Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 11-04-2011

SECÇÃO: Opinião

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FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…
CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

EXPLICANDO

“O Jornal de Cabeceiras” inicia no seu nº 774, de 19/02/1911, um editorial sobre o título acima, em que pretende dar a conhecer a verdadeira história dos acon-tecimentos ocorridos no concelho no tocante à nomeação do administrador e à formação da 1ª comissão administrativa republicana. Curiosa é, no entanto, a declaração que a direcção e redacção do jornal fazem sobre si próprios: “É certo que tem seguido (o jornal) uma linha de independência que pode ter desagradado a muitos exaltados; mas também não é menos verdadeiro que, com tal orientação, não temos tido ensejo de sofrer o mínimo dissabor”. E termina, não vá o diabo tecê-las: “Declaramos a mais franca e legal adhesão ao regime republicano”. (Esta última tirada levou o “Democrata” a dizer que o “pasquim há dias vem pintado de republicano”).
Mas vamos a alguns excertos do texto:

« Implantado o regime republicano principiou a propalar-se nesta vila de Cabeceiras o boato de que o novo administrador do concelho seria o Sr. Florêncio Leite de Sousa Lobo, quintanista da Universidade de Coimbra, natural deste concelho e que, segundo constava, se havia recentemente filiado num centro revolucionário de Coimbra, o que d’alguma forma justificava o boato da sua nomeação. Em Cabeceiras não haviam comissões republicanas no tempo da implantação, embora existissem alguns, poucos é certo, elementos valiosos de conhecidas ideias republicanas, que since-ramente se regozijariam com a mudança de instituições.
Entre esses elementos contavam-se nomes de elevada cotação moral nesta vila, homens dignos e independentes, respei-táveis e ilustrados, isentos de responsabilidades políticas e que, noutro meio que não fosse Cabeceiras tão hostil como era à avassaladora corrente das moder-nas ideias – se teriam destacado como apóstolos fervorosos e sinceros do credo republicano.
(…) Entre esses nomes altamente estimados neste concelho, contam-se individua-lidades de reconhecido valor, de rara isenção e honestidade, como são os Exmºs Sr. Dr. Manoel Joaquim de Sousa Barros Leitão, antigo advogado nesta comarca, Dr. Diocleciano Dias Peixoto, distincto médico municipal, Franklim Ernesto d’Oliveira Vaz, conceituado farmacêutico, José Gonçalves Pena, illustrado professor primário e outros.
Estranhou-se, portanto, o extravagante boato, porque o indigitado para o cargo de administrador, nem podia merecer a confiança política dos seus superiores, porque ainda recentemente se envolvera em lutas partidárias locaes a favor do partido progressista, e não possuía, no entender de muitos, a idoneidade e a competência para, num período anormal, assumir as responsabilidades de um cargo tão espinhoso.
(…) O que é certo é que, contra as expectativas de todos, o Sr. Florêncio Lobo foi nomeado administrador do concelho e investido no cargo de presidente da comissão administrativa por elle à pressa confeccionada e que, como indício de enternecida gratidão para com os seus antigos correligionários políticos, foi composta de quase exclusivamente de elementos que pertenciam ao partido progressista e de indivíduos que já haviam feito parte da efémera comissão franquista de 1908.
(…) A selecção foi feita mas os seleccionados foram todos aqueles que pertenciam à casta furta-cores; nella foram recrutados os actuais monopolistas da moralidade, da sabedoria, da competência e da honestidade que actualmente predominam neste concelho…
Os adversários da tribo escolhida, são os criminosos, os delapidadores. »

Agora o lamento :
«[…] Os velhos elementos do partido regenerador do nosso concelho porque sempre serviu com dedicação e firmeza o seu chefe local; porque infligiram em 40 annos consecutivos as mais esmagadoras derrotas aos seus inimigos políticos; porque nunca deram a mais insignificante prova de indisciplina ou defecção partidária – são os perseguidos e infamados por aquelles que, invariavelmente, mudavam de cor política, com a mesma convicção e sinceridade com que agora se apresentaram com o rótulo e chancella de legítimos e históricos democratas??? »

Segue-se o apelo final: Pede-se ao governador civil “que conhece este concelho”, para “não tolerar a continuação de tão vexatória perseguição e tão estranhas prepotências”.

UMA PEQUENA DERROTA

Por se terem provado que as informações da administração do concelho eram… falsas tinha sido posto em liberdade o ex-pároco de Painzela, Padre Domingos Maria de Jesus Alves Pina. Tinha estado detido no Porto durante alguns dias.
Em Braga foi libertado o Padre Alexandre Camelo, pároco de São Nicolau, por se terem averiguado falsas as acusações que lhe tinham sido feitas.

CRÍTICAS À ADMINISTRAÇÃO

São violentas as críticas aos castigos aplicados ao farmacêutico Francisco Luís Maia, demitido do cargo de farmacêutico do Instituto de Gondarém. A decisão foi considerada arbitrária e injusta. A oposição afirma que tinha sido demitido “porque era zeloso no cumprimento dos seus deveres profissionais”; “não merecia simpathia dos da comissão municipal”.

Quanto ao Dr. Diocleciano, verberava-se o procedimento da comissão que fizera desaparecer…misteriosamente um requerimento apresentado na sessão anterior.


OS IMMACULADOS

Fazia grande mossa aos republicanos de Cabeceiras a correspondência que “O Intransigente”, diário republicano da capital, da facção radical, fundado e dirigido por Machado dos Santos, o único grande herói da República. Assim acontece com a local que o correspondente intitulou de “Os Immaculados” em resposta ao “Mundo”, outro grande diário republicano que constatava “terem causado a mais justa indignação entre os homens honestos e de carácter limpo deste concelho” e em que o administrador era “indigno e infamamente visado”.
O correspondente do “Intransigente” não se fica e acusa o administrador e o seu vice de alvo de processos de crimes e coimas; acusa o vereador António Machado Pereira “de cúmplice no homicídio de José Bento Alves, ofensas corporais voluntárias na pessoa de Acácio Monteiro e estupro e rapto da menor Maria Augusta”.
O farmacêutico Arnaldo Barros, vereador e juiz de paz não é poupado e “lembra um diferendo com um seu irmão”; já Manoel Joaquim Alves Machado é acusado de “crime de injúria”. Termina com um sonoro “saiam desses lugares”.
As notícias do correspondente local do “Intransigente” levaram mesmo uma delegação de 3 cabeceirenses a Lisboa para solicitar à direcção que terminasse com as infâmias propaladas pelo correspondente. Segundo o “Jornal de Cabeceiras” “foi dinheiro perdido o gasto na passeata a Lisbia […] tenham paciência que não será este o único fracasso que hão-de ter”.

SANTA CASA DA MISERICÓRDIA

Extractos da informação do administrador de 25/01/1911:
“Esta corporação enferma como todas as deste concelho do mal commum – o devorismo”.
(…) E que diremos do facto do thesoureiro do hospital António José Rodrigues Basto, um mercador de pannos que só tem uma casa de habitação na praça Barjona de Freitas, desta villa, tão modesta que nem ao menos quintal adjacente a ella possue, ser elevado a fornecedor de legumes”.
Sobre o ordenado de 200,000 reis ao médico Dr. Arnaldo primeiramente e agora Dr. Diocleciano: “diminuto trabalho que ao médico é exigido permite semelhante sinecura”.
[…] … o devedor Faustino Pereira Cammello deu como hypoteca um prédio que não vale o dinheiro que recebeu de usura e offereceu como fiador José da Silva Mendes, seu genro, um simples empregado subalterno na conservatória desta comarca”.
E remata: “Não admira. Para amigos mãos rotas, embora com o dinheiro sagrado dos pobres enfermos!”.


FALECIMENTOS

Luís de Mello Sampaio

No lugar de S. João, freguesia de Refojos, faleceu o Sr. Luís António d’Abreu Bacelar de Melo Sampaio, descendente de uma das mais ilustres famílias de província do Minho. Homem de carácter honesto e leal, foi director do semanário progressista “O Povo de Cabeceiras”, recentemente extinto. Era pai de Alfredo de Abreu, Brígida da Conceição e Maria Amélia de Mello.

António José Leite

No Arco faleceu o industrial Sr. António José Leite, possuidor de uma fortuna relativamente avultada para o nosso meio. A chave do fénetro foi conduzida pelo juiz da comarca, Dr. Júlio Machado.

Belmiro de Moura Basto

Faleceu no Porto este conceituado comerciante, primo do Sr. Álvaro de Moura Teixeira, da Ponte de Pé.

PESSOAS

O nosso patrício Reinaldo Nogueira Polónia partiu para Cabo Verde, alistado na Guarda Republicana.
O Dr. Albino Pacheco viu indeferido pelo Ministro do Interior o seu processo de reclamação contra a Câmara Municipal que o demitira, em 1907, do lugar de médico do Instituto de Gondarém.
Para uma pequena estada entre nós, chegara de Paris o nosso conterrâneo Serafim Pereira Alvim de Mello.
O Sr. Domingos José de Magalhãse Basto anunciou que despedira de sua casa – sem explicar as razões – o seu empregado Marcos Olímpio Esteves.

Por: Francisco Vitor Magalhães

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