Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 21-03-2011

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (136)

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DE FIO DENTAL

Ele há frases que, em boa verdade, me repugnam. E, repugnam-me tanto mais quanto a categoria, ou o estatuto social, real ou aparente, daqueles que as pronunciam.
Até ao dia de hoje, aquela que menos gostei de ouvir foi proferida pelo Senhor Dr. Durão Barroso, no rescaldo, ou nas vésperas, já não me recordo bem, das eleições legislativas de 17 de Março de 2002. A propósito da “fuga” (uma frase igualmente de muito mau gosto) e do estado em que fora deixado o país pela governação do Eng. António Guterres, o Dr. Durão Barroso veio a público proferir, com enorme despudor: «o país está de tanga!».
Foi o mesmo Senhor Dr. Durão Barroso que mediou o vergonhoso encontro das Lajes entre os Senhores Bush, Blair e Aznar, e que conduziu ao desastre iraquiano. Como prémio, (quem sabe?), o Dr. Durão Barroso acabou por ser chamado para dirigir um dos três mais importantes órgãos da União Europeia, a Comissão, cargo que, de certo modo e apesar de tudo, nos deverá orgulhar.
Nada, contudo, que se assemelhe aos casos José Mourinho, ou Cristiano Ronaldo. Estes sim, pese embora o facto de haver quem os critique pelas elevadíssimas somas que auferem, estes, sem qualquer sombra de dúvida, têm indiscutível mérito.
No que respeita à governação do país, parece que a repetição do cenário de Março de 2002 está para muito breve. Os “Deolinda” e os “Homens da Luta” deram o mote, o Presidente da República, no seu discurso de tomada de posse, arremessou a primeira pedrada, o Governo ripostou, usando da catapulta, ao anunciar as medidas do quarto PEC sem dar cavaco a quem quer que fosse, o líder da oposição, embora sem grande vontade de “ir ao pote” (a frase é sua, dele), diz que não apoiará mais medidas de austeridade.
Por último, foi a manifestação nacional da geração dita à rasca, levada a cabo na tarde de sábado, por todo o país, mas com particulares enchentes nas cidades de Lisboa e Porto. Cumprirá realçar, sem margem para qualquer tipo de dúvidas, o elevado grau de civismo com que estas manifestações decorreram em todo o país. Não houve montras partidas, ou carros incendiados, como muito recentemente se observara em manifestações de semelhante sentido, em países que passam pelo mesmo tipo de dificuldades que Portugal atravessa, por exemplo, o que se vira na Grécia.
Esta geração, embora se diga à rasca, não é, de modo algum, uma geração rasca. Parabéns pela lição cívica que deram a Portugal, à Europa e ao Mundo.
No fim de tudo isto, que é que resta ao Eng. José Sócrates se não seguir o exemplo do Eng. António Guterres nos idos anos de 2002?
Pelo que se ouve nas ruas, nos cafés, nos adros das igrejas e um pouco por todo o lado, não há quase ninguém que não diga que o país está mal. Eu concordo plenamente. O país parece estar mesmo muito mal. O curioso é que, já há dez anos diziam exactamente a mesma coisa! Será que daqui a outros dez anos, e quando um outro governo estiver prestes a abandonar o barco, o país ainda continuará muito mal?
Andando para a retaguarda, já há vinte anos se dizia que o país estava mal. E há trinta anos também estava mal. Quem sabe se daqui a trinta continuará a estar mal?
Tenho pena de não ter acesso àqueles papéis muito amarrotados e amarelecidos pelo tempo, penso que alguns serão mesmo do período em que ele fora ministro das finanças, que o Dr. Medina Carreira tanto gosta de exibir nas conversas do plano inclinado da SIC sob a orientação do Senhor Mário Crespo.
O Dr. Medina Carreira não se cansa de dizer, e nisso eu concordo plenamente com ele, que o nosso principal problema reside em comprarmos no exterior muito daquilo que consumimos e poderíamos muito bem produzir internamente, isto por um lado, e pelo outro não termos capacidade de produzir algo que pudesse ser exportado para contrabalançar as importações.
Parecem verdades de “Monsieur de La Palice”, mas são realidades. De facto, nós, com o solo e o clima que temos, damo-nos ao desplante de importar mais de oitenta por cento dos produtos de origem agrícola que consumimos!
Com o mar que temos, damo-nos ao desplante de importar a maior parte do peixe que consumimos, importações que vêm de todo o lado, desde o vizinha Espanha até ao Chile, lá na costa oeste da América do Sul!
Em contrapartida, podemos observar os nossos campos, lameiros e prados votados ao abandono total. A extensa costa marítima quase deserta de barcos de pesca. E tudo em simultâneo com centenas de milhar de homens e mulheres, perfeitamente válidos, sem fazer coisa alguma e a viver de subsídios de desemprego, ou do rendimento social de inserção.
Muita coisa anda mal nesta parte mais ocidental da Europa. Mas, há culpados! Lembram-se, certamente, que em determinada altura, andou por aí alguém a distribuir subsídios para todos aqueles que arrancassem as vinhas, deitassem abaixo os olivais e abatessem os barcos da nossa frota de pesca. Não se lembram? Olhem que tudo isso foi levado a cabo em tempos em que a governação estava a cargo de quem hoje despacha bitates a condenar todo este estado de coisas!
Eu espero, muito sinceramente, que no dia em que Passos Coelho comemorar a sua vitória, penso bem que será uma vitória relativa, e que, como é natural, se verá tentado a proferir frase de significado semelhante à que proferira Durão Barroso em 2002, use termos mais intimistas, mais finos, mais femininos, no final de contas, mais magros. Por exemplo, onde Durão Barroso disse: “O país está de tanga!?”, Passos Coelho diga: “O país está de fio dental!?”
Quanto à coligação, espero que o Dr. Paulo Portas reocupe o Ministério da Defesa Nacional, e que a sua primeira proposta, em Conselho de Ministros, seja a alienação, a venda imediata, daqueles dois submarinos de que tanto se tem falado.

Escrito a 14 de Março de 2011

Por: José Costa Oliveira

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