Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 11-04-2011

SECÇÃO: Opinião

Da caça às rolas, à caça à multa …

Vi um dia correr sangue em Cabeceiras de Basto!... Sangue ao vivo, a brotar em fios do rosto de um motorista de carreira pública, que em dia de feira se viu acossado em pleno serviço por incontida diarreia intestinal, de feijoada mal digerida… Assim, à rasca, abandonou o veículo em plena estrada e refugiou-se de calças na mão no matagal, perante e estupefacção dos passageiros! Pudera!...
Mas, azar dos azares! Aconteceu que, minutos depois, no preciso momento em que o desafortunado condutor retomava a posição vertical e se recompunha nos seus trajes, eis que um caçador fortuito, postado em cima de um penedo, o confunde naquele preciso movimento ascendente, com o esvoaçar de uma rola e lhe desfere, à distância, uma chumbada certeira! … Puum!...
A notícia correu célere e foi motivo de alarido jocoso por toda a região! Por sua vez, o incauto caçador remoeu remorsos e desfez-se em desculpas, à vítima e à justiça, como se desse modo minimizasse o sofrimento e os danos causados à vítima; felizmente, sem consequências mais graves.
Vem esta história, por demais verídica, a propósito de uma cena recentemente vivida na minha pessoa, que viria a ficar-me cara, não tanto pelo pecúlio desembolsado, mais pela revolta e inconformismo que me gerou. Vejamos:
Ia eu no meu destino, ao volante de um automóvel, ali para os lados do Penedo da Palha, quando de súbito sou encandeado por um “pôr de sol” traiçoeiro que me rouba por instantes a visibilidade e me obriga a debruçar sobre o “tablier” e, por instinto, a puxar a pala do sol, não fosse o diabo tecê-las!...
E não é que teceu mesmo?!
Ainda mal refeito do encandeamento, alguns metros à frente, deparo-me com uma figura hirta, braço estendido na vertical, rosto carregado, olhar sisudo, colete reflector… sem raquete ou nada mais que o identificasse: Deve ser a GNR, pensei. Reduzi a velocidade e, tranquilamente, parei.
Seguiram-se os procedimentos de circunstância e de rotina, vistoria feita, tudo bem, até que, julgando-me pronto para prosseguir, surge aquela pergunta maligna, venenosa, tão traiçoeira quanto o sol …
- “O senhor condutor tem algum impedimento que o iniba de usar o cinto?
Surpreso, respondi pronto, em tom seco, quase em monossílabo: - Não!
-” Não, senhor guarda, porquê?
Após uma ligeira hesitação e com ar de quem quer, mas não consegue estar convicto, veio a resposta, tão seca quanto a pergunta, apontando com o dedo ao longe:
- “Porque o senhor vinha sem cinto e só o colocou ali atrás, quando me avistou. Vou multá-lo”, disse, virando-me as costas a caminho do jipe, como que antevendo a minha reacção.
Por instantes senti uma explosão interna que me varreu as veias, mas procurei reagir com a serenidade de quem não deve e com o merecido respeito pela autoridade, Não deixei, contudo, de contrapor a suspeição com a verdade e a razão: - O senhor guarda está enganado”.
Ai, o que eu disse! Qual engano, qual quê?! A partir desse momento, cada palavra, cada frase, era recebida com a indiferença e o desdém de quem já tem a decisão tomada!
Em resumo: Pratos na balança - a farda pesou mais - lavrou-se o auto e … Puum! Aí vai chumbo!
Cento e vinte euros!
Durante os largos minutos de espera pela elaboração do auto, fui magicando sobre os passos seguintes, conformado com a ideia de poder reclamar, recorrer, impugnar… Mas depressa me apercebi do trama e de que estava envolvido! Reclamar, que adiantaria? Ali, sozinho, sem testemunhas e sem outros dados de prova que abonassem a meu favor!... Era a minha palavra contra a do agente!... Que fazer?
A impugnação e o recurso à justiça nestas condições, a esta justiça que nos sufoca todos os dias, é como embrenharmo-nos numa selva! Multiplicam-se os custos, os custos, em advogados, cauções, deslocações, audições, horas infindas de corredores, adiamentos, anos de espera! …Enfim, pensei: O melhor e mais barato, é pagar…
Paguei, pois então! Mas cá no fundo, guardo comigo uma vingançazinha, uma insignificante recordação! Não lhe assinei o auto!... Como poderia eu, pobre inocente, legitimar com a minha assinatura tamanha injustiça baseada num tremendo equívoco, numa suspeição ou num juízo errado?

Esta cena trouxe-me à memória uma outra, passada há já largos anos, ia eu a caminho de Madrid, assistir a um Real “duelo” com o glorioso FCP, quando, com outros portugueses, fomos “apanhados” numa operação “stop” por dois agentes da “guardia civil” que, pouco desportivamente - refira-se - mandavam parar tudo quanto fosse “azul e branco” sob a alegação de que, “todos los portuguesitos” circulam com excesso de velocidade!...
Uma maldade! Pura suspeição!
Alguns mais vividos nestas andanças, conhecedores do método (…) despejaram sem pudor e sem escrúpulos dinheiro naquelas mãos corruptas e sem mais, partiram… Outros, como eu, contestamos teimosamente e “Não pagamos!”. Nem me sobravam pesetas e não tinha excedido os limites!... Fui parar à esquadra... Perdi o jogo no Barnabéu mas ganhei uma causa. Fui ilibado pelo chefe! … Mais, tive ainda o prazer de assistir ao vivo a um grande “puxão de orelhas” , dado pelo chefe ao “guardilha” que me quis multar sem razão, desautorizado em público e voz sonante: - “Hombre… sin pruebas, nada!
Pois, claro! É mesmo assim! Na dúvida, sem elementos de prova, objectivos, concretos, evidentes, não se pune nem se multa ninguém! Já o diziam os romanos, esse povo sábio, cujas leis estão na base de direito jurídico das sociedades ocidentais: “In dúbio, pró reo”. Quanto mais, por alguma razão se inventaram os radares, os alcoolímetros, as balanças, as fitas métricas e outros instrumentos, que para mais não servem que não seja para medir, fazer ver, fazer prova.
Infelizmente, em Cabeceiras de Basto nem sempre é assim.
Aqui, abundam situações em que a razão se cola à farda e as provas se fazem “a olho”, ao sabor da prepotência de certos agentes que se exercitam como recrutas na “arte” da “caça à multa”.
Não surpreende, pois, que em murmúrio, por aqui se oiçam ecos de indignação e revolta contra alguns “poucos” agentes cá do burgo, ao que parece, mais ciosos em mostrar serviço do que em zelar pelos direitos dos cidadãos…Não falta até quem já os aconselhe a ir “estagiar” para os lados de Fafe, onde a justiça costuma ter outras “nuances”…
Assim, caro leitor, se conduz, precate-se! “Quieto, firme, não mexa, não respire”, pois ao mais pequeno gesto ou movimento, sujeita-se a levar uma “chumbada” que lhe inflaciona a crise e lhe destrói o orçamento! …Até a alma!...


G. Jotel

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