Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 25-10-2010

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…

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CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

CHEGOU A REPÚBLICA
A manhã do dia 5 de Outubro nasceu risonha, com um sol outoniço. Era uma quarta-feira. As aldeias acordavam cedo: era dia de trabalho. Ainda havia uvas a colher, mostos a espremer, vinhos a fazer. O milho tinha de ser espalhado nas eiras e pensava-se já em varejar alguns castanheiros cujos ouriços começavam a abrir. Na vila a vida começava mais tarde: não que os padeiros e as leiteiras não se tivessem já afadigado a distribuir o pão pelas sacolas presas por baraços aos puxadores das portas e a distribuir o leite pelas garrafas à soleira; algum tempo depois os comerciantes da praça, ainda ensonados, abriam as portas dos estabelecimentos, onde já esperavam os marçanos e caixeiros. Dentro em pouco estavam todos metidos dentro dos seus guarda-pó, esperando os clientes. As repartições abriam mais tarde. Os funcionários trocavam dois dedos de conversa, colocavam as mangas-de-alpaca, abriam os livros de registo e começavam a escrevinhar. Os chefes chegavam…quando chegavam. Cumprimentavam-se cerimoniosamente, comentavam a abertura solene das Cortes, com a presença do Rei e do Presidente da República do Brasil, Hermes da Fonseca, em visita oficial ao nosso país. Comentara-se o desagrado pela não comparência de qualquer deputado do bloco oposicionista derrotado nas eleições de 28 de Agosto.
Os que tinham afazeres na Praça foram chegando, uns dirigindo-se às repartições, outros aos estabelecimentos, alguns à igreja. Comentava-se a vida local, uns de uma maneira, outros de outra. Ainda estava muito fresco o passamento da jovem senhora D. Teresa da Silva Castro, esposa do Sr. Bento, oficial do tribunal. Muito nova ainda, casara há cerca de um ano e já repousava em Vinha de Mouros. O Dr. Arnaldo Pereira Leite, do Instituto de Gondarém, que viera à vila, recebeu uns valentes parabéns pelo baptismo do seu filho Eurico. O padre Firmino recebeu também cumprimentos pelo seu sermão do domingo passado na igreja de Refojos, na festa da Senhora do Rosário. Perguntado porque o pároco da vila, padre Vilela, concorrera à paróquia de Painzela, encolhera os ombros: não sabia. Parecia que o pároco estava desgostoso com a paróquia. Tanto lutou por ela. Conquistara-a há um ano e já queria ir embora. Parecia acontecer o mesmo com o padre Severino Ramos, de S. Nicolau, que requerera a paróquia dos Anjos, no concelho vizinho de Vieira.
Ao fim da tarde, já sol posto, chegou a diligência de Fafe. Os passageiros vinham comentando entre si os zuns-zuns que corriam na vila fafense sobre um movimento revolucionário que teria rebentado em Lisboa, desta vez com o dedo dos republicanos. Nada de anormal e nada a que o povo de Lisboa não estivesse habituado: marinheiros nas ruas, garotos e rapazolas e varinas a gritar, guardas de chanfalho na mão, correrias nas vielas, cabeças a sangar, meia dúzia de tiros e uma leva de presos para o Aljube, tudo entremeado com uns “vivas” ao Rei e uns “morras” à “Monarquia”.
Mas, afinal, aquele dia tinha sido diferente…

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O golpe militar desencadeado levou à proclamação da República às 11 horas da manhã na Praça do Município em Lisboa. Proclama-se um governo provisório. Chefia-o o Dr. Teófilo Braga. O ministro da pasta do Reino é o Dr. António José de Almeida. O telégrafo começa a funcionar activamente. Ao meio da tarde o Porto proclama a República.

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A República foi implantada em Cabeceiras de Basto por telégrafo…como em todo o país. O governador civil de Braga, o cabeceirense Dr. Francisco Botelho, da Casa do Mourigo de São Nicolau, passou o poder ao Dr. Manuel Joaquim Rodrigues Monteiro Júnior, ilustre advogado e escritor bracarense. Este, em cumprimento das instruções do Ministério do Reino demite, por telegrama, os administradores e as vereações municipais das câmaras do distrito. O padre Domingos e o padre Firmino esperam a pé firme os substitutos. Vão arrumando os seus pertences pessoais e despedindo-se dos funcionários e correligionários que os vêm abraçar. São menos…são menos.
Na Praça começam a juntar-se pessoas. Corre o boato de que a República vai ser proclamada em Cabeceiras naquela tarde de 6 de Outubro. De Braga chega o Dr. Álvaro Pipa, nomeado delegado do governo, acompanhado de alguns republicanos bracarenses.
Numa cerimónia no salão nobre é proclamado o novo regime. Soam numerosas vivas aos heróis da Revolução, ao exército, à armada, ao governo provisório. Discursam o delegado governamental e o Sr. João Falcão de Magalhães. A bandeira da monarquia foi arreada e cuidadosamente guardada e dobrada. No mastro está agora a bandeira do Partido Republicano. A Banda Musical de Celorico de Basto alegra a festa com acordes guerreiros.
No final reúnem-se os políticos. É necessário elaborar a lista da nova vereação municipal. Cá fora, apontam-se vários nomes para o cargo de administrador. Nota-se que aqueles que eram conhecidos como verdadeiros republicanos ou não estão presentes, ou não se vêem. Alguns dos nomes apontados são recebidos com meneios significativos de cabeça.
Ao fim da tarde o delegado do governo regressa a Braga e é marcada para a tarde do dia seguinte a divulgação e posse da nova estrutura administrativa local.
Dia 7 de Outubro. Movimento desusado na Praça Barjona de Freitas. Pessoas entram e saem dos Paços do Concelho. Políticos regeneradores desapareceram. Notam-se vultos conhecidos dos políticos progressistas locais. Nos grupos que se formam murmuram-se nomes, fazem-se conjecturas. Aguarda-se a chegada do delegado do governo.
Pelo meio da tarde chega um automóvel. Vem de Braga. Traz o Dr. Álvaro Pipa. Ouvem-se alguns vivas à República, o salão nobre enche-se. São apresentados o novo administrador e a nova vereação municipal. Assim: administrador: Florêncio Leite Pereira Lobo, estudante quintanista de Direito da Universidade de Coimbra. Desempenhará este cargo e, por inerência, presidirá à Vereação Municipal (Comissão Administrativa) assim constituída: José César de Vasconcelos, João Falcão de Magalhães, Francisco Teixeira Basto, Manuel Baptista Pereira Basto, Eduardo Gonçalves de Moura e Humberto Pereira Bahia. São substitutos: Arnaldo José Miranda de Barros, António Machado Pereira, Adolfo Pereira Baptista, Armando Afonso Tavares, Franklim d’Oliveira Vaz, João Leite de Magalhães e Júlio Pereira Leite.

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Mas onde estão os republicanos nesta lista? A primeira reacção que conhecemos é-nos transmitida uns dias depois pelo Jornal de Cabeceiras:
“Seja-nos permitido dizer francamente que, salvo o devido respeito, a confecção da lista não obedeceu tal ao apregoado espírito de conciliação e isenção partidária; pois dos nomes indicados se vê claramente, que, tirado um ou dois affeiçoados do antigo partido regenerador, os restantes, numa grande maioria, eram há poucos momentos ainda, elementos dos meios conhecidos do partido progressista local.
Além disso, figuram na nova comissão, pelo menos, três nomes da dissolvida comissão franquista de ingrata memória.
[…] Enfim, precipitação talvez de momento, desculpáveis pela falta de uma comissão electiva republicana local”.

SEQUELAS

Todas as revoluções provocam sequelas, umas mais graves que outras. A primeira, já vimos, implicou a substituição de pessoas em alguns cargos. Nada de grave. O Jornal de Cabeceiras suspendeu a publicação nos dias 9 e 16 de Outubro, domingos. Retomou-a com um número especial publicado na quarta-feira, dia 19 de Outubro (nº 756). Sobre a República dizia somente: “Foi implementada a República em Portugal. Derruiu o regime monárquico que, contando 8 séculos de existência, teve épocas de venturas e altos cometimentos e teve grandes convulsões de grandes amarguras. Não nos amedronta a implantação do novo regime”. De tal modo que atribui a puro vandalismo a quebra das empanadas da farmácia que o Dr. Arnaldo Miranda de Barros tinha no Bairro do Seco, não dando ao caso qualquer conotação política com o facto do farmacêutico encabeçar a lista dos substitutos à nova vereação municipal republicana.
O Jornal de Cabeceiras, quando apresentou a constituição da nova vereação, estranhou somente o nome dos monárquicos progressistas, nomeadamente os de má memória da comissão administrativa do consulado de João Franco.
O partido monárquico progressista local, em obediência à orientação geral, dissolve-se. Esta deliberação é apresentada pelo “Povo de Cabeceiras” que aproveita para anunciar o fim da sua publicação e para descarregar o seu fel no partido regenerador local e no seu órgão, Jornal de Cabeceiras. Este responde: “…a célebre gazeta precisava de mudar de dono, e eis a determinante da sua pretendida suspensão. […] A matrona vendeu-se e veremos agora se o novo patrão tem sufficientes desinfectantes para a apresentar decentemente mascarada e transformada”. Outras sequelas se seguirão.

NOTICIÁRIO

O “Jornal de Cabeceiras” não se publicou nos domingos correspondentes aos dias 9 e 16 de Outubro. Reiniciou a publicação com o nº 756, em 19 de Outubro (4ª feira) e voltou a publicar-se no dia 23 (domingo). Alegou: “por virtude dos últimos acontecimentos políticos”.
O “Povo de Cabeceiras” anuncia o fim da sua publicação, dada a sua ligação ao partido progressista que se dissolveu.

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Faleceu D. Miquelina da Cunha, esposa do Sr. Francisco Pereira Camelo, comerciante na Praça.
Faleceu o Sr. António Barreiros, antigo e conceituado industrial de Mudanços (Outeiro).

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Anunciava-se para o dia 25 de Outubro o julgamento dos réus (Ernesto da Mota e Bernardo Durães) por crime de homicídio na pessoa de Francisco Ribeiro. Era conhecido pelo crime de Pedraça. Foi adiado.

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O Revº Manoel José Queiroga de Oliveira, virtuoso e ilustrado arcipreste de Cabeceiras, foi encomendado por mais um ano na paróquia de Pedraça.

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A igreja de Refojos recebeu o baptizado de Hernâni Eduardo, filho de António Augusto de Oliveira, aspirante de Finanças. Foram padrinhos o avô materno José Eduardo Pereira Leite e a avó paterna Maria das Dores de Castro Peixoto.
Na mesma igreja foi à pia baptismal o neófito Manuel, filho do conceituado comerciante Joaquim Lopes de Sousa. Foram padrinhos Manuel Joaquim de Lima Bastos e Estefânia Lima.

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Os mercados não tinham sofrido alterações nos preços. A moeda da troca continuava a ser o real.

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Teotónio Falcão Ribeiro era nomeado agente em Cabeceiras da Companhia de Seguros Fidelidade. (“Muito trabalhava este homem. O novo administrador não vai querer tanto esforço”).

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O Dr. António Rezende, delegado, foi colocado como secretário do Procurador da República junto da Relação do Porto.
Foi substituído pelo Dr. José Osório de Sousa e Mello, transferido da comarca de Aviz.

Por: Francisco Vitor Magalhães

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