Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 04-10-2010

SECÇÃO: Opinião

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VANTAGENS COMPARATIVAS (128)
AQUELE NEGRILHO

Ele é a árvore mais antiga de todo o espaço público urbano da vila de Cabeceiras de Basto, muito em particular do jardim da Praça da República. Tem mais de cinquenta anos, bastante mais. Arriscar-me-ia a dizer que terá mesmo muito perto dos cem, deve ter feito parte do primeiro arranjo urbanístico da praça, ali por alturas da implantação da República.
Refiro-me àquele vetusto exemplar que se encontra mesmo em frente da Farmácia Barros. Muitos ainda se devem lembrar de que ele tinha um parceiro, ali bem próximo, um pouco para nascente, que morreu há relativamente poucos anos, talvez meia dúzia, ou nem tanto.
Fica-me a dúvida relativamente à palmeira que se encontra junto ao Posto de Turismo. Será ela mais antiga que o negrilho? Se houver alguém que possa esclarecer este pormenor agradece-se. Porém, na falta de melhor informação, assumo que o negrilho é o mais antigo.
Como curiosidade, e daí parecer pertinente a ideia de que os primitivos negrilhos a cujo grupo pertence aquele que aqui está a ser referido, e ainda ali se encontra de aparente boa saúde, cumpre-me referir que, consultando actas das reuniões do executivo municipal dos primeiros anos da República, se pode ler, exactamente na acta de vinte e seis de Abril de 1920, o seguinte: “…um requerimento de diversas damas da Praça da República pedindo licença para trazerem as suas aves domésticas na referida Praça…”.
Parece, efectivamente, que pelos anos de 1920, as galinhas, os perus e outras aves de capoeira deveriam poder andar a depenicar, em regime livre, ali pelo recinto da praça, que era, como se pode ver por fotografias da época, térreo, próprio, portanto, para ser esgaravatado.
Se os negrilhos mais antigos forem desse tempo, terão, como facilmente se conclui, mais de noventa anos. Fica, deste modo, provada a minha tese.
A praça tem passado, ao longo dos tempos, por diversas transformações de pormenor, tudo, porém, sem que lhe tenha sido alterada a forma geométrica geral, um triângulo, quase isósceles, com o vértice dos dois lados quase iguais apontando para a Raposeira.
Há uns vinte anos, ainda tinha um arruamento central, que partia do enfiamento do pelourinho em direcção à porta de acesso aos claustros. Este arruamento serviu de estacionamento aos carros de praça, hoje táxis, e mesmo ao estacionamento de particulares, passava pelo sítio onde hoje existe o chafariz.
Ainda com o formato antigo, e com os espaços entre canteiros em terra batida, com todos os negrilhos e lastroémias da anterior geração, assisti ali a dois grandes acontecimentos, dois grandes fenómenos de multidão.
O primeiro foi em Setembro de 1951, quando a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima visitou, pela primeira vez, o nosso concelho. Nunca se vira tanta gente junta na praça e arruamentos adjacentes. Naquele tempo, os arruamentos adjacentes eram as entradas e as saídas pelas estradas nacionais, o centro da vila era um entroncamento de duas vias estruturantes.
O segundo foi em Junho de 1959, quando o Presidente da República, Américo Tomás, eleito (havia quem dissesse que fora nomeado) em 1958, se propôs dar uma volta completa pelo país, visitando todas as sedes de concelho. Este acontecimento, em termos de multidão, foi ainda superior ao da vinda da imagem peregrina da virgem de Fátima.
Aos olhos do povo daquele tempo, e muito naturalmente que também o seria aos olhos do povo de hoje (porque não?), verdadeiramente espectacular, foi a exibição dos batedores da polícia, conduzindo potentes motos, em pé, apenas apoiados nos estribos ou pousa pés. Não menos espectacular, foi a partida de jogo de pau, executada pelo grupo de jogadores daquela modalidade da freguesia de Bucos, no meio da estrada, na curva que ficava entre a escadaria do Pelourinho e o limite poente da Praça.
Actualmente, o efectivo arbóreo de maior porte, de todo aquele recinto de domínio público, é constituído por quarenta e uma lastroémias, que sempre oferecem um colorido de rara beleza no mês de Agosto e princípios de Setembro, quando todas se encontram em flor, seis tílias, duas magnólias, sendo uma da variedade tulipeiro, um grande conjunto de japoneiras, sendo três já crescidas e as restantes, cerca de vinte, ainda muito jovens, tudo, para além da palmeira.
Os negrilhos são nove. O veterano, de que aqui se vem falando e fica em frente da Farmácia Barros, tem resistido ali, naquele lugar, a todas as remodelações levadas a cabo na Praça, ao longo de quase uma centena de anos. Depois, há mais oito, todos jovens, plantados há pouco mais ou menos uma meia dúzia de anos. Seguindo o exemplo dos antigos, que vieram substituir, sete fazem sombra aos bancos dos dois maiores canteiros centrais. O oitavo, esse encontra-se isolado e fora do enquadramento normal dos restantes, fica, um pouco mais ou menos, a meio do canteiro mais a poente. Nota-se a falta de um no vértice nascente/sul do canteiro que dá de frente para a Pensão do Fundo (Pensão do Fundo, nome antigo, é bom não esquecer!).
O negrilho velho, o que se encontra em frente da Farmácia Barros, ainda me traz à memória a presença de três homens, três homens bons da nossa vila, que na década de setenta do século passado, já todos reformados, passavam por ali parte das suas tardes, sentados no banco que lhe ficava por baixo, de Verão apreciavam a sombra e de Inverno saboreavam os raios solares que rasavam a encosta das Acácias.
Estou a falar do Senhor Mário dos Tabacos, do Senhor Abel Carteiro e do Senhor Ernesto do Pinheiro. Três bons contadores de histórias e óptimos comunicadores de elementos válidos de reflexão.
Parafraseando um popular apresentador de programas de televisão, eu também vivi alguns momentos de felicidade à sombra dos velhos negrilhos. Sob os novos, à sombra destes que agora povoam os dois canteiros circulares centrais, também já usufrui de um pequeno mas significativo momento de felicidade. Aconteceu no passado dia trinta e um de Agosto, quando tive a oportunidade de trocar algumas impressões sobre os meus escritos com os dois apresentadores de serviço do Programa da RTP Verão Total, a Serenela Andrade e o Hélder Reis.
Também ali estiveram o Roberto Leal, o Grupo de Cavaquinhos da Raposeira, o Grupo dos Jogadores de Pau de Bucos, juntamente com muitos outros convidados, artistas e muito povo. Aquele povo que: “lava no rio e talha com o seu machado as tábuas do meu caixão”.
(Pedro Homem de Melo)!

Por: José Costa Oliveira

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