Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 17-01-2011

SECÇÃO: Recordar é viver

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ADRIANO PEREIRA MADANÇOS
Abri de novo o baú das recordações…

Há dias chegaram às minhas mãos umas fotografias muito antigas, emprestadas pela Graça, filha da falecida Alda Carvalho, da Raposeira. Ela disse-me que se as quisesse digitalizar poderiam ser-me úteis no futuro para algum artigo. Essas fotos continham imagens muito, mas mesmo, muito antigas tanto que numa ou noutra eu, ainda nem era nascida.
Num aparte tenho que aqui dizer que acho interessante as pessoas abordarem-me com retratos de família ou de acontecimentos antigos por sentirem que me são necessários para utilizar nesta minha nova actividade ou hobby que é a escrita. E de facto é verdade. Para mim e para as pessoas que lêem as minhas crónicas ou mesmo as de outros colaboradores do Jornal, as fotografias são fundamentais porque são testemunhos importantes e vão dar de certa maneira credibilidade à história. Lá diz o ditado “ uma imagem vale por mil palavras”. Já vos disse por diversas vezes que não sou historiadora, com grande pena minha, mas vou escrevendo as histórias pela minha memória ou através daquelas pessoas que mas transmitem e, principalmente escrevo apaixonadamente com o “coração na boca”. Isso acontece muito quando conheço ou conheci de perto os personagens das minhas lembranças. Por esse motivo, hoje vou falar do senhor Adriano Pereira Madanços, do lugar de Madanços, morador numa grande casa de pedra, junto ao rio onde durante a nossa juventude íamos lavar e corar a roupa, e que tantas recordações me traz.
A sua filha Teresa Madanços, antiga funcionária da cantina do Ciclo Preparatório
A sua filha Teresa Madanços, antiga funcionária da cantina do Ciclo Preparatório
Como ia a dizer no princípio desta crónica, quando a Graça me emprestou as fotos, digitalizei-as e juntei-as ao meu arquivo pessoal para que logo que oportuno elas me fossem úteis. E, assim foi. Até tinha outras coisas na cabeça para este jornal mas, ao mexer num papéis vi o envelope que continha os retratos e definitivamente resolvi escrever alguma coisa sobre o senhor Adriano de Madanços, que eu conheci em menina tendo ele já uma certa idade e com a doença já a afligi-lo, nos ia contando algumas coisas da sua vida. Ele sentava-se num banco de pedra improvisado no lugar da Máquina, que fica perto do lugar da Raposeira e os garotos ouviam-no encantados falar algumas palavras em francês.
O Sr. Adriano, a sua filha Ana, a Srª Deolinda Tecedeira e o casal amigo, Rosa e Bernardino de Reiros, que são de Alvite e residem em França
O Sr. Adriano, a sua filha Ana, a Srª Deolinda Tecedeira e o casal amigo, Rosa e Bernardino de Reiros, que são de Alvite e residem em França
Antes de continuar devo dizer que sempre pensei que ele tinha estado na Primeira Guerra Mundial em França. Mas, não! Ele atravessou outras guerras. Para tirar estas dúvidas, ontem fui conversar com as suas filhas, a Ana e a Laurinda, para me esclarecer. Há muitos anos que não entrava naquela casa. Conversei bastante com a Ana e a Laurinda sobre os seus pais e outros familiares. Até tomei um chá de cidreira apanhada fresca do quintal. E enquanto bebi o chá ia anotando no meu caderninho, que anda sempre comigo na carteira. Com mais estes dados vou escrever um pouco sobre o senhor Adriano e a sua família.
Adriano Pereira Madanços nasceu no lugar da Touça, da freguesia de Painzela, em 1904. Era filho de Ana de Jesus Pereira Madanços e de pai incógnito, como está escrito no papel. A verdade era outra. Pelos vistos, segundo contam o senhor Adriano era filho do Dr. Augusto de Pielas, dono da Casa de Pielas que era pai da D. Milena que foi casada com o senhor Fleming. Adriano Madanços era um filho bastardo, irmão da D. Milena. A mãe dele estava a servir na Casa de Pielas. Era muito comum acontecer estes casos onde os patrões ou os seus filhos engravidavam as criadas. Por esse motivo, esses filhos nunca eram, ou muito raramente, reconhecidos nas heranças e não tinham qualquer direito ao nome. Muitas das vezes essas crianças eram abandonadas na “roda” e eram baptizadas com o nome de “Exposto”. O que não foi o caso do senhor Adriano. Devo dizer que eu sempre estranhei haver tantas pessoas com o nome de “Expostos” em Refojos. Comecei a reparar nisso quando li os avisos das missas das almas. Só mais tarde é que me explicaram.
A família completa de Adriano Pereira Madanços
A família completa de Adriano Pereira Madanços
A família da mãe do Adriano Pereira Madanços tinham a profissão de carpinteiros e o Adriano seguiu o mesmo modo de vida. Tornou-se carpinteiro e marceneiro por conta de outras pessoas. Assim continuou até à idade de casar. Casou com Deolinda Nogueira, oriunda da Quinta de Outeiro e filha de agricultores.
A sua esposa Deolinda Nogueira (tecedeira) ao cancelo do quintal
A sua esposa Deolinda Nogueira (tecedeira) ao cancelo do quintal
Eles casaram mas, a vida era muito dura, os filhos começaram a nascer e ele e mais alguns companheiros resolveram tentar a sorte em França. Já tinha nessa altura a Teresa e o Francisco (marido da Alda Revolta, ambos já falecidos). Ele foi lá para a “estranja” muito antes do grande êxodo da emigração dos anos cinquenta em que o meu pai também foi. As coisas não correram bem por lá e regressou a Portugal a pé e como calhou segundo contam as filhas, atravessando a Espanha ele e outros, cheios de fome, mal vestidos enfim nas piores condições que se possa imaginar. Atravessaram a Espanha em plena Guerra Civil. Imaginem os horrores dele e dos seus companheiros de infortúnio que só encontravam cadáveres nas valetas por onde passavam. Eu, faço uma pequeníssima ideia. Segundo ouço falar os entendidos foi uma guerra sangrenta.
A sua filha Maria Pereira que vive em Lisboa
A sua filha Maria Pereira que vive em Lisboa
Conseguiu a muito custo chegar a Tui, onde se encontravam uns familiares, seus tios, mal vestido e sob nutrido que até impressionava. Lá trataram dele e cá chegou a Portugal. Retomou a sua vida ao lado da família e voltou àquilo que ele sabia fazer. Ser carpinteiro e marceneiro. E, por alguns trabalhos que eu vi na sua casa, era um artista. Continuou a viver em Madanços, junto ao Rio. A casa era da sua mãe D. Ana e quando casou viveu com ela e ficou na casa. Depois de vir de França nasceram-lhe mais quatro filhos; além do Francisco e da Teresa nasceram a Ana, o Adriano, a Maria e a mais nova a Laurinda. Dos seis filhos, três ficaram por Cabeceiras e os restantes foram para Lisboa. Além dos pais, o seu filho Francisco Pereira Madanços também já faleceu, infelizmente.
A mulher do senhor Adriano, a D. Deolinda ajudava o marido na criação dos filhos com o tear que a sua mãe D. Leonor de Outeiro lhe deu quando casou. Segundo me contaram as filhas esta D. Leonor, avó destas raparigas tinha um tear próprio em casa mas como não sabia tecer tinha uma tecedeira tipo jornaleira , que vinha a casa para tecer as mantas e os linhos depois tranformadas em toalhas de mão, lençóis, almofadas e pano para fazer as camisas dos homens. Foi assim que a senhora Deolinda aprendeu o ofício. Nas horas de maior calor os agricultores não iam para os campos e faziam uma sesta a meio da tarde porque o calor apertava muito e era impossível andar nos campos. No verão as lavouras eram começadas quase de madrugada com a fresquinha e sachava-se o milho ou outras culturas mais pela tardinha. Por isso, a senhora Deolinda aproveitava essas horas de descanso e ia para junto da jornaleira do tear, foi assim que aprendeu a arte. Eu conheci-a muito bem e via-a muitas vezes a tecer. Acho que teceu mais ou menos até aos setenta anos. A senhora Deolinda nasceu em 1908. Era mais nova quatro anos do que o seu marido Adriano. Morreu com a bonita idade de noventa e dois anos.
Como atrás referi, o senhor Adriano trabalhou mais ou menos até aos cinquenta e nove anos porque traiçoeiramente a doença bateu-lhe à porta nessa idade. Salvo erro foi dos pulmões e travou essa luta com ela até aos sessenta e dois anos, idade do seu falecimento.
O Francisco, com os seus pais Adriano e Deolinda, os seus irmãos Maria, Adriano e Laurinda
O Francisco, com os seus pais Adriano e Deolinda, os seus irmãos Maria, Adriano e Laurinda
Morreu novo! Gostava de ouvir as suas histórias e ao mesmo tempo as palavras em francês que dizia como por exemplo “merci beaucoup”, “madame” e “mademoiselle” e outras.
Pela idade de nascimento do senhor Adriano e da sua mulher vejam quantas coisas aconteceram no mundo. Apanhou desde pequenino o “espernear” dos monárquicos de Cabeceiras que não aceitavam a nova República, em 1918 as aparições de Fátima, o Holocausto, a mais horrível guerra protagonizada pelo “monstro Hitler”, epidemias, etc.
Educaram bem os filhos! São pessoas honestas, francas e possuidores de uma grande educação
Devo dizer que esta família também faz parte das minhas vivências. Espero que alguns de vós, os mais velhos e que lêem este jornal possam reconhecer algum rosto nestas fotos cedidas gentilmente pela família. Peço desculpa aos familiares se porventura me excedi nalgum pormenor que não esteja correcto. Para melhor vos lembrares desta gente vou dizer que eram conhecidos pelos “cara alta”.
fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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