Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 21-06-2010

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (123)

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VUVUZELAS

Numa altura em que se vai acentuando, cada vez mais, o meu receio de vir a confrontar-me com falta de assunto para prosseguir com esta minha série de crónicas, o que vai sendo facto é que, semana após semana, lá aparece mais uma situação que me traz grande felicidade. Agora, e graças ao mundial de futebol que decorre na África do Sul, são as vuvuzelas. Ó maravilha das maravilhas!
A vuvuzela é uma corneta, um instrumento de sopro, como toda a gente sabe. Ainda não passaram grandes dias, que ouvi alguém comentar, alto e bom som, que, actualmente, o que mais há são cornetas. Fazendo jus à minha crónica simplicidade, logo depreendi que o orador deveria estar a referir-se a cornetas instrumento. Enganei-me. O sujeito acrescentaria, logo a seguir, que, dada a evolução social reinante, já havia mais cornetas homens do que cornetas mulheres. Falava, como está mesmo a ver-se, de outro tipo de cornetas. Não era de nada parecido com vuvuzelas, certamente!
Sabendo de tudo isto, tive sérias dúvidas em abordar este tema, para suprir a minha falta de assuntos, para estas crónicas. Depois de ponderada seriamente a questão, conclui que, efectivamente, nada teria a temer. O caso que aqui vou relatar tem a ver com cornetas instrumento, e nada mais.
Corria o mês de Fevereiro de 1973. Ainda não tinha acontecido o vinte e cinco de Abril. Eu tinha terminado o meu serviço militar, já lá iam quase três anos, acabava de estabelecer residência fixa na área do Grande Porto, mais concretamente, em S. Mamede de Infesta, e trabalhava no Banco Borges & Irmão, nas instalações da sede, à Rua de Sá Bandeira.
Desde os meus tempos de serviço militar, que eu mantinha uma grande paixão por ouvir emissoras estrangeiras, nomeadamente a BBC de Londres, a Rádio Voz da América, a Rádio Moscovo, a Rádio Pequim, a Rádio Voz da Alemanha, a Rádio Praga da Checoslováquia e muitas outras. Continuava a gostar também de captar mensagens em morse. Tudo fruto da experiência vivida, exactamente, no desempenho da minha especialidade durante a maior parte de serviço militar.
Convirá referir que, naqueles tempos, era bastante arriscado qualquer um pôr-se a escutar emissoras estrangeiras, ou a captar mensagens em morse. A PIDE, agora rebaptizada de DGS (Direcção-Geral de Segurança), andava de ouvidos pelas portas e pelas paredes dos incautos, em particular de todo e qualquer um que fosse objecto de uma simples “bufadela”.
Quando cheguei do serviço militar, e enquanto me fixei por Cabeceiras, fiz uso de um portátil, a pilhas, um sony, que adquirira a bordo do Navio Motor Timor, mercadoria comercializada a bordo que vinha de Hong Kong. Porém, quando fui para o Porto, passado pouco mais de um ano, acabei por deixar o rádio em casa dos meus pais, não tive coragem de o levar.
De modos que, numa tarde desse mês de Fevereiro, depois de sair do Banco, subi a rua de Sá da Bandeira, entrei numa loja de electrodomésticos, que se chamava Electrovisão, e comprei um rádio de mesa, ou de sala, equipado com ondas curtas. Concluída a compra, fui surpreendido com uma oferta especial. Eu não sabia de nada, mas encontrava-se em curso uma campanha que premiava, todo e qualquer cliente, que fizesse um dado montante de despesa em compras de electrodomésticos, com uma viagem de comboio a Lisboa, e respectivo bilhete para ingresso no estádio de Alvalade, para assistir ao desafio entre o Sporting e o Futebol Clube do Porto, para o campeonato nacional da primeira divisão.
Um colega de trabalho, de seu nome José Casimiro Graçoeiro Malho, que era um sportinguista ferrenho, logo que soube da minha ida a Lisboa, para assistir ao desafio, não desarmou:
- Amigo Oliveira, tem que me trazer uma corneta.
- Uma corneta? - questionei.
- Sim, não sabe que há uma campanha do clube, que apela a que todos os sócios e simpatizantes, que assistam aos desafios no Estádio de Alvalade, se façam acompanhar de uma corneta com as cores do clube? Já imaginou o que são cinquenta ou sessenta mil cornetas a tocar durante o desafio? Isto é uma coisa do outro mundo! Amigo Oliveira, traga-me uma corneta, que eu pago-lha.
- Ó amigo Miro, isso não é questão de pagar ou deixar de pagar, fique tranquilo que eu, se puder, trazer-lhe-ei a corneta.
- Assim o espero, amigo Oliveira…
Naquele tempo, eu não era sportinguista, nem portista. Poderei dizer que ainda trazia alguma simpatia pelo Benfica, desde os tempos em que este ganhara duas taças dos clubes campeões europeus, seguidas, e eu, com outros da minha geração, jogávamos à bola, na estrada, em frente dos portões da Casa da Ramada, em Abadim, e era admirador do guarda-redes titular do clube da Luz, o Costa Pereira.
O estádio de José Alvalade encheu, a claque do Porto não era coisa que se visse, o resultado final foi um empate a uma bola, o guarda-redes do Porto era o Rui, o do Sporting, já não me lembro bem, mas deverá ter sido o Vítor Damas. No que respeita a cornetas, efectivamente, não se via outra coisa, era tudo verde e branco, e a barulheira infernal.
Com receio que esgotassem, comprei a encomenda do Miro logo à entrada. No decurso do encontro, não tive qualquer tipo de problema porque me encontrava rodeado de sportinguistas. Para não gerar dúvidas nos parceiros do lado, tentei dar uns sopros, sem grande êxito. Não tinha jeito para aquilo.
E o regresso? No interior da carruagem, só de portistas? E eu, com a corneta, que tinha mais de sessenta centímetros, debaixo do braço?
Àquele grupo de sete ou oito que compartilhavam o assento comigo, ou que ficavam adjacentes, tive o cuidado de explicar a minha odisseia logo à entrada. Todos compreenderam, uns mais convictos do que outros, mas, que seguisse a minha vida. Não se esqueça de que segue em território de portistas, fizeram questão de ressalvar dois deles.
O pior era quando, como em todos os comboios acontece, apareciam aqueles grupos que percorrem a carruagem passando de umas para as outras.
- Eh pá! Este não é dos nossos.
Ouvi eu com muita frequência.
- Desculpem, é uma encomenda para um grande amigo – tentava explicar.
O comboio, que era especial, saiu de Santa Apolónia por volta das sete da tarde e chegou a S. Bento próximo da meia-noite.
Felizmente, cheguei são e salvo. No dia seguinte, segunda-feira, entreguei a encomenda ao Casimiro e contei-lhe toda a história. Este, que já era meu amigo, jurou-me que, a partir daquele momento eu seria, para sempre, o seu melhor amigo. E, de facto, assim foi.
Observando o que são e o que fazem hoje as claques, ainda me arrepio de medo, sempre que penso na minha figura daquela tarde de um domingo de Fevereiro de 1973.

Por: José Costa Oliveira

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