Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 12-07-2010

SECÇÃO: Opinião

CONTOS DA SERRA E DOS VALES
A CAMINHO DAS MINAS

Por: Eduardo Metrosídero
(Continuação-7)
- O Senhor António é o número 9.984. Não significa que aqui trabalhem, neste momento, 9.984 homens, neste momento são mil e seiscentos e setenta e oito. Esse número, que tem aí na chapa, é o número sequencial de todos os que aqui trabalharam desde a data em que começou a fazer-se este tipo de registo, o seu ordenado é de catorze escudos por dia, os pagamentos são feitos à quinzena, sempre ao sábado, sábado sim, sábado não. Tem lugar vago para dormir numa camarata dos quartos novos, os quartos novos ficam lá em cima, naquelas casernas mais recentes, e na quinzena que está a decorrer, que se iniciou ontem, segunda-feira, vai trabalhar na mina do grupo A, aquela a que se desce através do cabrestante que ali vê em cima. O horário é o horário da noite, são dez horas de trabalho, começa às sete da tarde e termina às seis da manhã, tem uma hora de intervalo para descanso e comer o que puder e lhe apetecer, entre a meia-noite e a uma da madrugada.
O rapaz ouviu todo aquele conjunto de informações e ficou meio atordoado, ainda não se tinha libertado da sensação que tivera quando os seios robustos e duros da Maria Pequena lhe tinham tocado no seu peito, e agora nem tinha tomado tento conveniente em todo o conjunto de informações que o chefe do pessoal lhe acabara de ditar. Embora o tivesse feito de forma extremamente clara e pausada, não deixava de ser muita informação de uma vez só.
- Quer começar a trabalhar hoje mesmo? – perguntou quando terminava a exposição.
- Sim senhor, posso começar já – respondeu o rapaz.
- Então, está bem, começa hoje. Deve vir um bocado cansado, depois de fazer a caminhada de Cabeceiras até aqui, mas ainda tem toda a tarde para descansar, vou pedir a este senhor para lhe indicar a caserna e depois o caminho da mina.
Encontrava-se, naquele preciso momento, ali na secção, a tratar de assuntos pessoais, um trabalhador que por sinal estava instalado nos quartos novos e fazia aquele mesmo turno desde que se iniciara a quinzena. Os turnos alternavam, cada trabalhador fazia numa quinzena o turno do dia, na quinzena seguinte o turno da noite, a menos que manifestasse intenção em contrário. Assim, havia trabalhadores que sempre faziam o turno do dia e outros que sempre faziam o turno da noite, este procedimento era voluntário. O homem que ali se encontrava era o Senhor António Pimenta, natural da freguesia de Sobradelo da Goma, concelho da Póvoa de Lanhoso, não tinha tomado a iniciativa de qualquer opção e assim alternava os turnos, uma quinzena dia e na seguinte noite.
O chefe da secção de pessoal aproveitou para lhe pedir se fazia o favor de orientar o jovem até ao local onde ficava a camarata e depois, se fizesse o favor, também, de o orientar até à frente de trabalhos, no interior da mina, e apresentá-lo ao capataz.
- Sim senhor, com muito gosto – respondeu o homem da Póvoa de Lanhoso.
- Muito obrigado – agradeceu o chefe da secção de pessoal.
Encaminharam-se, os dois, estrada acima, no sentido dos quartos novos, passaram em frente do poço que dava acesso à mina do grupo A e ficava do lado direito da estrada, isto no sentido de quem subia. As estruturas de encaminhamento dos escombros, através de um tapete rolante, para as lavarias que ficavam ao fundo da encosta na margem do rio, saíam da parte mais alta da torre do cabrestante e passavam por cima da estrada e por cima do conjunto de casas que, desde a cantina, formavam uma espécie de rua, marginando toda a via até um pouco acima do poço onde se situava o sarilho.
O homem da Póvoa de Lanhoso começou a dar-lhe algumas explicações a partir dali:
- Não se assuste que isto não mete medo a ninguém, mas logo, às sete menos um quarto, temos que estar aqui junto da entrada do poço para descermos na jaula e estarmos na frente de trabalhos, lá bem em baixo, às sete horas em ponto.
- E como é que a gente desce, Senhor António?
- A gente desce dentro de uma geringonça a que chamam jaula, de facto é mesmo uma jaula, ou uma gaiola, uma coisa mais ou menos assim, entende? Ah, como é que o meu amigo se chama?
- Chamo-me António, António de Moura Pereira Coutinho, Moura por parte da mãe e Pereira Coutinho por parte do pai.
- Tem um nome quase nobre! O meu é, muito simplesmente, António Pimenta, apenas António para si. Temos o mesmo nome, tenho a certeza de que vamos dar-nos muito bem.
- Sim senhor, Senhor António, assim o espero, ao menos já tenho aqui um amigo, graças a Deus.
Os dois continuaram caminho até aos quartos novos, o veterano fez as perguntas da praxe, que idade tinha ao certo, quantos irmãos, se eram mais novos ou mais velhos, o que faziam os pais, qual o nome exacto do lugar e da freguesia de onde era natural, e outras coisas que, em circunstâncias semelhantes, é dos usos e costumes que sejam perguntadas. O rapaz respondeu a tudo dentro dos limites dos seus conhecimentos e das suas possibilidades, sempre a verdade, o jovem de Petimão não sabia mentir, não aumentava nem diminuía, uma palavra que fosse, em benefício ou em desabono do que a si próprio dizia respeito.
Chegaram à caserna, e dava-se o caso de se encontrar vago um dos beliches, que ficava mesmo ao lado daquele que era ocupado pelo Senhor António, também da parte de cima, os beliches têm, por norma, duas tarimbas, uma por baixo, outra por cima. Em casernas de grandes obras ou empreitadas até costumam ser mais procuradas as de baixo, são menos frias. De qualquer modo, sempre há alguém que gosta mais de ficar na parte superior, os odores são diferentes e as vistas também.

(Continua)

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