Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 06-12-2010

SECÇÃO: Opinião

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FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE… CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919
VAI COMEÇANDO A DEGOLA

A nova comissão administrativa municipal do concelho, encabeçada pelo nóvel republicano Florêncio Leite Pereira de Sousa Lobo, mas preenchida de nomes de monárquicos ligados ao extinto partido progressista local, começou a sua acção de limpeza…ou de “degola”, termo usado pela reacção. Um empregado da Câmara foi a primeira vítima: “entendeu a ilustre comissão republicana – franquista – progressista de Cabeceiras de Basto, que estavam salvas as batatas do município” pela aplicação de uma “illegalíssima e arbitrária demissão de um empregado”. É de registar, no entanto, o veemente protesto que o Dr. João Falcão de Magalhães, exarou em acta. Mas, “apezar de tudo a iniquidade cometeu-se e o arguido empregado administrativo foi abusivamente demitido”.
Os antigos empregados da secretaria da Câmara começaram a ser vítimas duma “perseguição acintosa” e por esta altura fervilhavam os processos disciplinares, as inquirições, as sindicâncias, os inquéritos.
O dedo da administração estava também na origem da demissão do secretário e do tesoureiro da Comissão Paroquial de Refojos, que substituíra a extinta Junta de Paróquia.
Tudo isto se devia a “Catões de moeda avariada, cuja autoridade moral é sufficientemente problemática (que) permitem-se o direito de praticar as mais revoltantes iniquidades e violentas perseguições”.

O ATESTADO DO DR. FRANCISCO BOTELHO

O Dr. Francisco Botelho, da Casa de Mourigo de S. Nicolau, ex-governador civil, necessitou de um atestado da edilidade para poder concorrer a um importante lugar na capital. Requereu-o à comissão administrativa local. Esta torceu-se toda, mas lá entendeu por bem passar-lhe um “attestado de regular comportamento moral e civil”. Quando os tramas deste atestado foram conhecidos, levantou-se “o mais justo sentimento de indignação em todas as pessoas de bem”, já que o Dr. Botelho “foi dos raros homens políticos que soube sempre conjugar os seus deveres de probidade (…) com os deveres da sua vida pública e da sua vida particular”.
Os nomes dos “ilustres Catões, arvorados em juízes incompetentes e iníquos de honra e dignidade alheios”, que assinaram aquele atestado, foram dados a conhecer ao público: à frente o do senhor administrador; entre outros o de Manuel Pereira Baptista Bastos, vizinho de S. Nicolau.
O diário “A Pátria”, do Porto, republicano, aplaudiu o texto do atestado, mas o Jornal de Cabeceiras lembrou-lhe que “as qualidades morais e civis dos actuais membros da comissão municipal de Cabeceiras, que se arvoraram em juízes, alguns deles com cadastros avantajados no registo criminal da comarca, e todos sahidos dos partidos prediais e franquistas”.
(Nota: Os progressistas eram chamados de “predeais”, dado o seu chefe José Luciano de Castro ter presidido ao Crédito Predeal quando este deu um estouro do arco-da-velha).

A NOVA BANDEIRA PORTUGUESA

A escolha da nova bandeira nacional foi um tema muito badalado no início da acção do novo governo provisório. Surgiram opções de todos os lados. Os jornais abriram as suas colunas a quem desejasse expor a sua opinião. Fizeram-se elaborados estudos com toda a história das bandeiras desde as primeiras de que havia conhecimento. Guerra Junqueiro, um dos vultos intelectuais mais conhecidos e venerados do país, estudou a história das bandeiras portuguesas, a simbologia das suas cores, o significado dos seus símbolos. Este estudo foi publicado em alguns números do Jornal de Cabeceiras do fim do ano de 1910, de que nos permitimos este recorte:
“O pendão de 31 de Janeiro iluminou-se, como o da Rotunda, de vermelho e verde. O ódio à monarchia, à força sinistra do constitucionalismo, depoz o azul e branco. Inteiramente? Não. Ao proclamar-se a República das varandas da Casa do Município, ladeavam o estandarte vermelho e verde duas bandeiras azuis e brancas. Este detalhe, na aparência casual, mostra a diferença do espírito, revolucionário em duas épocas. A animadversão profunda contra o existente não chegara ainda, nem por sombras, ao furioso rancor exasperado e alucinado, à raiva sem tréguas, ao ódio sem termo, à cólera em brasa, à paixão implacável, inexorável, formidável d’estes últimos annos”.
O grande poeta vai tornar-se dentro de pouco tempo diplomata, chefiando a nossa delegação na Suiça e vai levar como seu secretário o professor, ao tempo, da escola de Passos. Assunto a que voltaremos.

COMISSÃO PAROQUIAL DE REFOJOS

Foi empossada esta comissão, que substitui a extinta Junta de Paróquia. É presidida por Joaquim Pereira Leite Bastos, sendo vice José Gonçalves Pena. São vogais António Pacheco Bastos, Filipe Pereira Basto e Manuel Joaquim Alves Machado. A posse foi conferida pelo administrador do concelho. Na sua 1ª reunião, a comissão decidiu de imediato a demissão do secretário e do tesoureiro da extinta junta.
De notar que os novos vogais pertenceram à comissão paroquial instituída na ditadura franquista. Esta nomeação “queria dizer qual a orientação do delegado do governo no regime tão campanudamente chamado da liberdade e da democracia”.

UM CABECEIRENSE, FIGURA DA REPÚBLICA
O cabeceirense Joaquim Machado Pereira Falcão, “conceituado comerciante em Lisboa”, é apresentado no “País”, conhecido diário da capital, “como uma das mais prestigiosas figuras da República”.
O Jornal de Cabeceiras aprova o comentário do diário lisboeta: “É (…) uma apreciação sincera e justíssima das qualidades do nosso prezado conterrâneo”.

A MORTE DE TOLSTOI
Falecera Leon Nikolaevitech, conde de Tolstoi, grande escritor russo, autor de “Guerra e Paz”, ainda hoje considerado como o romance mais notável da literatura universal. Nascido em 1820, faleceu com laivos de tragédia, aos 90 anos, quando, mais uma vez, se afastava da família. Tolstoi e Victor Hugo discutiram a primazia entre os escritores mais conhecidos, mais lidos e mais comentados da época em que viveram.

POSSE DO NOVO DELEGADO
Transferido da comarca de Aviz, tomou posse do cargo de delegado o Dr. José Osório de Sousa e Mello. Substituiu assim o Dr. António Rezende que durante alguns anos aqui tinha exercido idênticas funções e passava agora a desempenhar o cargo de secretário da procuradoria da República junto da Relação do Porto. A posse do novo delegado foi muito concorrida.

SINDICÂNCIA
O Dr. Anselmo Ferraz foi autorizado a continuar a sindicância à Câmara “de que já havia sido incumbido no penúltimo ministério monárquico”.

IMPRENSA
Recado à Comissão Municipal
“Se esta ilustre corporação não andasse tão gravemente atarefada com várias tentativas de degola geral de empregados” daria mais atenção ao lixo e falta de higiene que se verifica nos Paços Municipais, pelo que o Jornal de Cabeceiras aconselhava a mesma Comissão a “mandar affixar à portaria um cartaz bem saliente, que previna o público de entrada no templo da…porcaria”.

Nota: A comissão administrativa lia o jornal da terra. Assim não se coibiu de decidir, em sessão pública, “que não atendia o pedido porque…o achava inopportuno”. Isto é: a lixaria não incomodava os ilustres…

JÚRIS COMERCIAIS
Tinha sido publicada a relação dos cidadãos jurados para os júris comerciais a funcionar durante o ano de 1911. Encabeçavam a lista os Srs. Drs. Manuel Joaquim de Sousa Barros Leitão, Bernardo José Pereira Leite e Augusto Ângelo Vilela Passos.

CARREIRA FAFE-CABECEIRAS
Esta carreira deixou de ter paragem demorada no Arco. Como a mesma transporta a mala-postal, de que é arrematante o alquilador Manuel Alves da Silva Cosme, o correio ia ser posto à disposição mais cedo.

HOTEL DO ARCO
O Sr. Benjamim de Magalhães tomou conta do “Hotel Cândido”, onde vai introduzir melhoramentos.

ESCOLA DE S. NICOLAU
Estava posta a concurso a escola oficial desta paróquia.

Por: Francisco Vitor Magalhães

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