Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 13-09-2010

SECÇÃO: Correio do Leitor

O MOLEIRO ADELINO MACHADO

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D. Fernanda

Como combinado pelo telefone há tempos de eu enviar um texto para assinalar os 100 anos de nascimento do meu pai, só agora me foi possível.
Eu liguei há dias e, como não estava, pedi para me registar como assinante do Ecos de Basto porque assim, tenho sempre notícias da minha terra.
Sem mais, as minhas desculpas por toda esta maçada e, espero, que tenha tido umas boas férias na companhia de todos os seus.
Termino respeitosamente com um muito obrigado.

Nasceu a 07/10/1910, em Valflores: lá viveu com os pais até casar. O pai morreu cedo. Passou a ser cabeça de casal (como se dizia dantes). E como mais velho dos irmãos ajudou a mãe a cria-los (eram 8). Casou com mais de vinte anos e foi viver para a moagem da ponte de pau; uma moagem de duas rodas. Foi sempre moleiro, mas os filhos começaram a vir, e quando já eram quatro, e com casa de moagem pequena, mudou-se para a moagem da fábrica; dizia que os filhos tinham de começar a trabalhar, porque entretanto nasceu outro filho e a moagem embora de seis rodas tinha pouca água, e por isso moía pouco. Mudou-se então para a moagem do Banido: também tinha Seis rodas a moer e ainda tinha terras a cultivar, porque assim ensinava os filhos na moagem e na lavoura.
Esteve lá 3 ou 4 anos: entretanto nasceu outro filho, mas como a renda foi aumentada começou a ser muito caro e então mudou-se para a moagem dos moinhos novos com seis rodas, com terras para cultivar, mas aqui a renda era mais barata e moía mais.
Mandou o filho mais velho servir para o batôco e a rapariga servir para o Porto e foram os primeiros a sair de casa.
Quando pelo Natal os juntava à volta da lareira a consoar, era um dia muito feliz para ele e era-mos nada menos que nove, era um pai pobre mas muito feliz. Às refeições pegava na enfuza de vinho e dava primeiro aos que já bebiam e depois bebia ele e a mãe.
Mais tarde mudou-se para outra moagem mas só de quatro rodas e até já não tinha terras para cultivar e os filhos mais velhos tinham ido ganhar a vida (ficou só com três em casa).
A moagem era na Ranha freguesia de Abadim, mas ao fim de ano e meio fez a última muda e foi para Pedraça lugar da Ponte Velha, de seis rodas e muita água para moer e ainda tinha terras para cultivar, mas esta moagem foi a última e onde encontrou melhor patrão.
Um dia chegou ao fim do mês e não tinha dinheiro que chega-se para a renda, foi a Parada pagar mas com pouco dinheiro e disse ao patrão:
- Patrão, tenho de ir embora não tenho trabalho e a moagem dá pouco por isso não ganho para a renda. O patrão mostrou-lhe ser um homem puro e disse-lhe:
- Não vais nada embora diz quanto podes pagar.
- Eu queria pagar o menos possível.
Como a renda era cem escudos por mês e o meu pai disse que podia pagar pouco. E o patrão disse que ficava por 50 ou 60 escudos por mês. O patrão nesse mês já só aceitou a nova renda, assim ainda trouxe dinheiro para casa. Isto é que se chama um patrão bom, que para além de baixar a renda nos últimos anos de vida nem pagou nada (segundo consta) os últimos anos. Morreu na Ponte Velha de Pedraça e foi sepultado em jazigo de família no cemitério local.
Mas os nove filhos (3 já falecidos ) não o esquecem, nem esquecem o último patrão pelo que fez pelo pai.
Eu aproveito para contar aqui uma passagem entre nós dois. O meu pai contou ao patrão que tinha um filho preso na guerra na Índia e quando eu voltei o meu pai disse-me o seguinte:
- Vai a Parada que o patrão quer te ver.
E como eu não conhecia o patrão disse que não ia lá. Foi hora em ponto e ele obrigou-me a lá ir e logo no mesmo dia de tarde: era bom pai mas de respeito e disciplinar: obedeci e fui lá mesmo.
Este texto é uma forma de homenagear o pai que fazia agora em 7/10/2010, 100 anos se fosse vivo.
Um obrigado a todos os leitores da história do meu pai.

António Magalhães Machado

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