Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 23-08-2010

SECÇÃO: Opinião

CONTOS DA SERRA E DOS VALES
A CAMINHO DAS MINAS

(Continuação-10)
O primeiro dia de trabalho do António, numa das frentes da mina do grupo A, lá em baixo, no andar que ficava a mais de cem metros de profundidade, terminou, graças a Deus, sem qualquer problema digno de registo. Às seis da manhã do dia seguinte àquele em que ali chegara, e depois de dez horas agarrado a uma pá a lançar escombros para cima das vagonetas, subiram no interior da mesma jaula que os tinha levado para baixo, até à superfície, já se via o sol vindo lá dos lados de Salto. Estava-se no mês de Junho, os dias eram os maiores de todo o ano e o sol nascia muito cedo.
Passaram pela cantina, comeram a refeição que sempre havia disponível àquela hora, era a hora de saída de turno, uma sopa bem quente e de substância, um prato de massa com feijão branco e alguns pedacitos de toucinho, um pão de trigo e uma tigelinha de vinho. Aqui, o vinho era servido em tigelinhas, tal como era uso em várias localidades da Província do Minho, muito particularmente em Braga e arredores.
O nosso rapaz, sempre acompanhado pelo amigo de Sobradelo da Goma, comeu a refeição e subiu à caserna dos quartos novos, deitou-se em cima da tarimba, uma manta por cima e outra por baixo, a servir de lençol, adormeceu de imediato. O amigo também se deitara e adormecera, mas, sendo pessoa já com mais de quarenta anos, acordou ao fim de quatro horas de sono, levantou-se, verificou que o rapaz dormia a bom dormir, fez os possíveis por não acordá-lo, e foi sozinho tomar a refeição do meio-dia.
De seguida, e como era seu hábito, dirigiu-se para o espaço de estar do pessoal e passou mais de três horas a jogar a sueca com três dos parceiros de turno, todos a rondar os quarenta e os cinquenta anos de idade.
Às quatro da tarde, quando já estava saturado da sueca, pensou: «o diabo do rapaz ainda não apareceu, ou não tomou tento na direcção do caminho cá para baixo, ou ainda está a dormir; o melhor será ir até lá acima ver se ainda dorme e então acordá-lo, caso contrário, nem come nem se avia a tempo de entrar ao trabalho na hora do turno». Assim fez, despediu-se dos parceiros da sueca e subiu até à caserna.
Ali chegado, reparou que o jovem de Petimão ainda resfolegava a plenos pulmões. Tocou-lhe ao de leve num dos joelhos, ele deu meia volta e pareceu que poderia continuar a dormir até ao dia seguinte, de manhã. Então, o amigo tocou-lhe com mais força, agora nas costas:
- Desculpa lá, meu rapaz, mas olha que vão sendo horas de acordares…
- Eh, Senhor António, que horas são?
- São quase cinco, e não te esqueças de que, o mais tardar às sete menos um quarto, temos que estar junto da entrada do poço do grupo A, para tomarmos lugar na jaula.
- Pois é, eu dormi demais. O Senhor sabe, eu estava mesmo cansado, em boa verdade não estava habituado a este tipo de trabalho, mas deixe lá que depressa me vou habituar – ao mesmo tempo que saltava da cama, enfiava as calças e as chancas e perguntava – e comer? Onde é que posso comer alguma coisa, Senhor António?
- Prepara-te que descemos os dois e comemos na cantina a nossa refeição principal, como já o fizemos ontem, ou já não te lembras?
- Ah, lembro sim. Está bem, muito obrigado.
Seguiu-se mais um dia de trabalho, o segundo, depois o terceiro e outros mais, até ao fim da quinzena. Nesta primeira quinzena, e dado que tinha começado a trabalhar ao segundo dia, fez onze dias de trabalho que multiplicados por catorze, o respectivo salário diário, deu cento e cinquenta e quatro escudos. Uma vez que trabalhara no turno da noite, apenas recebeu na segunda-feira seguinte, logo pela manhã. Ao ver as notas e as moedas na mão, exclamou para o amigo:
- Graças a Deus, Senhor António, só nestes dias, já ganhei mais do que o valor que dá um dos anhos do rebanho do meu pai, vendido lá na feira do Campo do Sêco!
- Que Deus te ajude e que continues a trabalhar aqui com saúde e sorte, sem que nos caia nenhuma derrocada em cima dos capacetes.
- Deus queira, Senhor António.


***

O minério retirado do fundo das minas da Borralha, tal como o de muitas outras espalhadas por todo o país, era exportado para os países que dele precisavam para a indústria do armamento. A maior parte seguia para a Alemanha nazi. O governo português tentava a todo o custo manter uma política de neutralidade, dando-se bem com todas as partes, e vendendo o produto das minas sem sobressaltos de maior. Porém, no início do ano de 1944, o governo inglês impôs uma espécie de bloqueio, os ingleses não se coibiam, de modo algum, de impor bloqueios aos portugueses.
Em 24 de Março, o Primeiro-Ministro britânico, Winston Churchill escreveu mesmo uma carta pessoal ao Prof. Oliveira Salazar, alegando cláusulas da velha aliança anglo-inglesa e apontando a pouca probabilidade de uma qualquer retaliação por parte da Alemanha, dado que este país já se encontrava numa situação desvantajosa em termos militares e que, portanto, deixara de constituir grande ameaça para a soberania portuguesa.

(Continua)

Eduardo Metrosídero

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