Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 17-01-2011

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…

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CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

“O DEMOCRATA”
Em 22 de Dezembro saiu à luz do dia o 1º número do semanário intitulado “O Democrata”, que se declara como “Órgão do Partido Republicano de Cabeceiras de Basto”. Apresenta-se como propriedade de Manuel Alves Pereira e tem como director Eugénio M. Camello. Figura como editor o Sr. Domingos José de Magalhães. A administração e redacção estão sedeadas na Rua Jeronymo Pacheco, onde também está instalada a tipografia que o imprime. Os assinantes do continente e de África pagarão 1,500 réis de assinatura anual, enquanto para o Brasil o custo é de 3,000 réis em moeda forte. O número avulso é de 40 réis. Já cada linha de publicidade vai aos 30 reis. Cada número tem 4 páginas, com 4 colunas cada. A última página é dedicada à publicidade no seu todo e durante a sua vida (curta como havemos de ver) os anúncios principais são do grande Hotel Cabeceirense, na Praça Barjona de Freitas, propriedade de José Bernardo de Moura, a Pharmacia Maia, de Arnaldo Miranda de Barros, no Secco, a Relojoaria de José da Silva Ribeiro Ministro, da Ponte de Pé, a Sapataria de Domingos Rebello Cavallaria, na Rua Jeronymo Pacheco e a Padaria da Boavista, de António Joaquim Gonçalves.
Mas a peça principal deste número inaugural é o Editorial, intitulado “O Nosso Caminho”, de que destacamos: “Democratas e patriotas por educação e pelo nosso modo de sentir, não fomos buscar o título d’este modesto mas sincero jornal ao acaso, mas pelo contrário foi escolhido como a expressão exacta dos nossos sentimentos. O nosso programa será a defesa dos nossos ideais e da Pátria. […] Gostamos da discussão e n’ella com prazer nos lançaremos; […] mas porque nos repugnam ataques a individualidades, simplesmente por ódio ou inimizade pessoal, nunca o faremos, como nunca tocaremos na vida privada de quem quer que seja”.
Bonitas intenções, não há dúvida, mas de boas intenções e más digestões está o inferno cheio. Vê-se logo no artigo seguinte intitulado “Nós e Elles” que termina assim: “Moralistas e Gamellistas – Nós e Elles”.

REACÇÃO DO “JORNAL DE CABECEIRAS”

O Jornal de Cabeceiras não reagiu ao aparecimento do novo semanário. Nem mesmo, e como era de praxe, registou a sua aparição com palavras de circunstância. Deixou passar por alto algumas opiniões do novo adversário e, se as rebatia, não fazia alusões à sua origem. Já em Março de 1911 não se veio a conter e declarou:
“A Gazeta… (refere-se ao semanário O Povo de Cabeceiras) foi adquirida propositadamente com o único fim de defender os interesses dos antigos e esfarrapados elementos do partido progressista-franquista local. Mudou apenas de nome e de dono, ou antes, adquiriu nova máscara com que tenta engodar os poucos incautos que ainda lhe não descobriram os antigos e repugnantes vícios.
Essa Gazeta é, como não podia deixar de ser, o órgão porta-voz do administrador do concelho, por quem foi criada à sua imagem e semelhança. Ouvir o administrador, ou ler a Gazeta, é uma e a mesma coisa, um perfeito phonographo”.

AINDA OS REPUBLICANOS DE CABECEIRAS

A publicação pelo Jornal de Cabeceiras da lista dos cabeceirenses que se apresentavam abertamente como republicanos, deu origem a várias reacções. Uma delas foi expressa numa carta do mesmo leitor que tinha solicitado ao jornal aquela lista e que diz: “Pois se a lista dos taes nomes exprime realmente a verdade (…) foram preteridos por indivíduos que foram sempre considerados como franquistas, reaccionários e predealistas, isto é, os inimigos mais encarniçados da Democracia. Como é que, logo que a Monarchia foi deposta, apareceu para ahi um abbade de Painzela, Pina de nome, a cantar péssimas loas em honra dos chamados heroes da Revolução?
[…] Pois eu entendo que Pinas são os actuaes comissionados da vereação, na sua quase totalidade; Pinas são os da comissão paroquial, à excepção de 2; e Pinas devem por ahi existir aos centos”.
O “Democrata” não leva a sério esta lista e diz textualmente que “é uma lista de nomes de indivíduos regeneradores, intercalando entre elles, três ou quatro nomes de cidadãos republicanos”.
Não se percebe muito bem se só havia 3 ou 4 republicanos em Cabeceiras, mas se havia muitos estavam bem escondidos. Assim o administrador logo presidia a uma vereação monárquica na sua quase totalidade. O trabalho que o Jornal de Cabeceiras tinha tido para descobrir 11 republicanos que…afinal…não o eram, com excepção de 3 ou 4 que não sabemos quem são. E, mais tarde, haveremos de ver que o Dr. Diocleciano, republicano de gema, vai ser intitulado de “republicano velho” e João Falcão de Magalhães, um ponta de lança monárquico na vereação municipal.

ESTÁTUA DE UM CACIQUE MONÁRQUICO

“No alto do pedestal e dentro de um grande gamello, levanta-se orgulhoso e estupidamente imponente, um homem de côroa aberta na cabeça, de bigode refilão e de faixa à cinta, empunhando um grande cacete na mão direita e deixando cair da boca, quasi desdentada, e por entre as unhas da mão esquerda que está roendo, uma espessa baba, repugnante como a dos répteis. A sua phisionomia, de cor térrea e já encarquilhada, não exprime senão o vício e o crime. O seu olhar contrasta por completo com o seu porte orgulhoso, pois é mortiço e desvairado como o das meretrizes já gastas”.
Para que o leitor não tivesse dúvidas na identificação da personagem da estátua, o escultor adorna-a com vários quadros na base da escultura, sendo o 1º um mapa do concelho de Montalegre.
Á bon entendeur, il suffit…

A VINGANÇA DE TEOTÓNIO FALCÃO

Teotónio Falcão Ribeiro era um profissional honesto e zeloso no cumprimento dos seus deveres como amanuense da Câmara. Exercia também as funções de solicitador (profissão livre) no seu escritório da Ponte de Pé. Nos últimos dias tinha sido designado agente duma Companhia de Seguros. O seu nome apareceu, logo a seguir à proclamação da República como editor do Jornal de Cabeceiras, por uma só vez. (Não foi explicada nem a razão da sua nomeação nem do desaparecimento do seu nome). Era o secretário de todas as associações culturais e de beneficência da Vila.
Era um trabalhador nato. A Comissão Administrativa entendeu que era preciso o lugar dele para “anichar nelle outro pretendente, um adventício com uma empenhoca”. E Teotónio Falcão foi demitido.
…Mas umas semanas mais tarde, a Comissão Administrativa convidou o Governador Civil para uma visita oficial. Queria a vila toda engalanada para uma recepção de arromba. E mandou pedir emprestado o material que era usado nas famosas festas do São João da Ponte de Pé. Mas esqueceram-se que Teotónio era um dos mandantes. E este fez o manguito à Exmª Comissão com a declaração expressa de que procedia assim”única e exclusivamente (pelo) meu ressentimento pela perseguição injusta e merecida com que tinha sido mimoseado por alguns desses mesmos republicanos, e nada mais”.

DESCANSO SEMANAL

A “classe comercial do concelho” remeteu ao Ministério do Interior uma exposição, lembrando a existência na Vila de “um immemorial mercado semanal ao domingo” pelo que se pedia que os estabelecimentos da vila não fossem obrigados a fechar aos domingos, como a nova lei determinava, “dias em que, neste concelho, se movimentam mais os negócios, com grande proveito para as forças vivas do município”.

ÚLTIMA FEIRA DO ANO

A última feira do ano foi muito concorrida. Caiu no dia de Natal, o que trouxe à vila muita gente das redondezas. Os preços praticados (medidas de 20 litros – entre parênteses o preço da última feira do ano anterior):
Milho branco: 660 réis (650); milho amarelo: 640 (630); centeio: 680 (640); painço: 1.000 (800); feijão branco: 1.200 (igual); feijão mistura: 960 (igual); feijão amarelo: 1.100 (igual); feijão frade: 900 (igual); batata: 300 (360).
Verifica-se assim uma subida substancial no preço do painço e uma descida sensível na batata. Os preços do feijão foram absolutamente iguais e a subida no milho foi de 10 reis e de 40 no centeio. Vê-se assim que a República não influenciou para já os preços.

OCORRÊNCIA TRÁGICA

Faleceu o Sr. Francisco de Matos Villela Passos, proposto da recebedoria.

ASSALTO E HOMEM MORTO EM OUTEIRO

Na noite de 18 de Dezembro larápios assaltaram a casa de António de Oliveira, no lugar do Esqueiro, roubando algumas ovelhas. No entanto o dono da casa e os vizinhos pressentiram o assalto e correram atrás dos larápios. Entre os perseguidores seguia Lourenço Gonçalves, solteiro, lavrador, de 20 e tantos anos, do mesmo lugar do Esqueiro, que num montado foi acometido - como se verificou pela autopsia – de uma congestão cerebral que o matou em poucas horas. No dia seguinte foram presos e confessaram o crime três homens: um de Cancela, um de Baloutas e outro de Ervideiro.

JUNTAS REPARTIDORAS

O governo provisório decretara que a escolha dos 12 membros das juntas repartidoras passavam a ser da competência do delegado do governo. Os eleitos elegeriam dentro de si o Presidente e o vice.

JUÍZ SUBSTITUTO DA COMARCA

O Sr. José Leite Saldanha de Castro foi nomeado substituto do juiz de direito da comarca, “cargo que já tinha exercido com reconhecida isenção e competência no antigo regime”. Oriundo da Casa do Santo (Fafe), era senhor da Casa do Casal de S. Nicolau. Dirigiu o Partido Nacionalista no nosso concelho nos últimos anos da Monarquia.

CASAMENTOS

Gonçallo de Mello, filho mais novo do Sr. Álvaro Herculano de Mello e Andrade, da Casa da Villa (Refojos) consorciou-se com D. Adelaide Vaz de Moura Coutinho, da Casa do Esqueiro (Outeiro), filha do Sr. Francisco de Moura Coutinho Ferreira Pinto. A cerimónia foi celebrada na Igreja Paroquial de Outeiro.

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Na capela de Santo Amaro de Chacim celebraram o sacramento do Matrimónio o Sr. Joaquim Barroso dos Santos, “muito estimado nesta vila” e D. Palmira Gomes de Paula Bastos, filha do Sr. Serafim Gomes de Paula Bastos, de Chacim, “abastado proprietário”.

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O Sr. José Queiroz, natural de Braga, antigo administrador do nosso concelho, consorciara-se em Vila Verde com D. Honorina de Araújo, distinta dama daquela vila.

ASYLO DA PONTE DE PÉ

Lembrava aos seus benfeitores que se estava no Natal e pedia-se um donativo para melhoria das refeições dos utentes do Asylo naqueles dias festivos.

NOVO ESTABELECIMENTO COMERCIAL

José António Pires, proprietário da chapelaria “A Primorosa”, na Ponte de Pé, anunciava ter “aberto junto à chapelaria uma tinturaria, com produtos de 1ª qualidade importados duma das principais casas da especialidade do estrangeiro” e trabalhava “pelos mais aperfeiçoados systemas”.

Por: Francisco Vitor Magalhães

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