Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 28-02-2011

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (135)

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O ACORDO ORTOGRÁFICO

Os noticiários televisivos sobre os recentes acontecimentos ocorridos no Egipto, que conduziram à renúncia do seu presidente, o Marechal Osni Mubarak (Osni Mubarak é Marechal da Força Aérea Egípcia desde 1974), trouxeram à vista de todos o modo subserviente, dedicado, direi mesmo “pedagógico”, como a nossa RTP sempre nos vem servindo.
Antigamente, até há bem pouco tempo atrás, aquela sigla significava Rádio-Televisão Portuguesa. Agora, significa Rádio e Televisão de Portugal. Parece que a mesma empresa passara a agregar todos os canais da televisão pública e todas as antenas de rádio, igualmente públicas.
Enquanto que o JN e a SIC, por exemplo, continuam a escrever Egipto com “p” e a CNN e a Aljazeera escrevem Egypt ou Egipt com “p”, a nossa RTP já escreve, desde o início do ano, Egito sem “p”.
Confesso, soa-me francamente mal. Tenho o maior respeito por todos os países de expressão oficial portuguesa, desde o Brasil até Timor-Leste. É para mim motivo de grande orgulho, e sinto-me enormemente confortado, sempre que chego a um país estrangeiro, ou a antigas possessões, como Goa ou Macau, e deparo com pessoas que me acolhem falando a minha própria língua. Mas, que diabo, daí até aceitar um conjunto de atropelos, tudo no sentido de a desvalorizar, naquilo que ela tem de mais precioso, que é a sua etimologia, não me parece que isso favoreça o que quer que seja.
Em minha opinião, a riqueza da nossa língua, quando falada e escrita por todo o conjunto de países e colónias (estas entendidas como grupos de pessoas que vivem em determinadas áreas do mundo) está, exactamente, na diversidade dos sons, e dos vocábulos, que cada país e cada grupo pronuncia e utiliza.
Então, aquele grupo de iluminados que propôs, redigiu e aprovou o actual acordo ortográfico, deveria debruçar-se e propôr também que em Portugal passasse a falar-se com o sotaque brasileiro, por exemplo. É que há um significativo conjunto de palavras que, obedecendo à mesmíssima grafia, significando a mesmíssima coisa, soam de modo totalmente diferente quando pronunciadas por um português, nascido e instruído em Portugal, ou por um brasileiro, nascido e instruído no Brasil. É ou não é verdade?
Dirão alguns: e porque é que antigamente se escrevia pharmácia com “ph” e agora já não se escreve? Não sei. O que sei é que a palavra, na sua forma actual, deriva do grego “pharmakeia”, terá sofrido uma evolução fonética como quase todas as outras do nosso vocabulário, umas vindas do grego, outras do latim, outras do árabe e de todo um conjunto de neologismos das mais diversas origens. Nunca, penso eu, de qualquer acordo ortográfico, fosse ele com os gregos antigos, com os romanos, ou quaisquer outros povos que terão passado pela Península Ibérica.
A propósito: alguma vez terão os ingleses celebrado algum acordo ortográfico com os governos dos países de expressão oficial inglesa saídos das suas antigas possessões? Penso bem que não. Os americanos dos Estados Unidos da América falam e pronunciam um inglês bem diferente do inglês de Inglaterra.
Há mesmo uma designação internacionalmente aceite de inglês americano, e relato de que o intercâmbio entre o inglês britânico e o inglês americano acaba por enriquecer o primeiro, aliás, relato afirmando que reciprocamente se enriquecem os dois idiomas.
Sobre o inglês americano, seleccionei a seguinte trecho: “abrange as variedades faladas no Canadá e nos Estados Unidos. Em 1940, distinguiam-se três grandes dialectos: o setentrional, localizado na Nova Inglaterra e no estado de Nova Iorque, cujo expoente mais conhecido é o nova-iorquino. O dialecto midlandês, falado ao longo da costa de New Jersey a Delaware, e o dialecto sulista, falado de Delaware até à Carolina do Sul. Alguns linguistas acreditam que o inglês negro é uma língua e não uma variedade de dialecto, devido ao facto de, em todas as regiões onde é falado, apresentar a mesma fonética, sintaxe e léxico. De qualquer forma, o intercâmbio com o inglês americano enriquece o britânico e vice-versa”.
Mais uma vez, parafraseando Medina Carreira, muito embora não concorde em absoluto com as suas teses, apenas por as achar exageradas em alguns aspectos, direi que anda por aí muita gente, (“gentalha” diz ele), que apenas pretende mostrar serviço a qualquer preço. Veja-se o que se tem passado com os programas, ao longo das últimas três décadas, de disciplinas como o português e a matemática.
No que respeita a matemática, recordo, com grande saudade, os compêndios de álgebra e geometria de Palma Fernandes… Mas, quanto a português, e é o que agora mais vem ao caso, onde antes havia sujeito, predicado e complementos, que toda a gente entendia, passou a haver sintagmas disto e sintagmas daquilo. Curioso, a palavra sintagma nem sequer aparece em alguns dos dicionários.
E em termos de classificação das palavras quanto à sua acentuação? Eu aprendi que se classificavam consoante tivessem a tónica na última, na penúltima, ou na antepenúltima sílaba como agudas, graves ou esdrúxulas. Agora não. Agora, são oxítonas, paroxítonas, ou proparoxítonas. Tudo muito mais fácil. Neste particular, tenho, de facto, muita pena dos pobres dos alunos, e, porque não? também dos professores, dos tempos que correm.
De facto, sempre com “c” atrás do “t”, bem fazem os “Deolinda” em proclamar bem alto, “que parvos que somos…”.
Daqui lanço um apelo a todos quantos lêem estas minhas crónicas: boicotem o acordo ortográfico, não liguem népia, escrevam como sempre escreveram com pês, com cês, acrescentem até mais letras se lhes apetecer, e mandem o acordo para o cemitério onde já deveriam estar todos os seus mentores. Pela minha parte, darei o exemplo. Não ligarei nenhuma, e continuarei a escrever Egipto com “p”, e baptismo com “p”, e facto com “c”, sempre que não me refira ao meu fato, o azul-marinho, aquele que costumo vestir sempre que vou à madrinha. E muitas outras formas de insubordinação. Eu vou passar a ser um insubordinado. Um esdrúxulo, mas nunca um proparoxítono. Eu não serei, nunca, um proparoxítono.

PS: Ir ao pote. Confesso que não conhecia a versão Passos Coelho. Eu conhecia a outra, aquela que se diz, ter-se vontade de fazer, quando alguém nos incomoda em demasia. Essa, porém, eu não ousaria proferi-la perante o olhar cândido de Judite de Sousa.

Por: José Costa Oliveira

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