente; oh! astronómico lunático! oh! sábio! oh! glorioso autor de cartas anónimas!”
(Diatribe do Jornal de Cabeceiras nº 779, de 26/03/1911, contra Domingos Vinhaes, ex-mestre escola de Passos, que anunciara estar a escrever um livro sobre “ o escuro caso do desaparecimento de determinada importância” de que era suspeito).

RECENSEAMENTO ELEITORAL

Estava em curso o recenseamento eleitoral. O nosso concelho fazia parte do 2º círculo do distrito, com sede em Guimarães e agrupando este concelho, o nosso e ainda o de Fafe e Celorico. Cada concelho tinha a sua comissão recenseadora (presidentes da Junta de Paróquia aos quais presidia o Presidente da Câmara) e não deixou de haver em toda a parte reclamações contra o serviço destas comissões. É que elas interpretavam a lei de uma maneira tão draconiana que, quem não fosse por nós não tinha direito a voto.
Cabeceiras não foi excepção e os que se sentiam prejudicados reagiram indignadamente, ora contando casos de irregularidades (não afixação de editais, não afixação das relações de eleitores) e casos isolados. Tudo isto provocou grande indignação com protestos e reclamações e mesmo um telegrama ao Ministro do Interior, assinado por 4 respeitáveis cabeceirenses, donde se lê: “Administrador do concelho, antigo cacique do partido progressista, prova evidentemente fazer uma política de sectarismo, dando força às suas antigas hostes”.
O “Jornal de Cabeceiras” tornou-se o órgão propagador desta indignação e assim escreve: “O escrúpulo de comissão recenseadora foi tão meticuloso que deixou de inscrever funcionários públicos, como o escrivão-da-Fazenda, o recebedor do concelho, dois escrivães-ajudantes, alguns antigos vereadores da Câmara e maiores contribuintes prediais e industriais! Uma grande degola! Até o próprio presidente da Comissão deixou de recensear o seu senhorio e vizinho, que he eleito há mais de 50 anos, sabe ler e escrever e é um exemplar chefe de família. Na estação do Correio, que é composta de chefe, guarda-fios e dois carteiros, só um destes foi recenseado”.
Aponta-se ainda o caso do lugar de Terreiros, em Painzela, que ficou agora somente com 27 votantes, tendo sido excluídos 57.
A comissão não tinha em conta a penalidade que a lei preconizava a quem, por dolo, não recenseasse qualquer cidadão: multa de 100 a 500 mil reis e suspensão de direitos políticos entre 3 e 6 anos.

REGISTO CIVIL

Entrara no dia 1 de Abril em vigor a lei do Registo Civil que tornava obrigatório o registo de nascimentos, casamentos, óbitos, legitimações e perfilhações. A igreja perdia assim a prorrogativa que lhe vinha de meados do século XVI (Concílio de Trento). Não foi uma medida muito popular, especialmente nas zonas rurais. Muitos párocos lutaram encarniçadamente contra esta lei, já que os réis deixaram de cair nos seus cofres. De notar que em Cabeceiras existia a Associação de Registo Civil (tinha por objectivo a propaganda anti-clerical) que registou algumas dezenas de nascituros. Recorde-se que, a quando da entrada do padre Martins Vilella na paróquia de Refojos, alguns habitantes da vila, desgostosos, registaram os seus filhos naquela Associação. Por curiosidade, um deles foi testemunhado pelo citado pároco.
Desejando acudir aos locais mais afastados, a administração concelhia resolveu de imediato criar postos em Bucos, Samão, Vilar e Cavez, para ao quais nomeou como responsáveis respectivamente a Manuel Brás Júnior, Justino de Carvalho, Agostinho José de Carvalho e Manuel Teixeira de Andrade. As forças vivas do Arco mexeram-se e conseguiram a criação de um posto, sobre o qual temos a seguinte “farpa “:
“Foi creado um novo posto de registo civil com sede no Arco de Baulhe, sendo anichado n’elle o antigo mestre alfaiate, Sr. José Benjamim de Magalhães que, como os seus antigos collegas, militou sempre fielmente no partido furta-cores local, transitando com grande facilidade dos progressistas para os nacionalistas.
…Bate certo”

PETIÇÃO

Um grupo de cidadãos cabeceirenses remeteu ao ministro da Justiça uma exposição solicitando a demissão do farmacêutico Arnaldo de Barros do cargo de Juiz de Paz de Refojos, acusando-o da protecção que vinha concedendo a Bernardino Pereira Leite Bastos, secretário da Comissão Municipal, réu num processo em que eram autores Fortunato Neves e mulher.

RECORTES DE IMPRENSA

“Os parochianos da freguesia de S. Nicolau, que precisam dos serviços farmacêuticos têm o seguinte privilégio: se promettem abastecer-se da pharmácia do Sr. Barros, não carecem de formalidades do visto da autoridade nas suas receitas; mas se são freguesas da pharmacia do Dr. Franklim Vaz fazem-se rodopiar para diversas residências, demorando-se-lhes propositadamente aquella solenne e complicada cerimónia do visto”.

(Jornal de Cabeceiras, nº 783, de 30/04/1911)

INAUGURAÇÃO DA FEIRA
DO ARCO

Substituindo a antiga feira dos 30 das Pereiras, a administração resolveu transferir esta para o Arco de Baulhe. A inauguração desta deu-se em 30 de Abril, com grande presença de feirantes. Mas “…a certa altura apareceu uma banda de música e os competentes fogueteiros, que anunciava a entrada no arraial da autoridade administrativa, rodeada, como sempre, dos seus favoritos e inseparáveis e que dirigia pródigas contumelias aos espectadores embasbacados. (…) Depois seguiu-se a grande orchestra da pancadaria. Só faltou a facada! Do mais houve de tudo: cabeças partidas e pernas furadas com zagalotes”.
O herói: um caseiro do Sr. administrador “que disparou um tiro contra um popular, attingindo-o numa coxa”.
Pergunta o repórter: “Foi preso? O tanas! Era caseiro do Sr. administrador!”.


FUGA DA CADEIA

Na madrugada do dia 2 de Abril fugiram da cadeia das Pereiras 7 presos. Entre eles o regedor de Abadim, Avelino Gonçalves, que esteve preso desde o dia anterior.


PEQUENAS NOTÍCIAS

Ia ser abolido o real d’água, imposto muito antigo. Mas só de nome… já que as importâncias devidas seriam cobradas como adicionais sobre a contribuição predial.
Ia ser publicada a nova lei sobre instrução primária. Dividia o ensino em infantil e primário e este em elementar, complementar e superior. Foi determinada a criação de escolas em todas as freguesias.
Em Cavez teve de ser abatido um gato raivoso que tinha atacado e mordido a esposa do Dr. António Vasconcelos e um serviçal da Casa da Igreja. As suas vítimas estavam internadas no Porto.
As geadas dos últimos dias da primeira quinzena de Abril queimaram por completo os batatais, feijoais e outras culturas temporãs. Só o vinho, pelo seu nascimento estar atrasado, terá escapado à razia. Ontem como hoje.
Foi nomeado Juiz de paz de S. Nicolau o Sr. Tomás Joaquim Machado, desta vila.

PESSOAS

Tomou posse do cargo de oficial do Registo Civil o Dr. José Maria Nunes Leitão, que iria desempenhar “um dos mais espinhosos cargos da Nação”. A repartição ficava próxima do gabinete do Sr. administrador.
O padre José Fernandes da Silva, pároco de Samão e Gondiães, recebeu carta de encomendação por mais um ano.
O Dr. Francisco Botelho encontrava-se na sua casa de Mourigo, em convalescença de uma longa doença.
Avelino Leite Pacheco e outros, que estavam presos pelo crime de fogo posto, foram ilibados e postos em liberdade.
O Dr. Canavarro Valladares, ilustre advogado, tinha regressado a Cabeceiras, e podia ser procurado ou no Hotel Lealdade ou na sua residência no Secco.

Por: Francisco Vitor Magalhães

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