Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 04-10-2010

SECÇÃO: Opinião

CONTOS DA SERRA E DOS VALES
A CAMINHO DAS MINAS

(Continuação-12)

O corte, leia-se despedimento colectivo, operado em princípios de Junho de 1944, nas minas da Borralha, traduziu-se num verdadeiro exemplo do que, em qualquer circunstância, deve ser o relacionamento da empresa, da entidade patronal, com o conjunto dos seus trabalhadores, mesmo em momentos difíceis.
Com as contas liquidadas, cada um pegou na sua trouxa, trouxa que na maioria dos casos pouco mais não era do que uma ou duas mantas, uns tamancos e algumas peças de roupa sujas, quase sempre rotas, ou fortemente coçadas. Assim rumaram às suas terras de origem, a pé, com as trouxas às costas.
Os farristas, os pilhas e outros traficantes tinham lucrado, não usamos aqui o termo ganhado porque é impróprio, tinham lucrado grandes somas de dinheiro, dinheiro demasiadamente sujo, tão sujo que a maior parte deles assim o esbanjou - havia quem fizesse cigarros com notas de vinte escudos, e quem escrevesse recados às amantes em notas de cinquenta. No final da exploração, quando as minas fecharam, também foram muito poucos aqueles que não ficaram na miséria.
Um dos sinais da grande euforia que se vivera durante os anos da guerra, alguns daqueles que precederam o encerramento das minas por força do decreto-lei de doze de Junho de 1944, foi, por exemplo, a seguinte quadra que era entoada por grupos de homens e mulheres que, de dia e de noite, se dirigiam para as redondezas. A quadra que, na verdade, era uma sextilha, versava assim:

«De picareto na mão;
À procura do filão;
E das preciosas chinas;
Vamos todos para a Borralha;
Que a vida é para quem trabalha;
Benditas sejam as minas».

***
O António de Moura Pereira Coutinho trabalhou nas minas exactamente um ano, chegara ali em princípios de Junho de 1943 e as minas suspenderam a laboração em princípios de Junho de 1944.
Durante aquele período de um ano completo, deslocara-se a Petimão apenas por cinco vezes: pela festa de Santa Catarina, pelo S. Miguel, pelo Natal, pelo Entrudo e pela Páscoa. A distância era demasiadamente longa, e sempre que se deslocava a casa dos pais, mais de metade do tempo era passado no caminho e resultava numa enorme estafadela. Assim, nos dias de descanso semanal, aos domingos, ora ia até à povoação de Salto, ora ia até à povoação de Campos, eram as duas sedes de freguesia que ficavam mais próximas do couto mineiro, a primeira pertencia ao concelho de Montalegre e a segunda pertencia ao concelho de Vieira do Minho, cada qual nos limites do respectivo município.
Como sempre trabalhara no turno da noite, todas as terças-feiras se encontrava com as mulheres de Alvite, aquelas que o tinham acompanhado pela primeira vez quando, desde Petimão, seguiu até à Borralha, e ali iniciara o seu trabalho, trabalho conseguido graças ao empenho da Maria Pequena junto da mulher do director das minas. Esta, a Maria Pequena, todas as semanas lhe levava meia broa de pão que a mãe, com especial carinho, pedia que fizesse o favor de entregar ao filho.
O rapaz, todas as vezes que fora visitar a família, guardara as suas poupanças numa caixinha de madeira, escondida no fundo da sua caixa, que tinha comprado, três meses antes de ir para as minas, com o produto da venda de um dos anhos. Daquelas poupanças retirava duas notas de cem e entregava-as à mãe para que comprasse uma saia e uma blusa e dizia:
- Faça favor, minha mãe, é por conta do pão que sempre me manda pela Senhora Maria Pequena.
- Muito obrigada, meu filho, que Deus te ajude a ganhares muito e que o saibas guardar – respondia-lhe a mãe.
Sempre que se encontravam, quase todas as semanas, na margem esquerda do rio, junto ao enfiamento da ponte que dava para os escritórios, as mulheres faziam-lhe uma enorme festa. Ele cumprimentava-as a todas com um aperto de mão, excepto a Maria Pequena, esta não lhe estendia a mão, passava-lha por detrás da nuca e dava-lhe um maternal beijo na testa.
Com a Matilde, passava-se algo de estranho. Ele, sempre que a cumprimentava, não deixava de pensar: «diacho, devia ser mais nova uns três ou quatro anos…».
Por seu turno, o raio da rapariga não deixava de pensar em sentido inverso: «se o estafermo fosse mais velho quatro ou cinco anos não me escapava, assim, até parece meu filho..., porra de vida…».
Ele havia coisas complicadas!

***
Como já se viu, o António regressou a Petimão, a pé, trouxa às costas.
Passadas três semanas, primeiros dias do mês de Julho, foi à inspecção. Já tinha recebido o respectivo aviso que lhe fora levado, até às minas, pela mão da Maria Pequena, ainda se desconhecia, em absoluto, que as mesmas viriam a fechar tão de repente.
As inspecções realizaram-se num grande salão, na ala nascente do edifício do Mosteiro, onde funcionava a sala de audiências do Tribunal Judicial da Comarca. De todos os mancebos, que eram cerca de cento e cinquenta, apenas vinte ficaram apurados. Apesar de quase todo o mundo se encontrar em guerra, Portugal mantinha-se neutro e, por isso, não havia qualquer tipo de mobilização geral.

(Continua)


Eduardo Metrosídero

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