Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 21-03-2011

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…

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CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

ATAQUE AOS “GAMELLISTAS”
A imprensa republicana da terra ganhou força e desencadeou um vigoroso ataque contra os monárquicos regeneradores do concelho, acusando-os a todos de “gamellistas” que agora se viam “acossados pela fome, instigados pelo pavor duma miséria irremediável, tremelicantos de medo (que) ousam ainda erguer as cabeças e em arreganhos amalandrados pretendem (…) inocular o vício de uma peçonha naquelles outros que em nome da honra e da honestidade tiveram de lhes levantar a mangedoura”.
O “gamello” tinha sido, em primeiro lugar, o Instituto de Gondarém, dotado da fortuna do benemérito Gomes da Cunha, o Município, a Misericórdia, o Hospital, as Associações, as Confrarias…Fala-se em desfalques, ordenados principescos, desvios de dinheiro, gastos sumptuários, despesas não documentadas. As sindicâncias estavam a chegar, iriam apurar todas as manigâncias e esperava-se que “à penitenciária e à África irão parar alguns da quadrilha”.
Mas os “gamellistas” arvoravam a sua inocência, pediam que fossem apresentadas provas cabais das tropelias denunciadas e, por seu turno, insinuavam abusos da nova administração, demissões arbitrárias, tomadas de posição de autoritarismo e afronto à santa religião que o povo do concelho abraçava.
“O Democrata” contrapunha que os “gamellistas” pretendiam difamar e desacreditar os republicanos do concelho, tentando muito especialmente “beliscar a honra de alguém que aqui ocupa um alto logar político, e que pelo seu proceder honesto e digno e pelo seu carácter impolluto se não presta a encobrir desmandos e maroteiras”, ou seja, o Dr. Florêncio Lobo.
A campanha veio mas o senhor administrador, segundo o “Democrata”, saiu incólume: “Essa campanha, contudo, não honra senão este magistrado, austero, probo e intelligente, porque ella parte de muito baixo para o offender e representa a luta do vício contra a virtude e do crime contra a honestidade”.

PREVÊEM-SE ELEIÇÕES
Fala-se que o governo pretende realizar eleições, numa tentativa para legitimar o golpe de 5 de Outubro. Muitos republicanos não concordam, dizendo que ainda não houve tempo para inculcar no povo um espírito republicano. Se no sul a República foi recebida de uma forma ordeira, no Norte, certas medidas contra os sacerdotes – que o povo entendia serem contra a religião – são contestadas. Os republicanos de Cabeceiras entendem que o povo não está ainda preparado para eleições e que “os velhos e impenitentes caciques, que a República inexplicavelmente deixou à solta” estavam já a proceder “à montagem da máquina eleiçoeira”.

Para prevenir, o “Democrata” revela que o padre Domingos “tinha ido a várias freguesias dar ordens aos seus logares tenentes, para firmemente se manterem nos seus postos”. E que já “iracundo e não fecundo ameaçava a terra, o mar e o mundo!”. Mas os republicanos não tinham medo: “Eleições! Eleições! Podem gritar à vontade, que nas eleições não haverá sovelas a picar e caceteiros a esmagar os eleitores. Se contam com isso, se ainda têm de reserva o arsenal de sovelas, varapaus e carabinas que serviram para roubar a eleição de Fafe, podem inutilizar tudo”.

OS VELHOS REPUBLICANOS DE CABECEIRAS
“O Democrata” já não podia mais com as insinuações que “O Jornal de Cabeceiras” continuamente lançava sobre o desprezo a que tinham sido votados aqueles que no tempo da monarquia se diziam abertamente republicanos. Assim contrapõe ao “pasquim” que “há dias vem pintado de republicano” o nome de 4 “republicanos” que diz não saber que eram republicanos.
São eles o Dr. Diocleciano, que é acusado de ter sido o lugar tenente do Dr. Francisco Botelho, chefe do partido regenerador; o Dr. Franklim Ernesto de Oliveira Vaz, “sempre um soldado firme do partido regenerador, defendendo tenazmente os devoristas d’este concelho”, dono de “uma pharmacia” (que era) o centro de reunião dos gamellistas”. O outro visado é o farmacêutico Maia: “um dos gamellistas que mais comia. Petulante soldado, combatente do partido regenerador, que presidiu à última e escandaloza roubalheira da assembleia de S. Nicolau”; e, finalmente, o Dr. Francisco CanavarroValladares, “amigo íntimo do farmacêutico Maia”, chefe do partido progressista de Ribeira de Pena, que afirmava “ser monarchico por temperamento, por educação e por família” e que não queria ouvir falar na corja dos republicanos.

A DEMISSÃO DO FARMACÊUTICO MAIA
O ataque ao farmacêutico do Instituto de Gondarém começou a dar frutos. A administração do município levou a sério as acusações que o semanário republicano transmitiu, a última das quais era de que o farmacêutico Maia tinha ido passar uma semana ao Porto, tendo deixado no seu lugar um garotito. A câmara suspendeu o Sr. Maia e intimou-o a comprovar as alegações que tinha feito na sua defesa. Finalmente foi demitido. O “Democrata” aplaudiu: “Já são contemplações de mais! O lugar de pharmacêutico do Instituto, que é bem remunerado, não pode ser desempenhado por quem não cumpre o seu dever”.

DR. ARNALDO PEREIRA LEITE
Tocou agora a vez ao Dr. Arnaldo. O assunto dos “ferros cirúrgicos do Instituto de Gondarém” vieram à baila e o doutor defendeu-se em duas cartas que publicou no “Democrata”, alegando que, quando tomou posse em 14 de Agosto de 1907 do cargo de médico do Instituto, não encontrou nem um simples bisturi. Gastou somente 300,000 reis e que os ferros que não estavam no Instituto no momento da visita do administrador, estavam na sua Casa da Rapozeira e outros em casa de doentes onde eram necessários e que para isso estava devidamente autorizado. O semanário republicano estranhou esta autorização, atendendo a que a morada oficial do Dr. não era na Rapozeira e lembrou uma diferençazinha de 46,590 reis nas despesas. Nova carta do Dr. Arnaldo justificando que esta verba se referia a despesas de conservação dos ferros cirúrgicos durante 3 anos e com a sua deslocação ao Porto para os adquirir.
Veremos o que vai dar este caso.

O CRIME DE PEDRAÇA
Realizou-se finalmente o julgamento deste crime de que resultou a morte de Francisco Ribeiro, de Pedraça. Eram acusados Bernardo Durães e Ernesto da Mota, da mesma povoação. Presidiu o juiz da comarca, Dr. Júlio Machado e a acusação esteve a cargo do delegado Dr. José Osório. O júri foi constituído por 10 cidadãos. A defesa esteve a cargo dos advogados Camilo Henriques e Canavarro Valladares. O Ernesto foi condenado a 23 meses de pena maior celular e o Bernardo a 2 anos de prisão correcional. A este propósito escreveu o “Democrata”: “Dizia-se que perniciosas influências se moviam para que o culpado, o verdadeiro criminoso, fosse absolvido, e garantia-se que tal se daria; e assim teria acontecido se o júri não fosse composto de homens de bem, e outro fosse o homem que ocupava o nobilíssimo lugar de agente do Ministério Público”.

ASSASSINATO
Nos subúrbios da Vila da Ponte (Montalegre) foi assassinado a tiro, covarde e traiçoeiramente, José Maria da Silva Medeiros, solteiro, filho de Lino Medeiros, de Cambezes. O criminoso era um guarda da Companhia de Tabacos da Coluna de Ruivães. A vítima, que era o presidente da comissão paroquial de Riodouro, vinha de Espanha com outros companheiros. Era um rapaz muito conhecido e estimado, possuía excelentes qualidades.

DESORDEM EM OUTEIRO
Dois ferimentos na cabeça e uma bala numa perna foi a paga de Francisco Pires, de Outeiro, por se ter envolvido numa grave desordem. Era desconhecido o autor da agressão.

GRANDE INCÊNDIO
Um grande incêndio destruiu completamente a casa de D. Marcelina de Jesus, na Cachada.

FÓRA COM ELLE!
A vítima agora é “o escrevente informador, um tal Fernandes, cidadão brazileiro, com largo cadastro no regime criminal, homem conhecidíssimo pelas suas proezas (…) em serviço na repartição da fazenda”. Sugeria-se ao escrivão de fazenda que o puzesse a andar. E, como este não o fez, o delegado do tesouro do distrito intimou-o a suspendê-lo. E, uns dias depois, António Fernandes Bastos, que até de um homicídio era acusado, foi demitido.

A FEIRA DOS TRINTA
A comissão administrativa transferiu a feira que no dia 30 de cada mês se realizava no lugar de Pereiras (Refojos) para o Arco de Baulhe. A deliberação camarária afirmava que era uma “feira de insignificante importância, attentas as péssimas condições do local em que se realizava, situado fora do centro de todo o movimento comercial”. De qualquer modo a Comissão estava estudando dar compensações a “justos lesados”.
O “Democrata” aplaude assim a decisão da Câmara. Logicamente “O Jornal de Cabeceiras” contesta, “considerando-a muito gravosa e pouco democrática”. Conta que um vogal da comissão paroquial de Refojos quis apresentar um protesto. “Dando-o a saber foi-lhe sugerido que o não fizesse, pois seria contra a vontade duma altíssima personagem”. Para colaborar foi-lhe sugerido que pedisse uma dispensa por 90 dias. Fê-lo.

CENTRO REPUBLICANO
No dia 26 de Janeiro procedeu-se à inauguração do Centro Republicano de Cabeceiras, tendo-se procedido de imediato à eleição da comissão, numa concorrida sessão a que presidiu Baltazar Martins Portela. A única lista foi eleita por aclamação. Ficou a presidir à mesma o Dr. Florêncio Lobo. Inscreveram-se de seguida como associados muitos cidadãos.

DELIBERAÇÕES CAMARÁRIAS
A comissão administrativa ia decidindo. Assim determinou a reparação dos telhados dos Paços do Concelho e da Cadeia.; pediu ao governo o prolongamento da linha férrea do Tâmega e dotação para a estrada do Arco a Fermil; demitiu os zeladores municipais de Painzela, Arosa e Samão; proibiu que se prendessem animais à volta da Praça e prorrogou o prazo para que todos aqueles que se apropriaram de terrenos baldios se apresentassem na administração.

PESSOAS
Dona Estefânia Medeiros Pereira tomou posse do lugar de professora da Escola de Lameiros. A senhora em causa era legalmente diplomada e já tinha vários anos de serviço.
Em Chacim tinha falecido o Sr. José Martins Vilela, pai do Padre Vilela, pároco de Refojos. Foi sepultado em Pedraça. Era um abastado proprietário, natural da Casa das Quintans.
O Dr. Diocleciano foi intimado pela administração a mudar a sua residência para o Arco, sede do partido médico de que era titular, sob pena de ser julgado demissionário. O semanário republicano acusou-o de que pretendia furtar-se ao cumprimento da deliberação por meio de um “truc”. Diz-se que andava furioso.
Em Braga falecera, de morte súbita, o Sr. Francisco José Leite Borges, da Casa da Quinta, do Arco de Baulhe. Era um importante capitalista. O Arco ficou-lhe a dever a construção da capela de Nª Srª dos Remédios, para além duma avultada dotação para despesas de culto.
Francisco Pereira Camelo tinha sido promovido a escrivão de fazenda de 1ª classe e fora colocado em Vila Verde.
Recebeu carta de recomendação para a paróquia de Santa Senhorinha o padre Bernardino José de Lemos.

Por: Francisco Vitor Magalhães

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