Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-11-2010

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (130)

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O ALENTEJANO DO BANIDO

O lugar do Banido de Cima, dos tempos da minha juventude, era composto por dois fogos apenas, duas casas de habitação, duas propriedades. Naquela que ficava mais abaixo, logo a seguir ao pontilhão, após o ribeiro, aquele ribeiro que desce desde a Cortinha da Casa da Teixeira de Abadim, e desagua na ribeira de Riodouro, ali junto aos moinhos do moleiro do Canto, morava o Espanhol. Na outra, naquela que ficava um pouco mais acima, morava o meu pai, que é como quem diz, a minha família, incluindo eu próprio.
O Espanhol era assim conhecido por ter sido emigrante em Espanha, mais concretamente na Galiza, e ali ter casado com uma galega, a Espanhola. Chamava-se Joãozinho, e comprara aquela propriedade quando regressou a Portugal após ter casado, e ali criara cinco filhos, duas raparigas, as mais velhas, e três rapazes, os mais novos.
O Senhor Joãozinho sempre vivera com algumas dificuldades, a propriedade, a que ele, orgulhosamente, chamava quinta, era constituída por um grande número de estreitas leiras apoiadas em altos muros ou, muito simplesmente, bordas de suporte. Em grande parte dos casos a altura dos muros era superior à largura das leiras, logo, a inclinação do terreno, no seu todo, era superior a quarenta e cinco graus.
O Espanhol do Banido de Cima era, no seu intimo, um homem bom, bem educado, respeitador e amigo de fazer o bem ao seu semelhante. Porém, devido às dificuldades e agruras da vida, tinha o hábito de falar muito alto, era muito frequente ouvi-lo aos berros, umas vezes com a mulher, outras com os filhos, e muitas ainda com os animais, com as vacas. Palavrões, totalmente inofensivos, mas pronunciados em alta voz, eram escutados, com regularidade, na curta vizinhança que rodeava a quinta.
Num dia destes, deslocando-me eu, caminho acima, a matar saudades, encontrei-me ali, logo após o pontilhão, com um dos habitantes do novo aglomerado urbano, um pequeno bairro, que agora existe na parte inferior da antiga quinta do Espanhol, nas faldas do lugar do Banido de Cima.
- Olá amigo! – disse eu.
- Olá, como está? – respondeu o residente.
- O senhor mora aqui?
- Moro sim, moro naquela casa que o senhor ali vê, é a primeira a contar de baixo.
- De onde é que é natural?
- Sou alentejano, sou de Estremoz.
- De Estremoz! Então, como é que veio aqui parar?
O meu interlocutor contou-me toda a sua história, a história que acabara por trazê-lo até as faldas do Banido de Cima, e que eu vou tentar descrever neste espaço, que, obviamente, é curto, sendo minha obrigação reduzi-la ao mínimo indispensável.
Aquele Senhor que mora na casa que fica logo a seguir ao pontilhão, voltando-se à esquerda, chama-se Miguel Sales Lagartinho, é natural da freguesia de Santo André, concelho de Estremoz. Nasceu a dois de Maio de 1931, tem, portanto, setenta e nove anos de idade. É filho único de pai sapateiro e mãe doméstica. Foi de Estremoz para Lisboa aos dezasseis anos de idade e tinha a terceira classe.
Tal como ele explica, o primeiro trabalho que teve em Lisboa, entre os dezasseis e os vinte anos, foi numa casa que confeccionava refeições para as companhias de aviação, hoje denomina-se de indústria de catering, a seguir prestara serviço militar no Quartel da Graça, por curto período de tempo. Depois trabalhou na Companhia Nacional de Navegação, durante quatro anos, e a partir daí passou para o sector da construção civil onde trabalhou como pintor.
Quando tinha trinta e dois anos, em 1963, casou com Luísa Barroso Cajus, uma costureira, que morava com uma tia, de nome América, e eram naturais do lugar de Travassô, freguesia de Abadim, concelho de Cabeceiras de Basto. Primeiro, foram morar para os Anjos, ali pela Avenida de Almirante Reis, onde, em 1964, nasceu o primeiro e único filho, o Manuel Cajus Sales.
Entretanto, mudaram-se para o concelho de Sintra, freguesia do Monte Abraão. O filho, que foi único, cresceu ali, concluiu o nono ano, e até cumpriu serviço militar obrigatório. Mas, não passou impune ao mundo da droga. Ao que parece, iniciou-se no vício a partir dos dezasseis anos. Nunca terá tido uma actividade profissional a sério, não obstante o pai insistir em que o rapaz era muito inteligente, bem parecido de figura e de compleição física de causar inveja.
E o homem, que por mero acaso se encontrara comigo, ali junto ao pontilhão do ribeiro do Banido, prosseguiu:
- Quando ambos nos reformámos, e com a intenção de retirar o rapaz daquele meio, decidimos vir viver para cá, atendendo ao facto de ser a terra da minha mulher. Foi nessa altura que comprámos esta casa aqui, no ano de 2002, mês de Maio de 2002.
- E o seu filho continuava a consumir droga? Quem era que lha fornecia?
- Não, quando viemos para cá, em 2002, o meu filho já tinha passado por vários tratamentos e tinha deixado de consumir droga, mas, não sei se terá sido pior, meteu-se no álcool, o meu filho era agora um alcoólico.
- O senhor diz que era? E agora já não é?
- Não, o meu filho morreu no passado dia treze de Agosto, e foi enterrado junto da mãe, no cemitério de Riodouro…
- Junto da mãe? Então a sua mulher também já morreu?
- Morreu sim, essa já morreu há seis anos, morreu em 2004.
- Então o Senhor vive só? E como foi que morreu o seu filho, que, como diz, morreu há pouco mais de um mês?
- É, eu vivo mesmo só. O meu filho deve ter apanhado uma bebedeira, vinha aí pelo caminho adiante e apareceu morto ali em baixo, no ribeiro. Caiu pela ribanceira e apareceu morto lá no fundo, de barriga para o ar, sem qualquer sinal de violência a não ser uns arranhões de ter escorregado ribanceira abaixo.
- E, no que respeita a roupa, comida e casa? Como é que o senhor se arranja?
- São as meninas do Centro Social e Paroquial de Abadim que me trazem a comida todos os dias, e, duas vezes por semana, arrumam-me a casa e levam a roupa que depois trazem lavada… Mas, eu estou mas é a pensar em vender isto e voltar para a minha terra.
- Para a sua terra, para Estremoz? Tem lá família?
- Não, não tenho lá qualquer familiar. Como já lhe disse, eu sou filho único, e, que eu saiba, não tenho lá ninguém.
- Curioso! O senhor era filho único, teve um único filho… E aqui? Não há familiares da sua ex-mulher, familiares por parte da mãe do seu filho?
- Parece que há para aí uns sobrinhos, mas não me ligam nenhuma. Se o senhor souber de alguém que esteja interessado naquela casa ali, eu quero vendê-la e voltar para a minha terra.
Pensei por alguns segundos, li nos olhos do homem a tristeza de quem se encontra só neste mundo tremendamente adverso. Quase que me comovi e não me fiquei sem que sentenciasse:
- Não seja tolo, Senhor Miguel Sales, o senhor aqui, ao menos tem as meninas do Centro Social e Paroquial de Abadim que vêm cá todos os dias trazer-lhe alimentação, fazer-lhe a limpeza duas vezes por semana e, sobretudo, verificar se ainda se encontra vivo. Em Estremoz, chegando lá como um qualquer torna-viagem, é muito pouco provável que encontre este tipo de aconchego. Repito, não seja tolo, mantenha-se por cá, conserve a sua casa e não dê parte de fraco, sobretudo enquanto se puder deslocar pelos seus próprios meios.
O tempo passou-se sem que ambos déssemos por isso, despedimo-nos com destreza. Deixei, porém, a promessa de que voltaria ao seu encontro para dar seguimento à conversa.

Por: José Costa Oliveira

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