Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-05-2010

SECÇÃO: Opinião

CONTOS DA SERRA E DOS VALES
A CAMINHO DAS MINAS

Consta, porém, de vários escritos, que as moças novas não se davam, assim, a tantas facilidades, e sempre se recolhiam a sitio mais ou menos reservado e o faziam de forma ligeiramente diferente, talvez de cócoras! Não passou despercebido o facto de a Matilde se ter ausentado, por alguns minutos, para a parte de trás de uma touça de giestas mais elevadas, que havia do lado oposto aos penedos para onde se dirigira o António.
Desculpando-nos pelos dois pequenos apartes que acabamos de introduzir, continuemos com o relato da viagem, agora em fase de descanso, junto à bica da fonte da Grila.
- Minhas senhoras, hoje vão provar do meu vinho, ou melhor do vinho do meu pai, do Senhor José Pereira Coutinho do lugar de Petimão, freguesia de Alvite. Toda a gente que tenho visto cruzar-se com o meu pai, a primeira coisa que lhes costumo ouvir dizer é que o meu pai tem um dos melhores vinhos da região. Faço questão que todos bebamos do meu vinho, daqui deste garrafão, e que seja ao meu sucesso no trabalho das minas da Borralha – proferiu o António deixando as mulheres todas embasbacadas, muito em particular a sua protectora de ocasião, a Maria Pequena.
Na verdade, a pequena propriedade dos pais do António gozava de uma localização excelente, ficava voltada a sul com uma ligeira inclinação para nascente. Quer isto dizer que tinha sol desde que nascia até que se escondia lá para os lados de S. Clemente, por detrás da serra de Fafe. O vinho era de uma cor vivíssima e elevado teor de álcool, uma simples tigela de meio quartilho era suficiente para que qualquer sujeito, por mais habituado que estivesse, ficasse com as orelhas e a ponta do nariz da mesma cor da do líquido acabado de ingerir.
- Não, meu bom rapaz, esse vinho vai fazer-te muito jeito para te alegrar os primeiros dias, sempre que saias do fundo das minas, no fim de cada turno de trabalho, lá debaixo da terra, às escuras, só com a luz do gasómetro – interrompeu a Maria Pequena.
- Não, Senhora Maria, faça favor de desculpar, mas eu faço questão que bebamos do meu vinho.
- Não, está lá calado. Faz como te digo, todas nós já tomamos conta do teu gesto, por sinal um gesto digno de ser apreciado, mas deixa lá, guarda o teu vinho para o que já acabei de te referir, agora, e sendo hoje a primeira vez que viajas connosco, vamos beber todos aqui deste meu garrafão e, o pouco que possa sobrar, acabaremos com ele em chegando às minas. Não se fala mais no assunto, está bem?
- Está bem, está bem, Senhora Maria. Muito obrigado, se é assim que querem, quem sou eu para dar aqui ordens…
Desta vez, nenhum dos garrafões foi atestado com água pura da bica da fonte. Ninguém se desmanchou e beberam efectivamente todos, as sete mulheres e o rapaz, do garrafão da chefe da comitiva, restou um pouco menos de meio e assim seguiu até às margens do rio da Borralha, onde o grupo viria a chegar quando passavam vinte minutos do meio-dia.
Naquela segunda fase da tirada, quando passavam junto da capela do Senhor dos Aflitos, a Maltilde lembrou-se de dar um ar da sua graça de cantadeira e soltou uma das quadras de uma das cantigas que faziam parte do vasto reportório do Rancho Folclórico de S. Clemente de Basto. A letra da quadra versava assim:
«Ai, ó ribeira, ó ribeira;
Ó ribeira que és tamanha;
Estou afeita na ribeira;
Ai, não me afaço na montanha».
O grupo bateu palmas e deu continuidade à cantiga entoando o refrão a que a Matilde começou por dar o mote.

***

Chegados ao centro do couto mineiro, as mulheres pousaram os cestos no pequeno largo que, da margem esquerda do rio, dava acesso à ponte de onde partia a estrada que seguia na direcção do edifício dos escritórios e da residência do director das minas.
A primeira coisa que fizeram foi comer mais uma pequena bucha, beberam o resto do vinho do garrafão e, passados dez minutos, a Maria Pequena iria acompanhar o rapaz até à secção de pessoal que, como já sabemos, ficava na extremidade nascente do edifício onde funcionava a cantina. Para se chegar à entrada, caminhava-se uns dez ou quinze metros, através de um passeio bordejado por uma pequena sebe de mirtos, a partir da estrada, ou da rua, que seguia do lado da ponte.
- Ah! Tens que comprar um gasómetro – lembrou a mulher.
- Onde é que os há, Senhora Maria?
- Ali adiante, ao fundo daquele edifício, na secção dos géneros e ferramentas da cantina. Vais, com certeza, ter que usar uma pá e uma picareta, mas esses levanta-los na ferramentaria, agora o gasómetro tens que o comprar e ficar com ele para ti. Tens também que comprar o carboneto para o alimentar. O carboneto é vendido no mesmo sítio onde se pode comprar toda a sorte de coisas e mercearias.
(Continua)

Por: Eduardo Metrosídero
(Continuação-6)

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