Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 02-08-2010

SECÇÃO: Opinião

CONTOS DA SERRA E DOS VALES
A CAMINHO DAS MINAS

Por: Eduardo Metrosídero
(Continuação - 9)
- E o seu pai, que idade tem o seu pai? – perguntou ainda o Senhor António, já depois de lhe ter indicado o beliche mais apropriado ao lado do seu.
- O meu pai tem quarenta e três anos e a minha mãe tem quarenta e dois, o meu pai nasceu em 1900 e a minha mãe em 1901…
- Olha, não te importas que te trate por tu?
- Não senhor, até prefiro, não me sinto bem a ver um homem que deverá ter mais ou menos a idade do meu pai a tratar-me por você.
- É, eu sou quase da idade do teu pai, tenho quarenta e dois feitos há menos de um mês, faço anos a treze de Maio que é o dia de Nossa Senhora de Fátima. Eu costumo dizer que ela apareceu neste dia, aos três pastorinhos lá na Cova da Iria, em honra da minha própria pessoa… - soltou uma sonora risada e o rapaz riu-se também.
Continuou:
- Bom, nada de graças parolas, todos os dias me recomendo à protecção de Nossa Senhora de Fátima para que não me caía nenhum calhau em cima da cabeça, e a ti aconselho-te a que faças o mesmo.
- Lá isso é verdade, também não me esquecerei de pedir o mesmo, aliás, já o costumava fazer sempre que “relampava e toava forte” quando me encontrava com as ovelhas lá pelas encostas da serra da Orada. O Senhor não conhece, mas a serra da Orada são uns montes lá próximo do meu lugar, de Petimão, por onde eu sempre guardei as nossas ovelhas.
- Agora descansa um bocado, enquanto eu vou dar por aí uma volta.
- Sim Senhor. Ah, e o gasómetro, tenho que ver se compro o gasómetro.
- Não te preocupes, descansa à tua vontade que eu vou comprar-te o gasómetro e o carboneto para o alimentar. Logo, trago-to já carregado e prontinho a funcionar, está bem?
- Muitíssimo obrigado, Senhor António. Se então me faz esse favor…
- Eu trato disso, está descansado, estende-te aí e dorme. Até logo.
- Até logo, Senhor António.

***
Às sete menos um quarto da tarde, o António, mais o seu amigo de Sobradelo da Goma, integraram um grupo de dez homens, tantos quantos a jaula podia transportar em direcção à plataforma, cerca de cem metros abaixo do nível da entrada, de onde seguiriam a pé, mina adiante, para um dos lados, até uma das frentes de trabalhos.
A jaula não era mais nem menos do que um elevador de grandes dimensões, mal parecido e robustez bastante, próprio para transportes pesados, a partir dos vários andares da mina, até ao tapete rolante, que descarregava para as lavarias, na margem do rio. Tinha um condutor que se encarregava do seu perfeito funcionamento. Nas horas de pegada e largada dos turnos, transportava os homens que largavam, para cima, e os que iam pegar, para baixo. Transportava também os materiais, como ferramentas, peças de madeira para os escoramentos de segurança das galerias e os explosivos para as frentes de fogo. Porém, o forte da actividade de transporte da jaula, eram as vagonetas, carregadas de escombros, onde se escondiam as pepitas e as lascas de volfrâmio.
Aconteceu que o rapaz de Petimão ficou mesmo a trabalhar no grupo do amigo de Sobradelo da Goma. Foi substituir outro que tinha apenas mais dois anos do que ele, que era dali de perto, da freguesia de Campos, concelho de Vieira do Minho, e deixara o trabalho nas minas porque acabara de ser chamado para a tropa. Parece que fora chamado para assentar praça num quartel da Região Militar de Lisboa.
O António, o de Petimão, quando soube deste pequeno particular, no momento em que era apresentado ao capataz daquela frente de trabalhos, pensou logo para com os seus botões: «Quem me dera que a mim me acontecesse o mesmo, daqui a ano e meio ou dois anos, ser chamado a assentar praça em Lisboa!».
Teve sorte, o nosso rapaz, porque não ficou de todo com estranhos. Há, por vezes, coincidências felizes, e esta, a de ter encontrado aquele homem, de Sobradelo da Goma, que tinha quase a mesma idade que a de seu pai, e até se parecia com ele, foi um achado.
Mas, o escuro do fundo da mina, onde apenas se via um pequeníssimo espaço em volta do bico dos gasómetros, e imaginar que estava a mais de cem metros de profundidade, são, muito naturalmente, coisas que não deixam de fazer pensar, e de fazer medo, mesmo ao mais forte dos fanfarrões. Ali, no fundo das minas, não havia fanfarrões, estavam todos debaixo da terra, sempre sujeitos a apanhar com um pedregulho, ou mesmo com uma avalanche de pedras e de terra, uma derrocada completa. O trabalho, ali, era de meter medo.
Ora, sendo isto é um simples conto, não nos vamos alongar em detalhes tais como o que comiam, quando e onde comiam, aqueles dois trabalhadores das minas, as suas refeições. Muito naturalmente, tomá-las-iam na cantina, a maior parte das vezes, outras vezes em qualquer sítio, ou até mesmo na camarata, um simples naco de broa, acompanhado por uma cebola salgada e empurrada com uma tigela de vinho.

(Continua)

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