Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 12-07-2010

SECÇÃO: Opinião

S. BARTOLOMEU DA PONTE DE CAVEZ (IV)

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Convém esclarecer, que a velhinha romaria da Ponte de Cavez em honra a S. Bartolomeu não se resumia unicamente a pancadaria ou a levar com o santo na cabeça para expulsar os demónios alojados nos corpos das belas mocetonas das terras de Barroso.
Havia outras razões para que as multidões de gente vindas das terras ao redor estivessem presentes na citada ponte nos dias 23 e 24 de Agosto de cada ano. O local onde se realiza a referida romaria separa as Províncias do Baixo Minho e Trás-os- Montes através do rio Tâmega sendo o local de uma beleza invulgar.
Nas barraquinhas de comes e bebes os apreciadores do verde tinto produzido em Cavez, podiam igualmente petiscar bacalhau frito, bolinhos de bacalhau, iscas de fígado, pataniscas, sardinhas fritas, etc. Isto no que respeita a salgados porque em matéria de doces lá estavam as famosas doceiras da região expondo os seus produtos em mesas cobertas com toalhas de linho de brancura imaculada. Então lá estava o pão-de-ló, os rosquilhos, as cavacas e os rebuçados toscamente embrulhados. Se bem me recordo as doceiras eram a Ti Cândida da Rebufa, a Idalina da Tia Teresa a Miquelina Serrôa a Teresa Tiaga e outra. Havia sempre alguém a vender café de chocolateira e que bem sabia pela madrugada dentro acompanhado de uma cavaca..
Era sempre uma constante a presença de concertinas e dos melhores cantadores ao desafio. De vez enquanto batia-se o vira no terreiro á boa maneira das gentes do Minho…
O local foi em tempos motivos de grandes disputas. Os do lado de lá reclamavam a posse da fonte porque curavam as doenças de pele e outros males. Trata-se de uma fonte de àguas sulfurosas com um forte cheiro a óxido de enxofre e sabor difícil de tragar mas que na crença do povo eram tão somente “águas santas”.
Os de cá diziam que o Santo lhes pertencia porque tinha o poder de expulsar os demónios dos corpos das pessoas.
Assim; quando os de lá gritavam” a fonte é nossa” os de cá respondiam “ e o santo e nosso”.
Por razões que não importa referir, estive muitos anos afastado de Cavez e outros tantos da romaria do S.Bartolomeu.
Um dia, por capricho do destino aconteceu algo inesperado que me fez regressar à minha terra e à casinha onde nasci… Ruído de saudades tentei trazer à memoria todas as recordações da minha infância, e a recordação primária era a de volta à ponte de Cavez no dia de S. Bartolomeu.
Um dia, para satisfação minha, tal desejo aconteceu. E então notei que muita coisa havia mudado e mudado obviamente para melhor. Já não se via cacetes nem caceteiros, nem disputas de nenhuma espécie. O povo divertia-se de forma ordeira, as barracas continuam servindo agora refeições completas, as doceiras vendem agora uma grande variedade de doces de óptima qualidade.
As filas de acesso à fonte continuam mais para cumprir a tradição do que propriamente por outro motivo. As idas à capela para levar com o Santo na cabeça, faz-se mais por brincadeira porque já não há demónios à solta.
Há ranchos e conjuntos musicais para animar a festa e o baile é feito no meio da estrada.
Agora o ponto alto da festa é sem dúvida o fogo de artificio que atrai muita gente à noite e espera pacientemente que chegue a meia noite altura em que começa o grande espectáculo de pirotecnia que vem melhorando de ano para ano e já comparado ao de outras grandes romarias.
E para terminar não quero deixar de referir aqui os meus amigos Manuel Pinto e o Albino que todos os anos encontro no local habitual dando brilhantismo à festa através do acordeão e da concertina, sendo o Pinto igualmente um bom cantador ao desafio S. Bartolomeu da Ponte – Tão velhinha romaria – Que conservas a tradição – Falta só pancadaria.
Bem-haja S.Bartolomeu… Até sempre….

Por: Alexandre Teixeira

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