Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 23-08-2010

SECÇÃO: Opinião

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FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…
CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

UMA REUNIÃO…IMPORTANTE
A “Visita de Condolências” tornou-se numa reunião…importante do partido progressista local, a que se juntaram “nacionalistas e adventícios”. O local da reunião foi “um illustre solar de velhas tradições legitimistas”, ou seja, a Casa de Cortinha, em Cavez. Presidiu à Assembleia “um ilustre causídico”, ou seja, o Dr. António Coelho de Vasconcellos, “secretariado pelo padre Cidrós e padre Pina” (Pe A.M. Vilela, da vila e o pároco de Painzela). O assunto a debater era “A Santa Coligação” partidária para, como de costume, inviabilizar o governo do partido regenerador.
Neste desígnio teria usado da palavra “o ilustre e abandonado chefe do partido progressista local” e ainda “D. Ordonho, coadjutor do aposentado chefe e attencioso servidor das damas”.
O escrivinhador do “Jornal de Cabeceiras”, (que estaria metido dentro dum armário) terá registado as palavras de D. Ordonho e deu-nos um resumo: “Imponentíssimo e conselhável se apresentou, não só nos bellos conceitos que soube expor à assembleia, mas também na correcção e aprumo de sua toilette, da qual apenas se destacava no conjunto de irreprehensível elegância, uma sobrecasaca cossada, virada e revirada, que S. Exª expoz, ao reparo que alguém notou, ser a mesma ainda que havia usado no tempo do fallecido e saudoso Dr. Jeronymo Pacheco; que virou no consulado progressista; que revirou no consulado franquista; e que agora tão bem se lhe ajusta na actual colligaçao”.
O escondido localista não deixou escapar o padre Cidrós:
“Cidrós, com phrases ásperas e duras, verberou o Senado Cabeceirense; pediu para elle o Santo Offício, a guilhotina e a forca; não se esquecendo de lembrar que era preciso introduzir nas leis industriais a reformar, um artiguinho que prohiba expressamente o depósito de cadáveres no chão ou em urnas fornecidas por quem não seja armador de nascença. (vide Novo Estabelecimento).
O Padre Pina: “num repto oratório, declarou que estava alli; que viera alli, e que se conservava alli; porque era padre; porque era homem; porque era gente; porque era Pina”.
Interveio ainda na reunião “um alentado e bojudo reverendo das margens do Tâmega” que “lembrou a necessidade de ser reformada em parte a lei da décima de juros, introduzindo nella a indispensável disposição do juro legal passar a 20 por cento e a respectiva contribuição ficar a cargo dos devedores”.

AS NOVAS ELEIÇÕES

As eleições legislativas foram marcadas para 28 de Agosto. O Partido Regenerador entendeu jogar todos os trunfos para obter uma vitória clara. Todos os restantes partidos se juntaram numa estranha coligação. O Partido Republicano também resolveu jogar em força, ainda que o sistema eleitoral vigente lhe travasse os passos. Datava este sistema desde 8 de Agosto de 1901 e era conhecida pela “lei da ignóbil porcaria”. Criara 26 círculos eleitorais (continente) divididos de tal maneira “ que o objectivo (…) era tentar afogar os votos urbanos - de possível tendência republicana ou ultraliberal - com os disciplinados votos rurais” (Ol.Marques). O distrito elegia 8 deputados, numa lista de 6 nomes e 2 numa lista de minoria.
O concelho de Cabeceiras estava incluído no círculo nº 3 (que abrangia o distrito de Braga) e as eleições tinham lugar em Refojos, Pedraça e S. Nicolau. Para Refojos tinha sido designado como representante do governo Serafim de Paula Bastos. O solicitador Teotónio Falcão vigiaria o acto em Pedraça e em S. Nicolau o representante era o farmacêutico Francisco Maia, um dos raros republicanos cabeceirenses.

UMA SURPRESA?

De repente, o Pe Domingos Pereira é nomeado administrador interino do concelho de Fafe. Substitui o administrador Artur Vieira de Castro. Em Cabeceiras é nomeado administrador interino o Dr. Franklim Basto, clínico municipal.
Porquê esta nomeação do Pe Domingos para Fafe? O Partido Regenerador precisava de ganhar estas eleições. O concelho de Fafe era um feudo progressista. O padre já tinha sido administrador daquele concelho e nele tinha grangeado muitos amigos. Era preciso que Fafe votasse “regenerador”. O padre consegui-lo-á?

ATAQUES AO GOVERNADOR CIVIL

A figura do Dr. Francisco Botelho, chefe distrital do Partido Regenerador, incomodava não só os progressistas cabeceirenses como os do distrito. O semanário progressista “O Distrito de Braga” afirmava que o governador civil não era tido em grande conta na sua freguesia de S. Nicolau, de tal modo que teria perdido as eleições para vogais da Junta no seu torrão natal. “O Povo de Basto” fez-se eco da notícia – falsa como Judas – pois os regeneradores só tinham perdido em “Bucos” e em “Vila Nune”, tendo ganho nas restantes paróquias.
Também se afirmava que a política do governador era “nefasta” a que o semanário regenerador respondeu que esta insinuação se devia “unicamente, porque conseguiu, após a subida do governo, uma verba importante para as estradas de Salto e Fermil, que o ministério anterior tinha votado ao ostracismo e ainda porque não quis patrocinar uma professora negligente e rebelde aos mandados da Câmara Municipal”.
E aproveitava-se a ocasião para noticiar que o Sr. Gaspar J. Gonçalves d’Almeida, “importante vulto político da freguesia de S. Nicolau”, abandonara o Partido Progressista e se filiara no Regenerador. Também o “Progresso de Mondim” recebia parabéns por ter mudado de orientações. Ainda no nº anterior tinha sido anunciado o seu reaparecimento com o rótulo de franquista…


NOVOS JUÍZES DE PAZ

O meritíssimo juiz de direito da comarca nomeou para o biénio de 1910-1911 os seguintes juízes de paz:
Arco – José António Moutinho
Bucos – Adriano Leite d’Araújo
Cavez – António Camilo de C. P. Pereira Leite
Refojos – José Leite da Silva Mendes
A nomeação do juiz de paz de Cavez não caiu bem no “Povo de Cabeceiras”, afirmando que esta nomeação era iniciativa dos regeneradores locais. O “Jornal de Cabeceiras” respondia, estranhando “que o “Povo” não saiba que a nomeação dos Juízes de Paz competia ao juiz de direito da comarca”.


CADEIA…ÀS MOSCAS

“O último inquilino, menor de 14 anos, bateu as azas e fugiu pelas grades”.


CASAMENTO

A Igreja de Canedo (Celorico) registou o casamento do Sr. Aurélio da Silva Mendes, professor oficial da escola de Pedraça, com D. Rachel Saavedra, igualmente professora em Canedo.

REGRESSANDO
DO
BRASIL

Tinha chegado do Brasil a S. Nicolau o Sr. Manoel José de Carvalho. Tinha ido para o Brasil em 1907, acompanhado de sua esposa que faleceu a bordo, nessa viagem. O regressado era filho de Augusto José de Carvalho, de Gondarém.

Também regressou o Sr. José Bacelar Pereira Leite, de Chacim, que agora fixou residência no Porto. Tinha ido pobre, angariou uma grande fortuna que, nos últimos tempos, vira reduzida enormemente pela falência d’algumas casas bancárias.

A Chacim regressou também o Sr. José Ferreira Pinto Basto.

A S. Nicolau regressou o Sr. José d’Araújo Oliveira Bastos, abastado capitalista.

De visita a Asnela de Riodouro, sua terra natal, tinha chegado o Sr. António Gonçalves Possas, “chefe da importante casa comercial do Rio de Janeiro, “Gonçalves Possas & Cª.” “.

FALECIMENTOS

Falecera D. Joaquina Leite Pacheco, esposa do Sr. Júlio Pereira Leite. Senhora ainda nova, fora vitimada pela varíola que grassava há algum tempo no Arco de Baúlhe, onde residia. A finada era irmã de Alfredo e Avelino Leite Pecheco e de Joaquim Pacheco Moreira.

Em Vila Boa de Bucos tinha falecido o Sr. António Gomes, irmão do Sr. Custódio Gomes, da conhecida Casa do Cabo.

Em S. Nicolau falecera Manuel Martins Mota de Barros, “venerado vulto do partido regenerador”. Tinha sido Presidente da Câmara.

NOVO ESTABELECIMENTO

Sempre atentos às oportunidades comerciais, quatro dignos comerciantes da praça juntaram-se e montaram na Praça Barjona de Freitas uma “empresa de funerais” de que a principal peça era “uma elegante banqueta ou eça doirada, de requintado gosto artístico”.
Os comerciantes em causa eram Domingos José de Magalhães Bastos, António José Rodrigues Basto, João Cândido Moreira e Joaquim Lopes de Sousa. No entanto os introdutores da “eça” nas cerimónias fúnebres, Pe Pina de Painzela e Pe Vilela, da Vila, não gostaram muito pelos motivos que os leitores já sobejamente conhecem.


PELAS FREGUESIAS

CAVEZ
Estava a concurso a Escola Feminina de Cavez.

PAINZELA
Estava a concurso a Igreja Paroquial de Painzela.

S. NICOLAU
Benfeitores da paróquia tomaram a seu cargo as obras de reparação da capela de Santo António. As obras orçavam em 300,000 réis.

REFOJOS
A seu pedido, foi exonerado do cargo de professor ajudante da escola primária masculina da vila o Sr. Manuel d’Azevedo Barroso. Para o substituir, estava aberto o respectivo concurso.

Apelava-se à Junta da paróquia que mandasse reparar as sepulturas “que se encontram à entrada principal do nosso majestoso templo”.

Por: Francisco Vitor Magalhães

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