|
CONTOS DA SERRA E DOS VALES A CAMINHO DAS MINAS
Por: Eduardo Metrosídero (Continuação-7) Quando iam mesmo a meio da ponte, lembrou-se: - Ah, espera aí, não te despediste do grupo. Anda cá, se não as mulheres não nos perdoam. Voltaram para trás e o rapaz despediu-se de cada uma delas com um aperto de mão e repetindo: - Muito prazer pela sua companhia e muito obrigado. Todas responderam da mesma forma: - O prazer foi todo meu, que tenhas muita sorte neste teu novo trabalho. Reparou, enquanto lhe apertava a mão, nos olhos da Matilde. Sem dúvida que tinham um brilho especial, porém, extremamente retraído e envergonhado, não soltou palavra, apenas pensou: «Raio de rapariga, é mesmo bonita, mas é certamente um pedaço mais velha do que eu, não é fruta para os meus dentes, adiante, agora preciso é de trabalhar e ganhar algum dinheiro». E que terá pensado a rapariga naquele mesmo instante em que fixou os olhos do rapaz? Os pensamentos das mulheres são muito mais difíceis de adivinhar do que os pensamentos dos homens, é dos livros, e, quanto a isso, ninguém tem dúvidas. Todavia, ficou a saber-se, mal o rapaz virou costas, o que efectivamente pensou: - O diacho do rapaz é bem jeitoso, que idade terá ele? – perguntou, assim como quem não quer a coisa, para aquela que, junto à fonte da Grila, se tinha espraiado em considerações quanto ao modo de as mulheres, mais ou menos facilmente, se aliviarem de águas. - Deve ter, ou estar para fazer, dezanove. Dizem que vai às sortes no próximo ano – respondeu a outra. - É, é pena ser tão novo, precisava de ter mais aí pelo menos uma meia dúzia, não lhe parece? - Não, não me parece nada. Nestas coisas de rapazes, e de raparigas também, o que interessa é o físico e a aparência. Olha, eu não se me dava nada se me aparecesse aí um rapazola de vinte e poucos anos e, como sabes, já cá conto quarenta e cinco… - É, mas isso é vossemecê que é pau para toda a colher… - Pau para toda a colher não, eu sou muito senhora do meu nariz, e olha que aqui nunca pousou um qualquer… - Sim, sim, desculpe, mas o Tonho sempre é uma beleza de um moço. É verdade, ou não é, Senhora Isaltina? - É, tens razão, pode ser que ele perca a vergonha em trabalhando aqui algumas semanas. Quem sabe, daqui a dois ou três meses ainda te vai lançar o anzol… A conversa entre as duas continuou naqueles precisos termos, juntaram-se logo as outras, e só pararam quando a Maria Pequena regressou, depois de ter deixado o rapaz junto à secção de pessoal.
*** Na secção de pessoal trabalhavam quatro pessoas, tudo homens. O chefe era um sujeito de meia-idade, cerca de quarenta anos. Por esta altura, ano de 1943, encontrando-se a segunda Guerra Mundial no seu auge, havia forte procura do minério que ali era explorado, o volfrâmio, e trabalhavam nas minas cerca de dois mil homens. Por isso mesmo, o número de quatro funcionários, na secção de pessoal, até pode considerar-se bastante reduzido. A Maria Pequena levou o rapaz até à entrada da porta da secção, indicando-lhe o sítio exacto, mas não entrou. Se o acompanhasse até à apresentação, poderia deixar a ideia de que se tratava de um qualquer menino da mamã, e, para ali, para aquele trabalho no fundo das minas, precisava-se de homens que, mesmo sendo jovens, deveriam parecer que eram de têmpera rija. Deixou-lhe as dicas e que dissesse que ia de mando do Senhor Director, que uma pessoa amiga já tinha falado com ele e que ele dissera para que se apresentasse naquele serviço. Naquele momento, em que se preparava para o deixar à entrada da secção de pessoal, puxou-o para si, fez-lhe um afago na parte superior da testa, levantou-lhe a boina um pouco para cima e compôs-lhe os cabelos com a palma da mão direita, assim como quem lhes dá um jeito no sentido da frente para trás. Inadvertidamente, não temos qualquer sombra de dúvida quanto a isso, tocou com as pontas dos seus seios robustos no peito do rapaz. Este sentiu uma sensação estranhíssima, nunca lhe tinha acontecido uma coisa assim. A mulher separou-se dele, dizendo: - Agora é contigo, entra e vê se te desenrascas. Na próxima semana, estaremos aqui para saber como tudo te terá corrido. O chefe da secção recebeu-o com muito bons modos, tomou nota de todos os elementos de identificação, reparando que era de menor idade, perguntou se levava a autorização assinada pelo pai, que sim senhor, o rapaz passou-lha de imediato para a frente, tudo em ordem. Deu-lhe uma chapinha redonda, em alumínio, com o seu número de registo na companhia, era o número 9.984, e explicou-lhe:
(Continua)
|