Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 25-10-2010

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (129)

foto
O ÚLTIMO RESGATADO

Não me admirará mesmo nada que apareça alguém a classificar a ideia de demagógica, talvez populista, ou outra qualquer coisa do género. Para mim, tanto se me dá.
Em minha opinião, a “demagogia” da ideia é exactamente a mesma que está contida naquela máxima que diz: “quando o navio está a afundar-se, o comandante será sempre o último a abandoná-lo”.
Querem um exemplo bem recente? Lembram-se daquele avião que se viu forçado a “aterrar”, “amarar”, pousar no rio Hudson, no coração do tecido urbano de Nova Iorque, depois de lhe terem parado os dois motores, ainda em pleno esforço de subida, devido a um choque com um bando de pássaros? Em boa verdade, não se tratou bem de pássaros, as aves que chocaram com o avião eram uma formação de gansos canadianos!
Ainda não vai há muito tempo. Foi no dia quinze de Janeiro de 2009. Era o voo 1549 da US Airwais, e o aparelho um Airbus A320 com cento e cinquenta passageiros e cinco tripulantes. O comandante era Chesley Sullenberger, um piloto de cinquenta e sete anos de idade.
Depois de uma espectacular imobilização do Airbus A320 nas águas cinzentas e quase geladas do Hudson, e de, aparentemente, todos os passageiros e tripulantes terem sido salvos através das saídas de emergência, o comandante Chesley “Sully” não abandonou o avião, que se encontrava quase totalmente submerso, sem que desse duas voltas completas por todo o interior da aeronave para se inteirar, sem qualquer margem para dúvidas, de que ninguém tinha ficado para trás.
(Parabéns Exmo Senhor Chesley “Sully”!)
Com esta prosa, eu pretendo chegar àquele caso dramático que, apesar de tudo, tem passado um pouco à margem da maior parte dos noticiários. É o caso dos trinta e três mineiros que, desde o passado dia cinco de Agosto (estou a escrever este texto a três de Outubro de 2010), se encontram encurralados no interior da mina de S. José, no deserto do Atacama, no Chile, a setecentos metros de profundidade.
Em termos geográficos, a localização da mina fica sensivelmente a meio da distância entre a capital, Santiago, e a fronteira norte do país com o Peru.
À primeira vista, poderá qualificar-se já como um quase milagre o facto de ter sido possível fazer um furo, com cerca de dez centímetros de diâmetro, directo ao local de refúgio dos soterrados, e conseguir a comunicação e o envio de alimentos e água, na tentativa de os manter com vida.
Também é um facto que, no que respeita às autoridades, estas parecem ter estado a fazer o seu melhor. Há notícias de que os ministros da saúde e das minas (mineração) não se têm poupado a esforços no que concerne aos preparativos para o resgate.
Sabe-se que há, neste momento (três de Outubro de 2010), três potentes máquinas perfuradoras a trabalhar intensamente na abertura de outros tantos furos, na direcção da gruta onde se encontram os sobreviventes: a perfuradora Strata 950, na persecução do plano A; a máquina T-130, encarregada do plano B; e a máquina petrolífera RIG 421, que executa o plano C.
Parece não existir qualquer dúvida de que, tanto o governo do país, como toda a comunidade, nacional e internacional, não se têm alheado, nem por segundos, deste dramático, o adjectivo parece-me demasiado suave, eu diria mesmo muito e muito dramático, até “dramatiquíssimo” problema.
Sempre se terá como ponto assente que, qualquer mineiro, muito em particular aqueles que já têm longos anos de trabalho nas profundezas da terra, deverão estar preparados para enfrentar situações do género. Mas, há o desgaste do decurso de tempo. E eu, que me imagino na pele de qualquer um deles, sinto-me deveras a perder o fôlego a cada dia que passa.
As perfuradoras estão a tentar abrir um furo, na vertical, com cerca de setenta centímetros de diâmetro, por onde irá descer uma jaula, um “shuttle”, um pouco mais estreita, e através da qual deverão ser resgatados todos os mineiros, um por um, a uma cadência de, um pouco mais ou menos, noventa minutos.
Feitas as contas, só no decurso do resgate, passar-se-á um pouco mais de dois dias, ou seja, umas quarenta e nove horas e meia.
Com tudo isto, não sei se estarei a ser injusto para com os responsáveis pela empresa detentora da mina. Porém, a verdade é que, até este momento, ainda não vi, nem ouvi, uma única palavra alusiva à sua intervenção, muito menos à sua preocupação, no que respeita ao acompanhamento e resgate dos trabalhadores retidos lá no fundo do buraco, a mais de setecentos metros da superfície.
A minha mensagem é, simplesmente, esta: eu, se fosse o principal responsável pela empresa, em terminologia internacional chamar-me-ia CEO (Chief Executive Officer), em português, Director-Geral, seguiria à risca o bom exemplo do comandante do Airbus do voo 1549 da US Airwais, o Senhor Chesley “Sully”.
Neste particularíssimo caso, eu seria o primeiro a descer, na jaula de resgate, até à gruta dos sobreviventes, e seria o último a subir, depois de ter dado duas voltas ao sítio do refúgio, certificando-me de que ninguém, vivo ou morto, teria ficado para trás.
Poderei ser chamado de demagogo, penso não o ser, talvez um tolo, antes isso, e ao director-geral da empresa mineira poderá valer o facto de ser um daqueles sul-americanos entroncados de físico, restando-lhe a desculpa, airosa, de não lhe ter sido possível descer ao fundo do poço por não caber no interior da jaula!
Os mineiros, esses deverão estar bem elegantes, e o diâmetro de setenta centímetros da unidade de transporte deverá ser suficiente para que cada um caiba no seu interior. Espera-se que tudo corra pelo melhor, e que os prazos previstos para a operação sejam significativamente encurtados.

PS: Sobre as medidas de austeridade propostas pelo governo ao longo dos últimos meses. Irra, Senhor Primeiro-Ministro, não há plano em que não se note algo que falha. Agora, e no que concerne às previsões para o próximo orçamento do estado! Então? E os reformados das múltiplas e milionárias reformas? Estes não vão contribuir com a sua quota-parte para a resolução da crise? Vão ficar a ganhar mais do que aqueles que se encontram no activo? Tenha lá paciência e rodeie-se de alguém que saiba informá-lo… É que, por este andar, a credibilidade vai bater mesmo no fundo.

Por: José Costa Oliveira

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.