Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
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SECÇÃO: Opinião

Correio do Leitor

Agualva, Cacém – 20/09/2010
Ex. ma Senhora Professora D. Benvinda
A euforia e as saudades e o lenitivo que me levam a escrever-lhe esta longa carta, da qual vos peço desculpa e também não vos peço para que seja transcrita no nosso jornal Ecos de Basto, pois o nosso jornal merece outra escrita mais elaborada que não a minha, até que esta carta já vai atrasada no tempo.
Além disso acho ousadia escrever cartas a uma pessoa que nem conheço pessoalmente.
Conheço-vos através do jornal que dirige com a proficiência já a alguns anos.
Com certeza que V. Senhoria também teve a alegria que os cabeceirenses, aqueles que tiveram de sair da sua terra, para ganhar o pão de cada dia e tiveram a alegria de ver a ditosa terra sua, na televisão.
Foi no dia 31 de Agosto, eram dez horas, quando o meu filho me telefonou de Tavira onde passava férias. Tinha eu acabado de tomar o pequeno almoço, quando ia a sair para dar um esticão às pernas que já querem ficar mais para trás do que para a frente.
Nesse momento, tocou o telefone. Fui ver quem era, era o meu filho. Cumprimentamo-nos em seguida me disse:
- Pai, ligue a televisão porque está a dar um programa muito bonito da sua terra: vá, depois falamos. Ora, quando vi no ângulo superior do lado direito do televisor, “Verão Total” em Cabeceiras de Basto disse:
Até que enfim que se lembraram da minha terra. Vai daí, comecei a ver a nossa sala de visitas que é muito bonita cheia de povo e belas mulheres, só as há no Minho. Nessa altura a câmara focava desde a Casa do Barão ou da Cultura, todo o jardim, que tem um desenho muito bonito cheio de flores variadas cores, principalmente rosas deslumbrantes que por aqui, o verão as queimou todas. Ao fundo o nosso imponente Mosteiro onde só um rivaliza com ele que é o Mosteiro da Estrela em, Lisboa.
Por fora é igual, por dentro o nosso é mais rico em talha, principalmente o Altar Mór.
Foi no nosso Mosteiro que me fizeram a alma Cristã e também aí dei o nó com a minha mulher há sessenta e cinco anos! Foi no dia vinte e seis de Janeiro de 1944, como me lembro! Lá estava a minha quase bicentenária Banda de Música, onde me iniciei com onze anos de idade. Não me pude conter, sem que uma lágrima de saudade me rolasse pela face. Só quem tem de deixar a sua e se tornou residente forasteiro noutra que não é a sua e se viu forçado a aceitá-la como se sua fosse: porém, também gosto muito desta onde vivo pois me aceitou como se seu filho fosse. Os homens e as mulheres de Bucos, eles com os seus “lodos” fazendo “varrimentos meigos” só para “olho ver”, pois quem quiser ver o jogo do pau a valer, vá a Cavez na noite de vinte e três e no dia vinte e quatro de Agosto, dia de S. Bartolomeu, na Ponte Românica que divide Trás-os-Montes do Minho. É ver homens com a cabeça rachada e os lombos com costelas quebradas, aí sim, é que se vê como se joga o pau de verdade. As mulheres “Bucenses”, com as suas rocas, fiando a lã, o linho e os “tomentos”. Os fusos a fazer o fio, a dobadoira a fazer as meadas, as urdiduras nos teares, o encher das canelas com o fio já feito, com a lã já lavada.
E o linho desde que semeia até à toalha sair pronta do tear quem dará o valor da trabalheira que isso dá? E, depois de um dia passado no campo, as mulheres “Bucenses” logo que comem a ceia, nas noites grandes, ainda vão fiar, tecer, fazer meia com quatro agulhas e confeccionar as suas capas ou capuchos. Os homens batendo uma “suecada” fumando um cigarro, sempre com o garrafão do bom verde a amornar ao borralho da lareira.
Depois no meio do jardim, lá estava o belo fumeiro que se confecciona em Cabeceiras, com a boa linguiça, o chouriço de sangue, a morcela, o famoso salpicão e o belo presunto! Iguarias que só de Cabeceiras subindo até a Trás-os- Montes, sabem fazer estas delícias, porque a carne de porco é diferente, assim como o que lhe dão de comer é diferente. Penso que não só em Portugal, mas em todo mundo, não há fumeiro igual ao dos minhotos e transmontanos. Lá estava a mesa com o fabuloso pão de ló, as cavacas, os rosquilhos e os rebuçados em pequenos papeis de seda de variadas cores. O bom mel, diferente na cor, mas também no paladar. Depois a mesa posta com os acepipes já confeccionados pelos nossos restaurantes, onde não faltava a boa vitela assada e o cabrito no forno com as batatas assadas no molho dele, loiras como o sol ridente quando nasce pela manhã.
Depois os Cavaquinhos da Raposeira com cantares e cantadeiras muito bonitas. É que, o Arco de Baúlhe mais bairrista do nosso concelho e a Raposeira a mais bairrista da Freguesia de Refojos.
Em outros tempos, a minha Ponte de Pé , rivalizava com os “raposenses”. Quem não se lembrará, do S. João na Ponte de Pé e do S. Pedro na Raposeira? Poucos com certeza, pois os das minha idade já muitos se foram e se adiantaram a mim. Voltando à minha Banda de Música, lembro-me como ficaram admirados ao ouvirem a colectânea genuinamente portuguesa, a Serenela e o Helder que ficaram deslumbrados ao ouvirem a bela execução e a boa afinação! Reparei nisso: como ficaram admirados, e também a boa maneira como foram recebidos pela nossa Autarquia e o seu povo.
Todos ficaram a saber pelo senhor Dr. China Pereira, que fez o elogio como Cabeceiras de Basto sabe receber os seus filhos e os adoptivos como ele o é, mas que jamais a deixará. Ela prende-nos! É por isso que, quando dela nos afastamos o nosso coração sofre.
Quantos seriam os cabeceirenses, ao ver a sua terra pela RTP não lhe rolasse uma lágrima de saudade, aqueles que tiveram de sair para terras onde não conheciam um amigo e os teve de granjear e comer o “pão que o diabo amassou”. Aquele que aí vive, não sabe das lágrimas que cada um de nós chorou para se afirmar numa terra alheia onde somos de todo ignorados. Depois desta choradeira, voltamos ao “Verão Total”, um programa dos mais belos da nossa Televisão. Ora, como o tempo para a Televisão é contado ao minuto e às vezes quem o controla não faz bem as contas, foi o que aconteceu ao anfitrião que não o deixaram acabar de dizer, o tanto que o nosso Autarca cabeceirense tinha, tanta coisa que ficou no seu coração Nobre de lutador por dizer de uma terra que ele quer que rivalize com as melhores que nos cercam.
Quem conheceu Cabeceiras de Basto como nós, nada tem a ver com Cabeceiras de Basto antanho.
De dia, mal se via uma pessoa pelas ruas de “mac – dam”. As pedras das calçadas eram como a natureza as tinha posto, as quelhas e os quelhotos de terra e pedra solta. As crianças e principalmente mulheres andavam descalças.
De noite, um poste aqui, outro acolá, com uma luz triste como triste vivia aquele povo.
Hoje os nossos conterrâneos vestem e vivem como os da cidade. Tem casa, automóvel para ir à missa. Têm praias fluviais, pavilhões gimnodesportivos, piscinas, novas escolas, casa de saúde para idosos, para acamados, têm tudo como os citadinos e se vive em Cabeceiras com dignidade. Tudo porque temos um Autarca à medida das circunstâncias.
E, eu comecei a ouvir o Senhor Engenheiro Joaquim Barreto quando lhe deram faladura, pensando que ele dizer tudo que lhe vai na alma do que fez nos seus mandatos e do que ainda irá fazer: sim, porque o Senhor Engenheiro não é mentiroso como alguns que por aí há. Nem eu, nem muitos, acreditariam nesse presidente pois estávamos habituados, a não se fazer nada e deixa andar! Porém muito se engana quem cuida. Este Autarca ficará para a história da nossa terra e para o nosso País que pegou num concelho pobre e o enriqueceu, em pouco tempo com o seu dinamismo e, em pouco tempo vai fazer da nossa terra uma próspera cidade. Não sei Ex. ma Senhora D. Benvinda, se o Senhor Engenheiro Barreto da parte da tarde, a Serenela e o Helder deixaram deitar cá para fora aquilo que o nosso autarca tem feito. Creio que sim.
Da parte da tarde não pude assistir à festa do “Verão Total”. Por motivo de doença de um familiar me tive de ausentar, pois nestas coisas não se pode fazer mais nada, senão acudir. Foi com muita pena minha, ter perdido uma festa que tarde ou nunca se torna a realizar.
Ex.ma Senhora Professora D. Benvinda T. Magalhães peço-vos muitas desculpas do tempo que lhes tenho tomado, e peço à Senhora que desculpe este saudoso da minha terra. Não a voltarei a importunar, nem aos fazedores do nosso jornal Ecos de Basto.
Muito obrigada à Rádio Televisão Portuguesa, a todos os trabalhadores desse jornal. Aceitem um abraço amigo incluindo o nosso Presidente, não faltando os meus cumprimentos respeitosos à Ex. Directora D. Benvinda T. Magalhães do vosso amigo e conterrâneo,

Jaime de Sousa e Silva

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