Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 23-08-2010

SECÇÃO: Crónica

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Centenário da República Padre Domingos, um Anti-Republicano activo

Caros leitores
No momento em que estou a escrever estas palavras, encontro-me a gozar as férias a que tenho direito. Tinha decidido que também iria fazer uma pausa nos meus escritos, pelo menos num dos jornais, por exemplo este que, é o número trezentos e setenta e um. Devo confessar que tinha isso decidido e não me preocupei mais com o assunto.
Só que aconteceu o seguinte; ao percorrer os e-mails recebidos e que ainda não foram apagados dei com um que me foi dirigido gentilmente pela D. Maria Manuel, esposa do Dr Carlos Ramalhão, cardiologista que esteve aqui em Cabeceiras de Basto a convite do senhor Presidente da Câmara, Joaquim Barreto. Esta simpática família é descendente directa do Padre Domingos Pereira de quem hoje tanto se fala devido à aproximação das Comemorações dos cem anos da República, a terem lugar no próximo dia 5 do mês de Outubro. Após hesitar se “escrevo ou não escrevo”, o vício de escrever venceu. Como tinha a autorização para utilizar os e-mails, resolvi transcrevê-los porque achei interessante a ligação ao Padre Domingos Pereira. Não escondo de ninguém o interesse pela vida deste personagem, o Padre Domingos que, não sendo oriundo desta terra, veio revolucioná-la com as suas lutas anti republicanas. Um homem que afrontou a Igreja, renegou os seus juramentos de obediência às leis de Deus e da Igreja, chefiando grupos de homens dispostos a morrer ou a matar. Mataram alguns republicanos mas, segundo reza a história morreram muitos mais monárquicos. Aqui, em plena Praça da República foi morto o representante da República do Estado, o Administrador Mendonça de Barreto que veio de Aveiro chefiar os destinos de Cabeceira de Basto. Foi morto pelas mãos do Padre Domingos, ou pelo menos ao seu mando embora, um ou outro familiar me tenha confidenciado que não foi bem assim, já que os homens a seu mando estariam a treinar com armas em tiros aos pombos, em Conselheiros e que o homem (Mendonça de Barreto, de Aveiro) teria apanhado um tiro por acidente. Ora, está mais que provado, e até se vê pelas fotos que vêm na revista “O Século” da Ilustração, a cruz a assinalar onde o corpo do infeliz caiu. Ora a arma que o matou segundo reza a história (e a revista) partiu da antiga pensão da “Escacha”. Naquele tempo as armas ainda não eram teleguiadas. Para quem não sabe onde fica a Pensão da “Escacha” é a seguir a duas ou tês casas da antiga Pensão Cabeceirense (do Dominguinhos) para o lado do Mosteiro. Estes dados tirei-os de documentos da época.
O revolucionário monárquico Padre Domingos Pereira
O revolucionário monárquico Padre Domingos Pereira
Mas, voltando atrás nos meus considerandos que é falar nos e-mails recebidos desta família que sempre me fascinou e me permitiu dar asas à minha imaginação vou transcrever na íntegra estas duas cartas sendo uma dirigida a mim e outra a Maria Manuel Ramalhão pela sua tia Maria Eduarda, de noventa anos, sobrinha da D. Glória da Raposeira, que eu conheci muito bem desde menina e que morreu já eu estava casada. Era mãe do conhecidíssimo Lidinho da Touça, muito conhecido e que, foi durante anos funcionário da Câmara de Cabeceiras de Basto.
Então com a devida vénia


“D. Fernanda,
Estive ai em Maio passado e entrei em contacto telefónico com a senhora para lhe dar conhecimento de alguns factos que penso lhe poderão interessar uma vez que se relacionam com uma personagem ilustre de Cabeceiras: o Padre Domingos Pereira.
Há dois anos o meu marido Carlos Ramalhão, cardiologista, foi a convite do Sr. Presidente da Câmara, Eng. Joaquim Barreto, fazer aí a Cabeceiras uma sessão de informação sobre doenças cardíacas e sua prevenção e por essa ocasião amavelmente ofereceu-se para nos fazer uma visita guiada por si a alguns lugares de Cabeceiras de Basto, inclusivamente ao cemitério porque eu sabia através de minha tia Maria Eduarda que existia aí um jazigo da família Pereira Leite, que eu gostaria de visitar.
Para minha grande surpresa no jazigo havia uma placa em memória do Padre Domingos. Contactei a minha tia a quem emprestei o seu livro “Albúm de Recordações” que adquiri quando dessa visita e ela, uma senhora que tem 90 anos, depois de o ler escreveu-me a carta que anexo. Quando falamos ao telefone pedi-lhe se ela teria fotografias desses tempos, mas acontece que ela recentemente foi viver para Coimbra e na mudança as fotos desapareceram. De qualquer modo gostaria que ficasse na posse destes dados que eventualmente lhe poderão ser úteis.
Ao centro o Padre Domingos Pereira  rodeado por amigos com a mesma ideologia política
Ao centro o Padre Domingos Pereira rodeado por amigos com a mesma ideologia política
 A minha tia chama-se Maria Eduarda de Sousa Pereira Leite e era filha de Jaime de Magalhães Pereira Leite, meu avô, e de uma irmã da senhora que viveu com o Padre Domingos.”
Fico à sua disposição para qualquer dúvida que tenha,
Atenciosamente
Maria Manuel Ramalhão

……
Maria Manuel,
Os dados que encontrei neste livro são os seguintes: O tio Zé Maria, casado com a irmã mais velha do teu avô, tia Laura, era irmão do Padre Domingos.
As meninas Mariazinha e Leonilde eram, entre outros irmãos, filhas do tio Zé Maria, nossas primas e sobrinhas do Padre Domingos. (págs. 129, 130 e 136).
Curiosamente quando o Padre Domingos deixou a Igreja e portanto deixou de ser padre, foi viver com uma senhora que era irmã da minha mãe, imagina que só agora eu soube disso. Foram 63 anos de vida conjugal de quem teve vários filhos. Essa senhora  chamava-se Valentina.
Eu só conheci uma das filhas que era a Tildinha ou seja Clotilde, senhora já casada com um coronel do exército e que foi Presidente da Câmara de Cabeceiras de Basto. Esta não tinha filhos e era rica, a mamã até dizia que ela me ia deixar qualquer coisa.
A antiga casa da D. Glória, cunhada dos monárquicos Padre Domingos, Padre Manuel e José Maria Pereira, mãe do conhecidíssimo Lidinho da Raposeira. Hoje esta casa pertence a um particular
A antiga casa da D. Glória, cunhada dos monárquicos Padre Domingos, Padre Manuel e José Maria Pereira, mãe do conhecidíssimo Lidinho da Raposeira. Hoje esta casa pertence a um particular
Fui com a tua mãe participar-lhe o meu casamento e deu-me 2.000$00 que naquela altura era bastante, pois foi em 1941.
Sei que ele teve netos e uma neta  que vive em Guimarães e se chama Valentina Paula, era uma grande admiradora  do avô, por essa razão a senhora  que escreve este livro pôde falar tanto do Padre Domingos.
Pelo que li no livro ele foi sempre muito estimado.
O Lidinho era o nosso primo Ilídio, filho da tia Glória irmã do Avô, que ficou, por morte da mãe, na Casa da Raposeira que dizes lembrar dela e foi isto que eu descobri.
Como vivi em pequena com a tia Glória, ao ler o livro vêem-me à mente certos nomes de casas fidalgas como a Casa de Alvite, a Casa do Isqueiro e é tudo.
Uma beijoca da tia
Eduarda

fernancarcarneiro52@hotmail.com
































Por: Fernanda Carneiro

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