Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 02-05-2011

SECÇÃO: Recordar é viver

Lavoura Tradicional

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Realizada pela primeira vez na Quinta Pedagógica no lugar de Souto Maior

Caríssimos leitores, talvez estranhem que venha mais uma vez escrever sobre a realização de uma lavoura tradicional. Penso que descrevi mais ou menos no que consistia uma lavoura ou “serviçada”, como era designada antigamente. A agricultura em Cabeceiras e até nalguns concelhos limítrofes era mais de subsistência. Primeiro porque os terrenos eram na sua maior parte feita em socalcos, portanto mais difíceis de trabalhar, segundo, os agricultores semeavam sempre os mesmos produtos (era o vinho verde, milho, feijão, batata e hortaliças) e animais bovinos que na maior parte pertenciam aos patrões das terras. De qualquer maneira poder-se-á dizer era uma economia familiar e conservadora o que dificultava à abertura de explorações de novos produtos de modo a melhorar os seus rendimentos familiares. Está mais que provado que os nossos solos são bons para outros produtos diferentes mas, não vou falar deles que não tenho competência para isso.
Tudo isto para dizer, no seguimento da minha conversa que, havia pouco dinheiro antigamente para pagar a jorna dos trabalhadores que andavam a ganhar o dia. A vida era muito dura, tanto para quem tinha de os chamar e também para quem procurava trabalho. Por isso, a lavoura era feita com a ajuda dos familiares e dos vizinhos. Ajudavam-se uns aos outros.
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Já vos falei em crónicas anteriores relacionadas com as lavouras, de todos os passos que se faziam nos campos antes do arado rasgar a terra. No dia anterior eram feitos os “cadabulhos” quer dizer, tirar a erva e sachar, mesmo em volta das videiras (as videiras também têm de ser tratadas) porque o arado não pode chegar perto para não se correr o risco de as cortar, portanto essa parte era feita toda com a sachola. Ao mesmo tempo que se faziam esses “cadabulhos” iam-se já delineando os regos a toda a volta dos campos para se proceder, mais tarde, às regas dos milhos, do feijão, das nabiças couve e também “botefas” usadas para alimento dos porcos. Essas sementes eram, e são, onde ainda se faz este serviço, todas misturadas ao mesmo tempo no semeador. O estrume era tirado das cortes dos animais com os gadanhos no dia anterior, levado para os campos nos carros de bois. Os homens e mulheres utilizavam as forquilhas para espalhar por todo o campo onde se ia fazer a “serviçada” .
Ora bem, estou a relembrar-vos tudo isso para chegar ao título desta crónica. Lavoura na Quinta Pedagógica, sita no lugar de Souto Maior, que está situada na freguesia da Faia. Melhor dizendo fica no limite da freguesia confrontando com o Arco de Baúlhe. Digamos que, a quinta fica no meio das duas freguesias.
Recentemente adquirida pela Câmara Municipal, este ano, pela primeira vez, a Quinta Pedagógica, cujo projecto de dinamização ainda está a ser desenvolvido, serviu de cenário para a recriação duma lavoura tradicional onde pessoas de várias gerações – menos jovens, jovens e crianças – participaram activamente nesta tradição já pouco usual nos nossos dias. Como a maior parte de vocês sabem, pelo menos os que lêem o Ecos de Basto, esta actividade (lavoura tradicional) fez-se durante três anos consecutivos na Freguesia de Refojos de Basto, mais propriamente nas terras do nosso estimado senhor António Duro da Quinta da Portela, infelizmente já falecido. A Câmara Municipal atenta e preocupada, com a valorização e divulgação dos usos e costumes, das tradições, do património histórico e cultural, procura evitar que desapareçam e, com eles a nossa História, pensou e muito bem que uma quinta pedagógica seria o ideal para nela se dsenvolverem “aulas” onde os mais velhos pudessem demonstrar, fazendo, aos mais jovens como se trabalhava a terra, como se semeavam as sementes e, ensinando-lhes os nomes de cada um dos utensílios. A ocasião chegou e, assim aconteceu. Este ano a primeira lavoura teve lugar na Quinta Pedagógica de Souto Maior, na Faia, propriedade adquirida com fins pedagógicos.
A lavoura tradicional foi organizada pela Câmara Municipal e pela EMUNIBASTO, com o apoio da Basto Vida. Começou com o “mata-bicho” às oito horas e meia que, constava da aguardente e pão. Cheguei um pouco mais tarde, porque me perdi (não olhei para as placas) mas, quando acertei com o caminho encontrei no campo a maior animação. Guiando as juntas de vacas que, puxavam os arados, estavam os mais antigos, homens e mulheres que foram na maior parte da sua vida agricultores e mostravam aos mais jovens e às crianças como era naquele tempo a vida no campo. Era muito dura embora tivesse o seu encanto.
Grupo de mulheres e homens cantavam ao som das concertinas e também dos Cavaquinhos da Raposeira que mais uma vez responderam prontos à chamada, animando e cantando juntamente com as pessoas que deles se aproximavam. Eu também cantei e até dei dois passos de dança com a senhora Cândida de Painzela que, por onde passa, deixa um rasto de alegria com a sua boa disposição.
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Enquanto se cantava, lá para as dez da manhã e era preciso dar força aos que estavam a trabalhar no duro, foi servido para quem quis (quiseram todos) pataniscas, tremoços, azeitonas e figos secos, verde tinto ou água para os da dieta. No final da lavoura foi servido o bacalhau frito, uma boa feijoada à maneira, broa e vinho aos trabalhadores e aos que participaram animando o povo com as suas cantigas ao som das concertinas. O dia apesar de chuvoso e com “fraca cara” até se portou muito bem com o aparecimento do sol de vez em quando por entre as árvores.
Como sempre procurei registar com a minha máquina fotográfica esta tradição ainda tão enraizada na minha memória. Não vou ocupar mais espaço porque penso que tudo já foi dito. Vou divulgar umas quadras que me cantaram na ocasião e também umas fotos para os que não puderam estar presentes e para que os cabeceirenses que estão longe possam matar saudades desta sua linda terra muito amada.

Sou português emigrante
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Que deixou a sua terra
Faz-me lembrar o soldado
Quando parte para a guerra
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Fui à fonte para te ver…ó Rosa
Ao rio para te falar…ó Rosa
Nem na fonte nem no rio…ó Rosa, ó linda Rosa!
Nunca te cheguei a encontrar…ó Rosa, ó linda Rosa

O teu amor e o meu
Foram ambos à ribeira
O meu foi à erva doce
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O teu foi à erva cidreira…ó Rosa, ó linda Rosa!
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fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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