Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 28-02-2011

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…

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CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

O SENHOR ADMINISTRADOR CONFESSA-SE…
Um artigo publicado no “Intransigente”, diário lisboeta fundado em 12 de Novembro de 1910 e dirigido por Machado Santos, indefectível e radical republicano (o único que ficou conhecido como “herói da república”), órgão oficioso da Carbonária, dirigido à administração do nosso concelho, pôs o administrador em polvorosa e obrigou-o a responder numa carta dirigida ao director daquele diário republicano, o que nos permite obter alguns traços da biografia do nosso administrador e presidente da comissão administrativa concelhia. Eis alguns dos trechos mais significativos da indignada epístola escrita por “um escriba de má índole e de mão baixa, arvorado em correspondente do seu (…) jornal nesta localidade, apertado pela lazeira ou vendido por dois patacos aos falcatrueiros desta terra”. Afirma: “A administração só tem trabalhado para livrar este concelho d’uma horda de bandidos que a tinham assaltado”. Sobre si próprio: “Eu sou dos poucos, dos pouquíssimos homens do meu concelho, que na minha curta e apagada vida política não consentiram que o seu nome servisse de capa a falcatruas e ratonices”. Confessa: “Certo é que pertencia aqui ao partido então chamado progressista: (…) pertenci e n’elle militei. Mas necessário se torna que se saiba, que a esse partido pertenciam então aquelles homens que aqui foram sempre acérrimos e intrépidos combatentes d’aquelles que vergonhosamente espoliavam este pobre povo e roubavam os haveres d’este malfadado município (…). Foi a este pequeno grupo que eu pertenci (de) que me desliguei há 6 anos para há 4 me filiar no partido republicano”.
Afirma ter tentado fundar em Cabeceiras de Basto um Centro Republicano, tendo-se a sua intenção quebrado “de encontro às fictícias dificuldades creadas ou inventadas por indivíduos republicanos desde os bancos da escola” (no dizer do escriba). Afastou-se então da política activa do concelho. Lembra que, proclamada a República, tinha sido aventada a figura do Dr. Diocleciano para administrador e presidente da comissão administrativa, mas terá lembrado ao governador civil que o mesmo era clínico municipal e, legalmente, não poderia acumular, para além de ser “um republicano de velha data “soi disant” mas que sempre (…) votara monárquico (…) e aqui era e foi sempre uma das boas colunas de sustentáculo da infamíssima política do cacicão-mor Francisco Botelho, chefe de quadrilha e comandante dos meliantes da traquibérnia política d’aqhui”. Lembrava ainda que tinha dado conhecimento ao governador civil de “irregularidades no cumprimento das suas obrigações e disfrutando sinecuras”.
E assim o Dr. Diocleciano passou a “persona non grata”.

NOTA BIOGRÁFICA

A imprensa cabeceirense da época (Jornal de Cabeceiras, O Povo de Cabeceiras e o Democrata) não me forneceu ainda quaisquer elementos sobre a biografia de Florêncio Leite Pereira de Sousa Lobo, o primeiro administrador do concelho após a Implantação da República. Para além do nome e da sua qualidade de “quartanista de Direito da Universidade de Coimbra” nada temos. O texto acima é interessante, por ser da pena do administrador, mas só nos traça o seu trajecto de militância política.
Por casualidade e quando procurávamos elementos sobre outro assunto, encontramos informações sobre a Casa de Portela, em Canedo e surgiu-nos então o nome do Dr. Florêncio. Temos assim que nasceu a 12 de Fevereiro de 1882, filho único de Bernardo Teixeira de Souza Lobo e de D. Virgínia da Graça Leite Pereira da Silva. Senhora da Quinta da Ribeira em Vila Nune. O pai era descendente da designada Casa da Portela que, entretanto, já estava ligada por laços familiares à Casa de Olela e Casa de Mozes, ambas de Santa Senhorinha, Casa de Carrazedo e Casal de Ranhados, este em Refojos. Tinha somente um ano de idade quando ficou órfão de pai, falecido com apenas 22 anos de idade, tendo sua mãe voltado a casar com Francisco Teixeira de Sousa Lobo, irmão do falecido e assim tio do futuro administrador, de cujo matrimónio ainda nasceram mais cinco raparigas e um rapaz.
Florêncio formou-se em Direito na Universidade de Coimbra, tornou-se senhor da Casa de Olela e casou com D. Gracia Correa Leite de Almada, filha legitimada do 2º Conde da Azenha (Guimarães) e ela proprietária da célebre Casa do Arco, também em Guimarães.

UM AVISO À ADMINISTRAÇÃO

“O Democrata” não deixa a administração descansar. E proclama em letras gordas:
Que faz a Comissão Municipal?
Que justiça é esta?
Que sono mortal a atacou?
E lembra vários casos em alento: Assim, na inspecção que a Câmara tinha feito ao Instituto de Gondarém descobriram “uns ferros velhos cirúrgicos” que poderiam valer quando muito cem mil reis. Mas esta era a quantia que o Dr. Arnaldo Pereira Leite recebia anualmente para compra de “ferros cirúrgicos”.
Também recordava que nada valera a adoamestação dada ao farmacêutico Maia já que o mesmo continuava a deixar a farmácia do Instituto ao abandono, entregue a uma criança e ainda fazia galhofa das orientações que lhe eram dadas.

UM CAMBARISTA EM EIRÓ
“O Democrata” publicava uma carta dum habitante de Eiró que, com outros habitantes do lugar remetera um abaixo assinado pedindo o arranjo do caminho público que levava à igreja e ao cemitério da freguesia. O cambarista (como ele se dizia) considerou o caminho particular. A carta terminava: “Bom tirocínio para cavador”.

UMA CHAMADA DE ATENÇÃO
“O Democrata” chamava agora a atenção do povo de que “uma parte do clero d’este concelho não se cansa de abusar da ignorância e ingenuidade do povo, amesquinhando e alterando o sentido das leis da República”. Revela que um desses padres teria gritado do altar, à hora da missa: “O registo civil não é um sacramento”.

UMA CARTA DO PROF. DIOGO ROSA MACHADO

De Lisboa, datada de 29 de Dezembro, o professor Diogo Rosa Machado, (que leccionara no Instituto de Gondarém e no Lyceu de Cabeceiras), mandou uma missiva ao “Democrata”, mostrando a sua satisfação pela publicação do novo semanário, pedindo aos cidadãos cabeceirences para abrirem os olhos. O professor, a quem “O Democrata” classifica de “ilustre professor, carácter honestíssimo e cerebração robustíssima” diz ser “tempo de abrirdes os olhos, de despertardes do profundo lethargo em que jazesteis durante a monarchia”. Termina com a apóstrofe “Que vergonha para o caciquismo cabeceirense” por políticos monárquicos cabeceirenses terem ido a Lisboa oferecer ao governo provisório os seus serviços eleitorais e aderir à República.
Curiosamente…ou não… o Dr. Diogo apresentara na Câmara um requerimento pedindo o pagamento de vencimentos em dívida do Lyceu Municipal. A administração mandou estudar o caso.

SANTA CASA DA MISERICÓRDIA

Devido à “escandaloza administração do hospital” o governador civil dissolveu a Mesa da Santa Casa e nomeou uma comissão presidida por Álvaro Herculano Ferreira de Mello e Andrade, que passava a ser assim o novo provedor. Como vice foi nomeado o Dr. Bernardino Pereira Leite e para fiscal António Leite. Para mordomos foram escolhidos Manuel Alves Pereira, Eugénio Machado Camelo, Francisco de Moura Coutinho Ferreira Pinto e José Teixeira Leite.
O Jornal de Cabeceiras, num comentário, regista que tendo a Misericórdia cerca de 200 irmãos, dos 7 novos dirigentes só 3 eram associados. Lamentava que o governador civil tenha sido mal informado. No entanto, afirma que “os novos dirigentes são pessoas estimáveis, cidadãos presentes, não há dúvida; mas, à excepção de dois nomes, todos eles vêm de ricochete disparados pelo antigo bacamarte do extinto partido progressista local, à frente dos quais foi colocado o ex-chefe desse partido, o Dr. Álvaro de Mello”.

RECORTE

Funcionários…históricos

“Nós já tínhamos um juiz de paz substituto que por signal foi nomeado recentemente para o districto mais importante da comarca, que não sabe lêr nem escrever; mas agora, segundo nos informam, aparece manjar mais delicado e saboroso para todos os paladares. Ora edifiquem-se os nossos leitores com a escrupulosa selecção dos funcionários do regimen em Cabeceiras: Foi nomeado recentemente para exercer o cargo de regedor effectivo da freguesia de Abbadim, um tal Adelino Gonçalves, de Porto d’Olho, processado no juízo de direito desta comarca por um crime grave e que é cidadão de menor idade.
(…) Entre um funcionário judicial absolutamente inapto e analfabeto e um funcionário administrativo, criminoso afiançado e de menor idade, não sabemos qual das nomeações foi mais acertada e justa…”

(Jornal de Cabeceiras, de 29/01/1911)

PESSOAS

João Falcão

Este vereador está sob o olhar atento do semanário republicano. Agora dele se diz: “Aspira a ser o cacique; o povo já o recebe mostrando-lhe o forro do casaco; que é um grande admirador do cacique Botelho, a quem deseja imitar; e tudo isto porque lhe foi prometido um chorudo lugar”.

Filipe Machado

“Enojado, saturado de intrujices e enganos, retirou deste concelho o Sr. Fillipe Augusto Machado. Durante a sua longa carreira política, serviu com dedicação o partido regenerador, o partido dos gamellistas. Nunca em proveito próprio se serviu do dinheiro dos cofres públicos. Foi o antigo administrador fiscal do Instituto de Gondarém, com o ordenado de 800,000 reis, dos quais uma grande parte ia parar aos bolsos de dois amigos (…). Viu-se neste momento de adversidade completamente abandonado por elles (…) que o quizeram sujar também”. (O Democrata)
Na velhice deixou tudo e emigrou para África.

NOVOS JUÍZES DE PAZ

Nomeados os seguintes juízes de paz:
Cavez – Manuel Teixeira de Andrade;
Arco – Júlio de Oliveira;
Refojos – Arnaldo de Barros;
S. Nicolau – Bernardo de Moura.

FISCAL DAS CÔNGRUAS

O vice-presidente da Comissão Administrativa Dr. José César de Vasconcellos foi nomeado vereador-fiscal dos côngruas.

RECTIFICAÇÃO

O apelido do tesoureiro referido na notícia sobre "Desfalque na Câmara" após a implantação da República é Pacheco e não Passos, como vem referido.

Por: Francisco Vitor Magalhães

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