Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 25-10-2010

SECÇÃO: Opinião

CONTOS DA SERRA E DOS VALES
A CAMINHO DAS MINAS

Por Eduardo Metrosídero
Os vinte que ficaram apurados, acompanhados por alguns dos outros, acabaram o dia em festa. Com concertinas e bombos, deram uma volta por alguns dos lugares das redondezas da vila, cantando, dançando e bebendo, deram largas à sua satisfação e alegria pela sorte que lhes coubera em resultado das inspecções.
Não tardaria muito mais que meio ano para que alguns deles, ou até mesmo todos, viessem a ser chamados para um qualquer quartel do país. O António não voltou para a guarda do rebanho pelas encostas da serra da Orada. Esse ofício era agora exercido pelo irmão que se lhe seguia, mais novo que ele dois anos e meio.
Agora, habituado a trabalhar fora de casa, e a juntar algum dinheiro, refira-se que, durante o ano que trabalhou nas minas, conseguiu amealhar nada mais, nada menos, do que dois mil escudos, dois contos de réis, uma poupança média de sete escudos por dia, exactamente metade do salário auferido. Habituado a trabalhar fora de casa, tratou de procurar ocupação, já com um horizonte limitado a um mínimo de seis meses e um máximo de doze ou quinze, conforme fosse incorporado logo no início, ou mais para o fim do ano, do ano de 1945, que vinha a seguir.
Falou com o presidente de junta da freguesia, expôs-lhe a sua situação: que como ele sabia muito bem, tinha trabalhado durante um ano completo nas minas da Borralha, que saíra de lá apenas pelo facto de elas terem encerrado, que estava apurado para todo o serviço militar, que durante todo o ano que vinha seria chamado para a tropa e que agora não se sentia bem em casa, muito menos a guardar ovelhas ou a roçar mato na serra da Orada.
- Nem de propósito! – exclamou o presidente da junta.
- Então que é, Senhor Bernardino? – questionou, de imediato, o rapaz ao ficar meio espantado com a surpresa do homem.
- Então, não é que ainda ontem, ontem mesmo, a Senhora da Casa do Adro me falou a ver se eu sabia de alguém que fosse jeitoso para lhe tratar dos jardins? Olha lá, tu sabes podar muito bem, que eu sei, não sabes?
- Então, não sei? Pergunte ao meu pai, ele até diz que eu podo melhor do que ele!
- É, e quanto a jardinagem, quem souber podar também sabe jardinar, isto é tudo questão de jeito. Queres ir para jardineiro da Casa do Adro? Eu não sei quanto é que eles pretendem pagar por dia ou por semana, deve ser um pouco menos do que lá nas minas, mas, aqui é à porta de casa…
- É, pois é. Seja lá o que for, sempre não deverá ser menos do que dez ou doze escudos por dia…
- É, devem pagar-te para aí uns dez ou onze escudos. Deixa estar que eu logo já vou falar com a Senhora, passa por aqui amanhã de manhã, está bem?
- Está bem, Senhor Bernardino, muito obrigado.
Assim foi. As coisas evoluíram de uma forma espantosamente fácil. Passado pouco mais de um mês, após ter chegado da Borralha com a trouxa às costas, já o nosso mancebo, apurado para todo o serviço militar, estava a trabalhar como jardineiro numa casa de fidalgos da freguesia de Alvite e ganhava onze escudos por dia e com direito a uma pinga e uma bucha, que é como quem diz, uma merendinha, a meio da tarde.
A merenda era servida por uma das criadas da casa, a criada de cozinha, que lha levava sempre ao meio do jardim, ou dos quintais, que o jornaleiro não se ocupava apenas do serviço de jardinagem, fazia também todo o serviço de plantações e arranjos dos quintais; plantava as hortaliças, tratava dos legumes e podava fruteiras, o jornaleiro jardineiro fazia todo o serviço de jardins, de quintais e ainda remendava as capoeiras.
Ele sempre manteve o máximo de respeito pelas criadas, aliás, tinha sido avisado muito seriamente pelo presidente da junta, que nem sequer um passo em falso, que os Senhores eram de uma bondade extrema, mas de um rigor profundíssimo. Por isso, se quisesse que a vida lhe corresse sem sobressaltos, nem sequer um gracejo, fosse a quem quer que fosse.
Assim procedeu, o António já não se julgava um qualquer miúdo, pronto a meter-se com esta ou com aquela, estava apurado para todo o serviço militar e aguentaria ali, na Casa do Adro, até que fosse chamado. «Quando vier o aviso para me apresentar, então pedirei autorização à Ilda para lhe escrever, se ela me aceita como correspondente, depois se verá», pensou ele. A rapariga, a que lhe servia a merenda todos os dias, chamava-se Ilda, e também não era conhecido que andasse qualquer pretendente a rondá-la por perto.
No dia quinze de Fevereiro de 1945 recebeu, ali mesmo na Casa do Adro, onde trabalhava, um aviso timbrado da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto. O aviso dizia, muito clara e simplesmente, que deveria passar pela secretaria a fim de levantar guias de marcha para se apresentar no Regimento de Artilharia Pesada número 2, da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia, no próximo dia vinte e seis do corrente mês de Fevereiro.
O António, meio eufórico e meio temeroso, despediu-se dos patrões com o máximo de respeito e pediu a direcção à Ilda.
- A minha direcção para quê? – perguntou a rapariga, mostrando-se muito admirada mas não conseguindo disfarçar minimamente o interesse.
- Então, para te escrever, ou será que não sabes ler?
- Não, sim, eu não sei lá muito bem, mas sou capaz de escrever e ler uma carta…
- Então, diz lá o teu nome completo e a direcção para onde queres que te escreva, e não faças mais perguntas, está bem?
- Está… está bem…
A rapariga deu-lhe a direcção.
O rapaz seguiu no carro de praça do Ricardo até Fafe e ali apanhou o comboio em direcção ao Porto no dia vinte e cinco de Fevereiro, um domingo de vento frio e seco.
Passados dois anos, tinha terminado a tropa, sempre ali no RAP 2, tinha arranjado emprego, como guarda-freio, na Companhia Carris de Ferro do Porto, e convidou a Ilda se queria ir para o Porto, que ele lhe arranjaria lá colocação.
Ela aceitou e foi.

FIM

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