Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 28-02-2011

SECÇÃO: Opinião

O LADO MARGINAL DO FADO 1ª parte

foto
O fado nasceu um dia… onde e quando ninguém sabe?...
Crê-se supostamente que as suas origens são africanas, outros sustentam a teoria que as suas raízes são brasileiras. Em qualquer dos casos não me parece que haja alguma conotação dado que os ritmos da música africana e brasileira em nada são semelhantes ao nostálgico fado tradicional português.
Diz-se que seu pai era um enjeitado que até andou embarcado nas caravelas do Gama. É certo que Vasco da Gama antes de chegar à Índia passava pelo continente africano, assim como Pedro Álvares Cabral em 1500 chegou a terras de Vera Cruz – Brasil. Só por isso é que eventualmente poderá haver alguma consistência nas origens que lhe são atribuídas.
Se os marinheiros quinhentistas estando tristes cantavam já na época dos descobrimentos a bordo das caravelas, faz sentido a linha melódica do fado que nos fala de medos, solidão, tristeza e nostalgia porque certamente era esse o seu sentir ao enfrentar medonhas tempestades, mil e um tormentos em mares nunca dantes navegados buscando a expansão em novos mundos e dilatar a Fé Cristã.
Os musicólogos nas suas pesquisas parece não terem encontrado respostas para estas questões. Porém, é certo e sabido que o fado primitivo começou por ser cantado nos becos, ruas e ruelas nos bairros pobres de Lisboa, Alfama, Mouraria e Madragos, subindo depois ao Bairro Alto e a outros bairros da grande metrópole alfacinha.
É então a partir daí, que surge “ O Lado Marginal do Fado” que era um mal andrajado e sujo, mais magro que um cão galgo, que não conheceu os pais nem tem certidão de idade, que era mais gingão que um marujo nos velhos becos d’Alfama. Era um ébrio, era um vadio que aparecia na moirana a horas mortas e ao abrir as meias portas ele era o rei das estúrdias. De chapéu às três pancadas e cachoné ao pescoço o fado volta e meia punha o bairro em alvoroço.
Era cantado a horas mortas em locais de má fama, taberna, casas de tia e ruas bizarras. Mal batiam as trindades no largo de Sto. Estêvão junto ao adro da Igreja houve em tempos guitarradas, era aí que a fadistagem se reunia e o fado acontecia até altas horas da madrugada. Não havia regras nem apresentações era uma espécie de escola para iniciados. Naquela vida agitada ele que veio do nada, não sendo nada era tudo. Dizia que era fidalgo por andar com a fidalguia, foi às esperas de gado, foi cavaleiro afamado, foi toureiro foi forcado e deu brado nas fileiras.
José Malhos retratou o fado no seu mais famoso quadro. Um Zé de samarra com a amante a seu lado com os dedos agarra percorre a guitarra e ali vê-se o fado.
No último século o fado dito desordeiro foi-se afastando dos seus redutos e aos poucos foi-se instalando nas casas típicas de fado onde o mesmo já era cantado com regras cívicas e escutado em silêncio como mandava a tradição. Os fadistas já cobravam o seu cachê e ouvi-los cantar já saia caro devido ao consumo mínimo obrigatório que girava à volta de umas sangrias e uns petiscos.
Entre outras destacamos a Adega Mesquita, a Adega Machado, O Parreirinha d’Alfama, O Café Luso, O Friagem, O Quebra Bilhas, O Solar da Hermínia, O Faia, O João do Grão e Irmãos Unidos.
Foi por essa altura que a jovem Maria Severa se tornou famosa como cantadeira de fados e também porque um fidalgo boémio o Conde de Vimioso por capricho ou presunção a tomou como sua amante durante dois anos. Morreu num sombrio beco da Mouraria aos 32 anos de idade por ter contraído tuberculose.
Depois da Severa outras talentosas fadistas surgiram como, Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, Teresa Tarouca, Hermínia Silva, Argentina Santos, Amélia Canoça, Maria da Nazaré, Anita Guerreiro, Deolinda Rodrigues e a diva do fado que levou a canção a canção nacional aos quatro cantos do mundo Amália Rodrigues.
Do lado masculino, deu-se precisamente a mesma coisa surgiu um grupo de talentosos artistas que cantavam o fado de forma primorosa.
Estamos a falar de, Carlos Ramos, Manuel de Almeida, Alfredo Marceneiro, Filipe Pinto, Frutuoso França, Fernando Maurício, Joaquim Campos, Alcino Carvalho, Fernando Farinha, Tristão da Silva, Vicente da Câmara e obviamente o grande Carlos do Carmo.
Esta geração de fadistas tiveram como guitarrista o grande Artur Paredes a quem todos chamavam carinhosamente de Armandinho que era o pai daquele que foi o maior executante da guitarra clássica portuguesa Carlos Paredes.
Estávamos em pleno Estado Novo, Salazar que não gostava de fado porque o achava subversivo mandou publicar uma portaria que determinava que o fado quando cantado em público as suas letras tinham que passar pelo lápis azul, isto é; tinham que ser censuradas..

(Continua)

Por: Alexandre Teixeira

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.