Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 13-09-2010

SECÇÃO: Recordar é viver

COLÉGIO DE S. MIGUEL DE REFOJOS

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Cabeceiras de Basto, Setembro de 1947

Chegaram-me às mãos há dias, através da senhora professora aposentada, D. Irene Queirós Gomes Gonçalves, uma das filhas do saudoso “Abilinho das Fazendas” do Campo do Seco, umas revistas muito interessantes. Nem de propósito! Um grupo de ex-alunos do Colégio de S. Miguel, está a organizar um almoço convívio entre alunos e professores ainda vivos que frequentaram este estabelecimento de ensino entre os anos de 1959/1969, sob a direcção do senhor Padre Domingos Apolinário.
Estas revistas datam dos anos 1945/1947. Falam sobre a abertura do Colégio ao público precisamente no dia 29 de Setembro de 1944. Falam, entre outras coisas, sobre a obra, o proprietário e sócio do Colégio, José Gonçalves Ferreira, os directores e os professores daquela época.
Dei uma vista de olhos a todos e achei interessante este que abaixo vos vou transcrever pois aborda os regulamentos, o Corpo Docente, o Conselho Escolar, os Assistentes Disciplinares, os Alunos, a Caixa Escolar, enfim fala sobre os deveres e as obrigações e principalmente sobre as regras exigidas para o bom funcionamento deste tão importante “centro de educação” mesmo que naqueles anos não fosse acessível a toda a gente.
Foi interessante saber que o Colégio fez a sua abertura ao público no dia 29 de Setembro de 1944, precisamente no dia do nosso Padroeiro de S. Miguel. Este livro tem várias imagens entre elas há uma enorme do Colégio ainda com os azulejos. Há também fotos do Senhor José Gonçalves Ferreira, homem com grande visão, que fez, na minha humilde opinião, um grande bem a Cabeceiras de Basto e a outros concelhos vizinhos, assim como do director da altura, um senhor chamado Manuel Pinto Soares. No Colégio de S. Miguel havia estudantes de todos os concelhos em redor. Pelo menos de Celorico de Basto eram bastantes.
O Colégio no dia da sua abertura ao público, 29 de Setembro de 1944
O Colégio no dia da sua abertura ao público, 29 de Setembro de 1944
Devo dizer que não é do meu tempo a abertura do Colégio. Nasci alguns anos depois.
E, continuando, olhei para este livrinho e pensei! Porque não transcrevê-lo na minha crónica trissemanal para que, aqueles que ainda estão vivos e, são do tempo em que o Colégio abriu, possam recordar com saudade aqueles longínquos tempos que, certamente, foram anos felizes apesar de serem tempos muito “regrados” em questões de dinheiro. Nos tempos de hoje quase todos os jovens possuem mesadas e quando chegam aos dezoito anos e a estudar, a maior parte possui viatura própria. Eu sei, porque também o meu filho que hoje é pai de família, quando andava a estudar para ser professor, emprestava-lhe o meu carro, que nem novo era, para ir às aulas numa cidade próxima e vim a descobrir mais tarde por fotografias encontradas que, ele até fazia corridas ou rally – papper. O Manuel Carneiro, meu filho ainda me dizia a rir que o carro é que puxava bem e na neve, na recta de Fojos, nem derrapava, agarrava muito bem à estrada. Tudo isto para dizer que os tempos dos estudantes de antigamente comparativamente aos tempos de hoje é como do dia para a noite.
Vou deixar de fazer estes considerandos e vou aproveitar o espaço para fazer a transcrição deste livrinho que achei curioso com as suas regras , a sua orientação e o regulamento. Certamente não vai caber todo neste jornal mas vou dividi-lo em duas partes.
Então com a devida vénia
Colégio de S. Miguel de Refojos
O Fundador e Proprietário do Colégio, José Gonçalves Ferreira
O Fundador e Proprietário do Colégio, José Gonçalves Ferreira
Algumas palavras, Base de Orientação e Regulamento Geral
Telefone: 517 – Cabeceiras de Basto de 1947

DA NOSSA OBRA

Como surgiu o Colégio de S. Miguel de Refojos, nesta vastíssima região de Basto na sede deste concelho, já tão afastada do seu centro, é já do domínio do grande público, e deve-se ao esforço de um homem de boa vontade e ao sacrifício de outros que o têm acompanhado de perto nessa obra.
A afirmá-lo, dar-lhe raízes sólidas, a criar-lhe todas as condições da sua vida futura, está a reconhecida necessidade do meio de instruir os seus filhos e o cuidado que a Direcção tem posto na selecção do seu corpo docente.
Mas, acima de tudo isto, parece haver uma causa do passado que impele esta obra para a sua finalidade: a acção preponderante que o Mosteiro dos Beneditinos ocupou nas letras no norte de Portugal.
Surge, muito mais tarde, a criação do Liceu Municipal, devida ao esforço desse grande benemérito que foi Gomes da Cunha, o sonhador do ensino agrícola nesta região. Depois, como projecção dessa força antiga, é lançada a ideia do actual Colégio que vai iniciar o seu quarto ano de existência, sempre numa actividade crescente de ensino e de progresso sem se preocupar demasiado com os pequenos obstáculos que têm surgido.
Os seus resultados estão bem patentes ao grande público; estão nitidamente documentados pelas entidades oficiais que têm reconhecido e admirado a nossa tenacidade e o nosso escrúpulo de bem servir a grande causa do ensino e educação.
O Fundador e  Professores com a 1ª geração de estudantes do Colégio,  a partir de 1944
O Fundador e Professores com a 1ª geração de estudantes do Colégio, a partir de 1944
São horas, é preciso dizê-lo aqui claramente, que todas as pessoas de bem desta região de Basto, manifestem por factos a sua adesão clara a esta obra. Venha pois esse bairrismo sadio animar mais ainda a projecção desta obra para o futuro.
Propositadamente só agora fazemos este apelo, porque nada há a recear a continuidade do nosso Colégio e nada há a duvidar dos seus resultados.
Quando alunos e alunas, já de longes terras vêm frequentar esta casa de ensino, não se explica, que uma ou outra família teime em trazer os seus filhos noutros colégios, onde os resultados não têm ultrapassado os ossos.
Quais as causas? Santos da porta não farão milagres?
Seja como for, o nosso apelo tem apenas em vista o sermos por Cabeceiras e só por Cabeceiras. Não contamos com esses para o aumento da nossa frequência que, de ano para ano, se vai desenvolvendo normalmente.
O ano findo, nos seus resultados, não trouxe surpresas para nós, nem para as pessoas bem formadas; surpreendeu porém, pungentemente, aquelas que de má fé espalharam profecias, filhas do seu engenho e inteligência.
Quando as profecias são criadas pelo mesmo génio inventivo que espalhou que o Director deste Colégio se banqueteava em hotel de primeira e tinha aposentos de primeira ordem à custa dos alunos, nada há que recear.
As profecias, felizmente não se verificaram; e o director foi surpreendido – pelos pais de alguns alunos – numa casa modesta, dormindo numa cama estreita ao lado dos seus alunos.
Assim procede quem bem quer servir.
Aqui deixamos esta resposta que será última só para por mais em destaque a nobre atitude desta boa gente, que vê o seu Colégio a obra de fins claros e de grande utilidade para os seus filhos. Que estejam bem certos todos os Cabeceirenses e todos os povos desta região, que o nosso Colégio não funciona apenas como instrumento lucrativo, mas acima de tudo, como elemento lucrativo, mas, acima de tudo, como elemento de formação moral e intelectual e ainda enquadrado no bairrismo destas terras que deve ser cantado e apregoado a todas as terras de Portugal.
Milagres, evidentemente, não podemos fazer; mas é de registar que a maioria esmagadora dos alunos deste Colégio é de modelação simples, de inteligência regular e de qualidade morais magníficas.

(Continua)
fernandacarneiro52@hotmail.com

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