Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-12-2010

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (133)

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NÃO TENHO PALAVRAS

Sinto-me, deveras, extremamente revoltado e não consigo articular palavras capazes de exprimir, conveniente-mente, a minha revolta.
Este deverá ser, sem grande margem para dúvidas, o meu mais curto texto de todos quantos, ao longo dos últimos anos, tenho vindo a dar, aqui, à estampa. Tudo porque não tenho palavras. Pese embora o facto de me confrontar com um enor-míssimo turbilhão de ideias acerca de um conjunto de temas, polémicos sem qualquer dúvida, que vêm alimentando os noticiários dos últimos dias, não tenho palavras que me permitam dar expressão escrita ao meu raciocínio.
Não tenho palavras que me permitam exprimir a minha revolta quanto à forma como está a ser definido o salário mínimo nacional para o ano de 2011.
Não tenho palavras que me permitam exprimir a minha indignação quanto à “cartolada” do presidente do governo regional (tudo com letra pequena) dos Açores, quando se propôs compensar os funcionários públicos regionais, pelas perdas de vencimentos devidas às reduções, que deveriam ser gerais, daqueles que auferem entre mil e quinhentos e dois mil Euros. É o chefe do governo regional dos Açores a seguir, no que ele tem de pior, o seu congénere da Madeira.
Não tenho palavras que me permitam exprimir a minha repulsa por todo o coro de sindicalistas, encabeçados pelo sindicato dos magistrados do Ministério Público a ameaçar com impugnações judiciais as já decretadas reduções dos seus vencimentos.
Antes de continuar, realce-se que estamos em presença de boa gente, tudo patriotas de primeiro grau, a começar no presidente do governo regional (com letra pequena) dos Açores e a terminar na nata do funcionalismo público português (com letra pequena também), os magistrados…
Ainda antes de prosseguir, e tentar exprimir duas ou três notas sobre o primeiro tema desta curtíssima crónica, que é a vergonhosa, a miserável, a inadmissível saída quanto à calendarização dos aumentos do salário mínimo nacional para o corrente ano, devo referir que não me julgo ignorante de todo quanto à matéria e tenho bem presente que, de todo o conjunto de beneficiários do mesmo, os mais modestos trabalhadores por conta de outrem, há um bom número deles que, no que tange ao respeito pelo trabalho, deixa muito a desejar.
Há muitos, cruzo-me com eles todos os dias, que até se esforçam por conseguir um posto de trabalho. Na ânsia de o conseguir até fazem juras de extrema dedicação e zelo absoluto. Mas, logo que apanham o lugar, a primeira coisa com que se preocupam é com os direitos. “Quais são os meus direitos?” perguntam sem grande compasso de espera. Fala-vos quem tem conhecimento de causa.
Ora, para estes, não deveria haver qualquer aumento, nem de vinte e cinco, nem de dez, nem de nada. Estes deveriam criar a sua própria empresa e depois questionarem-se a si próprios sobre os seus direitos.
Adiante, que, contraria-mente ao que disse um pouco acima, já estou a alongar-me.
O modo como está a ser definido o aumento do salário mínimo nacional para o ano de 2011 é uma grande vergonha. É verdade que estamos em crise. Mas, quem é que se lembra de alguma vez não termos estado em crise? Desde que me conheço, sempre tenho ouvido dizer que estamos em crise. Da história que estudei, não consegui vislumbrar qualquer período em que não tenha havido crise, pelo menos desde a crise de 1385.
Com crise, ou sem crise, vinte e cinco Euros são vinte e cinco Euros. E, em face de tudo o que se tem visto e ouvido, fica a impressão de que, tanto os políticos como os empresários acabam de dar uma péssima imagem daquilo que, tanto uns, como os outros, são, ou deveriam ser. Os empresários que alegam não poder pagar salários de quinhentos Euros mensais não deveriam, de todo, existir. Estes, sem grande margem para qualquer tipo de dúvidas, seriam daqueles que, na condição de trabalhadores por conta de outrem, a primeira coisa com que se preocupariam seria com os seus direitos.
No que toca aos políticos, nota altamente negativa. Onde pára o carisma e a determinação do chefe do governo? O Primeiro-Ministro deveria ter imposto a sua já conhecida determinação e honrar, ao menos, esta pequeníssima parte dos compromissos assumi-dos. Aqui, quanto a este ponto, que deixasse vir atrás de si a contestação.
No que respeita às atitudes assumidas pelo chefe do governo regional dos Açores, deplorável. No contexto nacional, o funcionário público que ganha acima dos mil e quinhentos Euros não pode considerar-se que esteja a ser mal remunerado. Todos, os beneficiários daquela medida extraordinária, estão, em termos remuneratórios, bastante acima da média. Compensá-los pela redução? E os outros, mesmo os residentes no arquipélago, que ganham menos de mil e quinhentos Euros? Uma grande parte deles, imagino, que pouco mais ganharão do que o mal fadado salário mínimo nacional!
Os magistrados? Queriam melhor exemplo do que tem sido e irá continuar a ser a administração de justiça (aqui o termo administração significa a prática da aplicação da dita). Se alguém, um simples e desconhecido cidadão como eu, questionar um qualquer representante dos magistrados sobre esta sua postura, ele responder-lhe-á, muito naturalmente, que eles tratam dos seus próprios problemas e que cada um trate dos dele… Tudo como em qualquer sentença, tudo como em qualquer despacho judicial, tudo como costuma acontecer na justiça.
(Tenha paciência amigo leitor, eu sei que os magistrados não são quem aplica a justiça…, mas…, pertencem ao sector…).
Muito humildemente, fico sem saber se consegui transmitir alguma mensa-gem. Muito humildemente, repito: “Não tenho palavras”.

Por: José Costa Oliveira

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