Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 21-06-2010

SECÇÃO: Opinião

S. BARTOLOMEU DA PONTE DE CAVEZ

Já falamos do S.Bartolomeu Camiliano e dos acontecimentos ocorridos naquela trágica noite de 23 de Agosto de 1842 onde perderam a vida dois dos mais famosos jogadores de pau de toda a região de Basto por motivos passionais.
Falemos agora da romaria de S.Bartolomeu da década 30/40, que afinal não diferia assim tanto daquilo que acontecia duas centenas de anos antes, ou seja; o S.Bartolomeu dos meus tempos de criança.
Ansiosamente, os rapazes e raparigas do meu tempo aguardavam a chegada da festa de S.Bartolomeu ou S.Mertolameu como alguns diziam, como uma bênção de Deus. Juntávamos os tostões que havíamos amealhado ao longo do ano e de calção domingueiro ou vestido de chita, chancas ensebadas com gordura de porco ou tamanquinhas de verniz lá ia um ranchinho monte abaixo ao entardecer até atingir o coração da romaria que era e continua a ser a Ponte de Cavez.

A distância era curta dado que todos nós nascemos nessa freguesia e cedo nos habituamos a memorizar todos os episódios que em cada romaria ia acontecendo ao longo dos anos, sempre acicatados pela curiosidade de ver os grandes caceteiros exibir a sua mestria na arte de manejar um pau de lódo e varrer a romaria pondo os romeiros em debandada entoando gritos lacinantes à medida que o sangue espilrava das suas cabeças.
Eram sempre espectáculos dignos de uma pureza selvagem e de ódios recalcados quantas vezes um ano inteiro para serem despoletados no palco da romaria, tristemente famosa devido aos brutos arruaceiros que traziam sempre a justiça na ponta do pau.
Com o decorrer do tempo, foi-se instituindo o hábito de saldar rixas antigas na referida romaria e era frequente ouvir-se dizer; “espera lá meu melrinho que no S.Bartolomeu vais pagá-las todas”.
Então atempadamente as duas partes tratavam de arranjar os melhores caceteiros da região para se baterem por causas que às vezes nem lhe diziam nada. E assim no dia 23 de Agosto lá se reuniram em plena noitada para concertar o plano de ataque ao grupo contrário e a coisa acontecia da seguinte forma: armados de paus de lódo estavam todos os intervenientes e alguns até tinham no bolso a fusca para dar uns tiros se fosse preciso. À frente uma concertina entoando marchas marciais em passo de corrida, atrás os caceteiros com os paus virados ao alto tocando-se nas extremidades pronunciando uma batalha prestes a acontecer. Atravessavam a ponte repetidamente e quando as rusgas se cruzavam aconteciam provocações de parte a parte, até acontecer o confronto físico.
Havia jogadores de pau que se destacavam amplamente no meio da contenda tal era a sua mestria na arte de manejar o cacete. Com plena facilidade davam saltos acrobáticos tanto a defender como a atacar até que depois de umas cabeças rachadas a batalha terminava sem glória para ninguém.
A festa voltava ao seu normal e as tascas lá iam fazendo o seu negócio até ao romper do dia.
Recordo-me de um borrachola que foi interveniente numa cena de pancadaria e quando atingido no baixo-ventre e com os intestinos à mostra despejava vinho nos mesmos e comia bacalhau frito. Foi uma cena macabra que eu presenciei na minha condição de rapazinho. Ao ver aquele ventre rasgado por uma impiedosa facada.
Recordo-me igualmente de ver um homem a fugir de um grupo de pistoleiros que o perseguiam ferozmente. De tal maneira acossado o homem galgou as leiras da quinta da ponte mergulhou no rio e fez a travessia debaixo d água até à outra margem.

(Continua)

Por: Alexandre Teixeira

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